Além da Amazônia, o Pantanal, a maior zona úmida da Terra, e áreas de biodiversidade únicas, como o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, também são consumidos pelo fogo, descreve o Libération.
No Brasil, garimpeiros em busca de ouro e agricultores sempre tiveram o costume de queimar a vegetação para preparar o solo antes do plantio. As autoridades enfrentam novos inimigos na preservação dos biomas: facções criminosas pró-desmatamento, assinala o diário, que o governo não consegue enfrentar. Em São Paulo, mais de 90% dos incêndios ocorridos nas últimas semanas foram causados pela ação humana, o que surpreendeu as autoridades.
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A especialista em clima Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), declara ao jornal francês que “a estupidez humana e a corrida pelo dinheiro estão arrastando o mundo para um suicídio coletivo”. “O mundo está comendo a Amazônia”, diz ela revoltada, referindo-se ao desmatamento decorrente do plantio da soja exportada para alimentação animal e o comércio do couro.

A França ainda importa mais de 90% da soja consumida para ração animal, principalmente do Brasil.
O francês Boris Patentreger, diretor da ONG Mighty Earth, endossa o grito de revolta da brasileira, e diz que a França deve atualizar sua estratégia nacional de 2019 contra o desmatamento importado. A legislação europeia que entra em vigor em janeiro de 2025, proibindo a venda de produtos de áreas desmatadas.
“Atualmente, não há preços de soja para 2025”, o que significa que os compradores não têm ideia do preço para seus pedidos no próximo ano, disse à AFP David Saelens, criador de bovinos na região de Somme e chefe de nutrição animal da Cooperativa Agrícola do país. “Isso cria problemas organizacionais para as fábricas de ração e gera riscos de interrupções no fornecimento e preços mais altos”, acrescenta.
O regulamento europeu visa proibir, a partir de 2025, as importações de café, cacau, borracha, óleo de palma, soja, carne bovina e madeira que tenham contribuído para o desmatamento.
Mas os detalhes de sua aplicação ainda não estão claros, “especialmente no que diz respeito aos meios de certificar a soja importada como antidesmatamento”, observa o Sindicato Nacional da Indústria de Nutrição Animal da França. Os questionamentos são: quais informações precisam ser transmitidas, para quem e até quando?
Como resultado, “a maioria dos importadores e fornecedores suspendeu suas cotações, e seus clientes, os fabricantes de ração animal, têm apenas informações muito parciais e insuficientes sobre as quantidades disponíveis”, acrescenta a organização.
90% de soja importada
Embora a França tenha tentado aumentar sua produção de sementes oleaginosas nos últimos anos, ainda importa mais de 90% da soja consumida para ração animal, principalmente do Brasil, de acordo com a Cooperativa Agrícola.
A Solteam, uma das principais importadoras de soja da França, diz estar “confiante” em sua capacidade de cumprir a nova regulamentação. No entanto, o regulamento “apresenta uma série de desafios operacionais, a começar pela plataforma de troca de dados”, que ainda não está disponível, observa seu diretor administrativo Laurent Houis em uma mensagem à AFP.
Espera-se que Bruxelas lance as diretrizes mais detalhadas no quarto trimestre, mas, enquanto isso, “não comunicamos preços publicamente para o mercado francês após dezembro de 2024”, afirma.
Emergência climática
Mas o editorial do Libération enfatiza que o mundo está diante de uma emergência climática. O ponto de não retorno no papel regulador da Amazônia para o equilíbrio climático global, tantas vezes evocado pelos cientistas, está chegando mais rápido do que se pensava. “Os brasileiros e vizinhos de oito países da região estão sendo asfixiados pela fumaça que já cobre 60% do território brasileiro”, aponta o jornal.
“Será que ainda é preciso lembrar o impacto desses incêndios sobre a saúde humana”, questiona o editorial, diante do aumento de casos de conjuntivite, rinite, asma, pneumonia e outras doenças agravadas pela inalação da fumaça tóxica proveniente das queimadas.
O jornal de linha editorial progressista reconhece que o desmatamento caiu pela metade no ano passado em relação a 2022. “Seria mentiroso dizer que nada foi feito, mas é indiscutível que é preciso fazer mais, muito mais, para preservar o que resta da Amazônia”, conclui o Libération.
