O governo dos Estados Unidos abriu uma ampla investigação contra as maiores empresas do setor de carnes que atuam no país, incluindo duas companhias controladas por capital brasileiro: a JBS Foods USA, ligada ao empresário Joesley Batista, e a National Beef, controlada pela MBRF — grupo resultante da fusão entre BRF e Marfrig.
A ofensiva foi anunciada poucos dias após o encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Donald Trump, em Washington, aumentando a tensão econômica entre Brasil e Estados Unidos em um momento delicado para o comércio internacional.
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As empresas investigadas fazem parte do grupo conhecido como “Big Four”, que domina cerca de 85% do mercado de processamento de carne bovina nos EUA. Além das brasileiras, também estão na lista as americanas Tyson Foods e Cargill.
Segundo o Departamento de Justiça norte-americano, a investigação busca apurar possíveis práticas anticoncorrenciais, manipulação de preços e concentração excessiva de mercado no setor alimentício. O governo também anunciou recompensas financeiras para denunciantes que apresentarem provas de irregularidades.
Durante coletiva em Washington, o conselheiro de Comércio e Manufatura da Casa Branca, Peter Navarro, fez declarações duras sobre a presença estrangeira no setor de alimentos dos EUA.
“Metade das quatro maiores empresas são brasileiras. Precisamos nos preocupar não apenas com cartel e abuso de preços, mas também com a influência estrangeira na nossa cadeia de abastecimento”, afirmou Navarro.
A fala foi interpretada por analistas como mais um movimento do governo Trump em defesa de políticas protecionistas e nacionalistas, especialmente em um cenário de inflação persistente dos alimentos nos Estados Unidos.
Pressão política e inflação da carne
O aumento do preço da carne se tornou um dos principais problemas econômicos enfrentados pela gestão Trump em 2026. A inflação alimentar vem pressionando consumidores americanos e impactando os índices de popularidade do presidente às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato.
Especialistas avaliam que a investigação pode ter forte componente político.
A professora de Relações Internacionais Priscila Caneparo, da PUC-SP e Unicuritiba, afirmou à imprensa que a medida mistura política antitruste, segurança alimentar e nacionalismo econômico, colocando empresas brasileiras sob suspeita em setores considerados estratégicos pelos EUA.
Já a cientista política Natali Hoff, da PUCPR, avalia que a Casa Branca tenta transferir parte da responsabilidade pela alta dos preços aos frigoríficos estrangeiros.
“Há uma tentativa de transformar uma discussão econômica em um debate de segurança nacional”, explicou a pesquisadora.
Joesley Batista e articulação política
De acordo com informações publicadas por veículos como Reuters e O Globo, Joesley Batista teria participado de articulações relacionadas ao encontro entre Lula e Trump em Washington.
Outro ponto que chamou atenção em Washington foi a relação política entre a JBS e o presidente americano. A Pilgrim’s Pride, subsidiária da JBS Foods USA, esteve entre as maiores doadoras da campanha presidencial republicana de 2024, contribuindo com cerca de US$ 5 milhões.
Durante entrevista após o encontro bilateral, Lula fez uma brincadeira ao comentar o almoço servido na Casa Branca, que incluía filé bovino grelhado.
“Fiquei curioso para saber se era carne brasileira, mas não quis perguntar porque poderia não ser”, disse o presidente brasileiro, em tom descontraído.

Joesley Batista, da JBS, teria sido um dos articuladores do encontro entre Lula e Trump
Empresas negam irregularidades
Em nota enviada à imprensa, a MBRF afirmou que atua em conformidade com as leis de defesa da concorrência nos Estados Unidos e destacou que a National Beef possui participação de centenas de produtores rurais americanos em sua estrutura societária.
A JBS e a holding J&F ainda não haviam se manifestado oficialmente até o fechamento das reportagens publicadas pela imprensa internacional.
O Departamento de Justiça dos EUA e o Itamaraty também foram procurados por veículos brasileiros e estrangeiros, mas não divulgaram comentários adicionais sobre o caso.
Mercado global observa impacto
Analistas do setor avaliam que a investigação pode gerar impactos relevantes no comércio internacional de proteínas, especialmente nas exportações brasileiras para os Estados Unidos e China.
O Brasil é atualmente um dos maiores exportadores de carne bovina do mundo, enquanto a JBS lidera globalmente o processamento de proteínas animais, com operações em dezenas de países.
Caso as investigações avancem para sanções ou restrições regulatórias, o episódio pode provocar novos atritos comerciais entre Brasília e Washington em meio à crescente disputa global por segurança alimentar e controle das cadeias de abastecimento.
