Internacional

Roma

Conclave mais internacional da história começa com Igreja dividida

Com representantes de 70 países, evento será decisivo para definir os rumos da Igreja Católica após a morte do papa Francisco.


O cardeal canadense Thomas Christopher Collins (dir) e o cardeal canadense Francis Leo caminham pela rua Via della Conciliazione, perto do Vaticano, com a Basílica de São Pedro ao fundo em 05 de maio de 2025 – Foto: Dimitar Dilkoff/AFP

Na quarta-feira (7), o Vaticano dará início ao conclave mais internacional da história da Igreja Católica, reunindo 133 cardeais eleitores com menos de 80 anos, provenientes de 70 países. A missão: eleger o sucessor do papa Francisco, falecido em 21 de abril, aos 88 anos.

A palavra “conclave”, derivada do latim cum clavis (“com chave”), remete ao caráter secreto do processo. A eleição ocorrerá na Capela Sistina, fechada ao público e preparada especialmente para o ritual, que segue tradições da Idade Média. Os cardeais permanecerão reclusos até que um nome receba dois terços dos votos. Quando isso acontecer, a fumaça branca da chaminé anunciará ao mundo o novo pontífice.

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Na manhã desta segunda-feira (5), técnicos trabalhavam na instalação das cortinas vermelhas na sacada da Basílica de São Pedro — local da primeira aparição do novo papa. A movimentação é um indicativo claro da iminência da decisão.

Igreja dividida e atenção global

Este conclave atrai uma atenção global sem precedentes, com cerca de 5 mil jornalistas credenciados. Além do forte interesse religioso, há apostas milionárias sobre quem será o novo papa e até um filme inspirado no processo — Conclave, estrelado por Ralph Fiennes, lançado em 2024.

Com quatro votações por dia (duas pela manhã e duas à tarde), o resultado é imprevisível. A Igreja Católica se vê hoje dividida entre alas reformistas, que desejam continuidade ao legado de Francisco, e setores conservadores que pedem um retorno às tradições.

Favoritos: de progressistas a conservadores

Entre os principais papabili — os cardeais considerados favoritos — destaca-se o filipino Luis Antonio Tagle, apelidado de “Francisco asiático” por seu carisma e proximidade com os pobres. Outro nome forte é o italiano Pietro Parolin, atual secretário de Estado do Vaticano, com perfil moderado e conciliador.

Também italiano, Matteo Zuppi é da ala progressista, com forte atuação diplomática, especialmente na mediação de conflitos e na guerra da Ucrânia. Já no campo conservador, o cardeal guineense Robert Sarah surge como possível escolha — e representaria, caso eleito, o primeiro papa africano da história.

Da França, surgem nomes como François-Xavier Bustillo, Jean-Marc Aveline e Dominique Mamberti. O Brasil também está representado com cardeais como Dom Odilo Scherer, Dom Orani Tempesta e Dom Sérgio da Rocha.

Outro nome que não pode ser esquecido é do arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, que foi incluído na lista de possíveis sucessores do papa Francisco, divulgada na última sexta-feira (2) pela agência Reuters.

Dom Leonardo Steiner é apontado pela Reuters como possível sucessor do Papa Francisco – Foto: Arquidiocese de Manaus

Aos 74 anos, Steiner é reconhecido por defender pautas como a preservação ambiental e o diálogo inter-religioso, bandeiras também priorizadas pelo atual pontífice, falecido em 21 de abril deste ano.

Nomeado cardeal em 2022, Steiner tornou-se o primeiro da Amazônia a integrar o Colégio Cardinalício. Na época, afirmou que a nomeação representava um reconhecimento à região. “É uma alegria ter um cardeal na Amazônia, que não ficou esquecida pelo papa”, disse.

Apesar das apostas e especulações, nenhum nome está descartado. O perfil ideal do novo papa ainda está em discussão, com os cardeais debatendo nos dias que antecedem a votação.

Uma Igreja em transformação

O próximo pontífice enfrentará questões sensíveis: o papel das mulheres, a transparência financeira, a bênção a casais homoafetivos, a proteção a imigrantes e a renovação das estruturas diocesanas, em crise de vocações.

“Precisamos de alguém que esteja presente, próximo, capaz de servir de ponte e de guia para uma humanidade desorientada”, disseram os cardeais reunidos nesta segunda-feira.

O arcebispo de Singapura, William Goh, ponderou: “Reconhecemos o que Francisco fez, mas nenhum papa é perfeito. Encontraremos o sucessor de São Pedro”. Já o arcebispo de Argel, Jean Paul Vesco, espera que o novo papa continue o legado reformista de Francisco.

África tem chance

Apesar de representar 20% dos católicos do mundo, a África tem apenas 12% dos votos no conclave, com 17 cardeais eleitores. A possibilidade de um papa africano é comentada, mas não deve ser o único critério, afirma o padre Jean-Paul Sagadou, de Burkina Faso.

“A Igreja africana continua aberta ao que for decidido para o mundo. A geografia não deve ser o foco, mas sim a espiritualidade”, afirmou.

Consenso e carisma

Segundo o vaticanista Marco Politi, o próximo papa precisará ser uma figura de consenso. “É o conclave mais espetacular dos últimos 50 anos, e também um dos mais difíceis. Muitos cardeais não se conhecem e vêm de contextos muito distintos”, afirma.

Para ele, o novo pontífice deve “reconstruir, dar novo impulso à vida religiosa na base e ter presença internacional”. Também será preciso decidir se as reformas de Francisco — como o fortalecimento do papel das mulheres e da governança colegiada — terão continuidade.

Politi acredita que os ultraconservadores não terão força para eleger sozinhos o próximo líder: “Precisam se aliar ao centro. A figura ideal seria alguém conservador com rosto humano, comunicativo, carismático. Ainda não temos esse nome”.