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Guerra

Acordo que encerra anos de hostilidades entre Arábia Saudita e Irã esta sob suspeição

Um acordo entre Irã e Arábia Saudita para restabelecer as relações diplomáticas colocou a China em um papel de liderança na política do Oriente Médio. Lugar antes reservado apenas para EUA e Rússia.


Arábia Saudita e Irã restabeleceram relações diplomáticas após sete anos de hostilidade, em um acordo entre os arquirrivais regionais que pode ter amplas implicações para o Oriente Médio.

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Riad e Teerã planejam reabrir suas embaixadas dentro de dois meses em um acordo mediado pela China, Arábia Saudita e Irã disseram em um comunicado conjunto após negociações em Pequim.

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Eles também planejam reimplementar um pacto de segurança assinado há 22 anos, segundo o qual ambas as partes concordaram em cooperar em terrorismo, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, além de reviver um acordo comercial e tecnológico de 1998.

O que esta por trás deste acordo que tem como principal mediador a China?

O acordo foi declarado como “uma vitória diplomática para a China” em uma região do Golfo que há muito é considerada parte do domínio de influência dos EUA. Exatamente quando o governo Biden tenta obter sua própria vitória no Oriente Médio, tentando negociar um pacto de normalização entre Israel e a Arábia Saudita. Visto como um grande triunfo, no momento em que os países árabes do Golfo percebem uma redução do envolvimento dos Estados Unidos no Oriente Médio. “Acho que é um sinal de que a China está cada vez mais confiante em assumir um papel mais assertivo no Oriente Médio”, diz Muhammad Zulfikar Rakhmat, um acadêmico da Indonésia afiliado ao Instituto do Oriente Médio, com sede em Washington, EUA.

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Os interesses econômicos chineses têm levado o país a conflitos distantes de seu território. Ele é de longe o maior comprador das exportações de energia do Oriente Médio, enquanto os EUA reduziram a necessidade de importações à medida que o país caminha para a independência energética. As autoridades chinesas defendem há muito tempo que Pequim deveria desempenhar um papel mais ativo na região, segundo June Teufel Dreyer, cientista política da Universidade de Miami, especialista em política chinesa.

As negociações estavam em andamento desde 6 de março em Pequim entre o chefe da segurança nacional iraniana, Ali Shamkhani, o conselheiro do conselho de segurança nacional saudita, Mosaed Bin Mohammad Al-Aiban, e o principal diplomata da China, Wang Yi, segundo a mídia estatal iraniana.

“Continuaremos a desempenhar um papel construtivo no tratamento adequado de questões críticas no mundo de hoje, de acordo com os desejos de todos os países, e demonstraremos nossa responsabilidade como um país importante”, disse Wang, acrescentando que o presidente chinês Xi Jinping o apoiou desde o início.

Em um aparente retrocesso à influência americana, Wang disse que “o mundo não se limita à questão da Ucrânia”, enfatizando que o destino do Oriente Médio deve ser determinado pelo povo do Oriente Médio.

“Os ministros das Relações Exteriores dos dois países se encontrarão para implementar esta decisão e tomar as providências necessárias para a troca de embaixadores”, disse o comunicado conjunto. “Os dois lados concordam em respeitar a soberania e a não interferência nos assuntos internos um do outro.”

Enquanto os Estados Unidos irritaram seus aliados do Golfo ao restringir o fornecimento de armas e esfriar as relações, o futuro príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, conhecido como MBS, se aproximou do líder da China, Xi Jinping.

Ambos são ousados, assertivos, dispostos a assumir riscos e aparentemente compartilham ambições insaciáveis.

O anúncio de sexta-feira (10) de que Riad e Teerã haviam renovado os laços diplomáticos foi inesperado, mas não deveria. É o acúmulo lógico das limitações diplomáticas dos Estados Unidos e da busca crescente da China para moldar o mundo em sua órbita.

O acordo entre China e Rússia que vem sendo costurado há tempos é o que deixa embaixadores e cientistas politicos mais caltelosos.

Petróleo

A vitória diplomática acontece num momento em que Washington vem criticando duramente a China por não condenar a invasão russa e acusar os EUA e a Otan de provocarem o conflito. No entanto, muitos governos do Oriente Médio consideram a China uma parte neutra, que tem fortes laços tanto com a Arábia Saudita, o maior fornecedor de petróleo da China, quanto com o Irã, que depende do país para 30% de seu comércio exterior e onde a China pretende investir US$400 bilhões (R$2,1 trilhões) ao longo de 25 anos.

Futuro príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman vem se aproximando do líder chinês, Xi Jinping – foto: reprodução

O Irã, que tem poucos mercados de exportação devido às sanções que sofre por seu programa nuclear, vende petróleo para a China com um grande desconto.

O acordo “aumenta a capacidade de Pequim de projetar uma imagem de ator construtivo pela paz, o que será útil para afastar acusações dos países ocidentais de que estaria apoiando a invasão russa à Ucrânia”, diz Amanda Hsiao, analista em Taipei da ONG Grupo de Crise Internacional.

“Isso demonstra que a China está tentando conduzir a competição na diplomacia estrangeira com os EUA, e não apenas em sua vizinhança imediata”, disse Wang Lian, professor de relações internacionais na prestigiosa Universidade de Pequim.

As negociações bem-sucedidas mostram que os dois países “depositaram sua confiança na China”, diz Wang.

A China criou o cargo de enviado especial para o Oriente Médio em 2002, com foco em Israel e na Autoridade Palestina. Embora a China venda drones e outros armamentos para países da região, sequer se aproxima em escala do que é praticado pelos Estados Unidos, e não coloca condicionantes políticas.

Anteriormente, a China agiu agressivamente para criar laços com o Pacífico Sul, assinando um acordo de segurança com as Ilhas Salomão, que permitiria no país navios da marinha e forças de segurança chinesas.

Estados Unidos, Austrália e outros países agiram rapidamente para fortalecer seus próprios laços no Pacífico, e os esforços da China para firmar acordos semelhantes com outros países insulares acabaram fracassando.

Depois de assegurar um terceiro mandato de cinco anos, contra as normas, Xi parece mais beligerante do que nunca em relação aos países ocidentais, e seu ministro das Relações Exteriores alertara poucos dias antes sobre “conflito e confronto” futuros com os EUA.

“O papel da China como corretora é impressionante e pode prenunciar uma posição diplomática mais ousada”, disse Sanam Vakil, pesquisador sênior do programa para Oriente Médio e Norte da África no think-tank Chatham House, em Londres.

“Mas devemos ser cautelosos ao exagerar as intenções de Pequim. Isso é mais sobre os interesses da China na região. A China reuniu dois atores principais – atores regionais e econômicos – com o objetivo de reduzir as tensões regionais e facilitar um maior envolvimento econômico com ambos.”

Fonte: France24