“Estou mais em casa do que eu imaginava.”
Gabriel Araújo, o Gabrielzinho, ganhou três medalhas de ouro na piscina da Arena La Défense nos Jogos Paralímpicos. Mas não foi só isso, conquistou também o público predominantemente francês do evento, que aplaudia intensamente o brasileiro a cada vez que seu nome era anunciado nas provas, perdendo só em entusiasmo para os nadadores franceses —natural em Paris.
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Tanto foi o apoio que logo o brasileiro começou a repetir a cada entrevista na zona mista o quanto estava “se sentindo em casa”. “Nem nos meus maiores sonhos eu imaginaria [ficar tão popular em Paris]”, disse nesta sexta (6), na Casa Brasil.

Gabrielzinho vista a Torre Eiffel depois de conquistar três ouros em Paris – André Fontenelle/Folhapress
As três medalhas de Gabrielzinho (nos 50 m costas, 100 m costas e 200 m livre) foram conquistadas na categoria S2, destinada a atletas com deficiências físicas severas —quanto menor o número que acompanha o S (de “swimming”, natação), maior a deficiência. O brasileiro nasceu com focomelia, doença congênita que impede a formação normal de braços e pernas.
Curiosamente, o brasileiro está longe de ser o principal medalhista dos Jogos. Quase uma dezena de paratletas ganharam mais, incluindo a brasileira Carol Santiago (três ouros e duas pratas). O belorrusso Ihar Boki levou mais cinco ouros e já soma 21 na história.
Mas ninguém fala de Ihar Boki. Na França, o cara é Gabrielzinho. “Isso do povo francês me marcou muito. É sempre bom ser reconhecido pelo trabalho, mas levar uma grande torcida em um grande país pela pessoa que eu sou, eu diria que é mais uma medalha de ouro para o Gabrielzinho, a principal até”.
Fã de futebol e torcedor do Cruzeiro —um grupo de Whatsapp o mantém informado dos resultados em Paris, quando não consegue assistir aos jogos—, Gabrielzinho teve sua legião de fãs aumentando a cada prova, espirrando a água na piscina para comemorar, mostrando a língua ou o sorriso largo a todo instante, brincando com a torcida na arquibancada.
No pódio, a medalha sempre vem acompanhada de uma dancinha. Era ainda um dos que mais demorava no percurso da cerimônia da medalha até a saída da arena, interagindo com a plateia.
Nas redes sociais, o número de seguidores aumentou para 389 mil (Daniel Dias, maior campeão paralímpico, tem 135 mil). E mais de 200 mil seguidores vieram depois do primeiro ouro. Seu post com as três medalhas no pescoço estava perto das 500 mil curtidas.
Nascido em Santa Luzia, o brasileiro não era exatamente desconhecido quando chegou a Paris. Já tinha três medalhas paralímpicas conquistadas em Tóquio, nas mesmas provas em que agora bisou o pódio.
Em sua primeira entrevista coletiva, antes mesmo da cerimônia de abertura, ao lado de outros grandes nomes da natação, nenhum jornalista estrangeiro dirigiu uma pergunta exclusiva ao brasileiro. Nem os hoje apaixonados franceses. Preferiram mirar suas câmeras e canetas para a articulada norte-americana Jessica Long, dona de mais de 20 medalhas paralímpicas, ou para o galã italiano Simone Barlaam, apelidado de Clark Kent.
Naquela entrevista, Gabrielzinho mostrava uma de suas características como paratleta, a obstinação pelo resultado, quase no limite da arrogância. Ao contrário do discurso correto de que qualquer lugar no pódio importa, o brasileiro chegou avisando: “Quero transformar a prata [de Tóquio] em ouro”. Transformou. Ou dizia que ia “amassar” os rivais na prova. Amassou.
Apenas alguns dias depois, jornalistas franceses já corriam atrás da imprensa brasileira para buscar informações sobre o “fenomenal Gabrielzinho”, que passava pela zona mista pilotando com os pés sua cadeira elétrica.
O Le Parisien se referiu a ele como “a estrela da Paralimpíada que nada como um golfinho” e que “sua técnica é impressionante”, o canal France 24, o chamou de “fenômeno brasileiro” e a Radio France Internacional se referiu a ele como “a estrela de Paris”.

