Internacional

Tempestades de poeira em Marte geram eletricidade e podem impactar futuras missões, aponta estudo

Registro inédito do rover Perseverance revela descargas elétricas em redemoinhos marcianos e levanta novos desafios para a exploração do planeta.


As tempestades de poeira de Marte, já conhecidas por sua intensidade e alcance global, escondem um fenômeno até então não comprovado: a geração de eletricidade. Um estudo publicado na última sexta-feira (26) na revista Nature revela, pela primeira vez, evidências diretas de descargas eletrostáticas produzidas por redemoinhos de poeira no planeta vermelho.

A descoberta ocorreu de forma inesperada durante a observação de duas tempestades registradas pelo rover Perseverance, da Nasa. Equipado com o primeiro microfone a operar em Marte, o veículo captou sinais acústicos incomuns que não correspondiam apenas ao ruído do vento. A análise posterior, conduzida por pesquisadores franceses, concluiu que os sons eram causados por descargas elétricas geradas pelo atrito entre partículas de poeira.

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Embora modelos teóricos já previssem a existência de eletricidade atmosférica em Marte, esta é a primeira comprovação direta do fenômeno. Segundo o estudo, os campos elétricos gerados são fortes o suficiente para romper a atmosfera próxima à superfície, alterando processos químicos e influenciando a dinâmica atmosférica do planeta.

As descargas surgem quando grãos microscópicos de poeira colidem e se friccionam continuamente, acumulando carga elétrica. Em determinado momento, essa energia é liberada em pequenos arcos elétricos, com apenas alguns centímetros de extensão. Apesar do tamanho reduzido, a grande quantidade dessas faíscas produz ondas de choque detectáveis pelos instrumentos do rover.

Na Terra, fenômeno semelhante ocorre em regiões desérticas, mas é mais difícil de ser observado devido à atmosfera densa, rica em oxigênio e nitrogênio. Em Marte, a atmosfera rarefeita, composta majoritariamente por dióxido de carbono, favorece a formação dessas descargas.

Os pesquisadores destacam que a presença de eletricidade nas tempestades de poeira tem implicações importantes para a química marciana. As descargas podem gerar compostos altamente oxidantes, capazes de decompor moléculas orgânicas na superfície. Esse processo pode ajudar a explicar o comportamento enigmático do metano em Marte, gás que é detectado por diversas missões, mas desaparece mais rapidamente do que os modelos atuais conseguem justificar.

Além das implicações científicas, o fenômeno representa um novo desafio para a exploração espacial. Descargas elétricas podem interferir em equipamentos eletrônicos sensíveis a bordo de sondas e rovers. Para futuras missões tripuladas, previstas para a próxima década, a eletricidade atmosférica marciana deverá ser considerada no projeto de sistemas e protocolos de segurança, a fim de garantir a integridade dos equipamentos e dos astronautas.