A imagem no telão mostra Donald Trum. Ele está vestido com um terno escuro e gravata, e há um brasão em sua mesa. Ao fundo, há uma bandeira e um mural decorativo. Na parte inferior da imagem, está escrito ‘WORLD ECONOMIC FORUM’.

Presidente Donald Trump em conferência de vídeo transmitida em telão gigante no Fórum Econômico Mundial, em Davos – Foto: Fabrice Coffini – 23.jan.2025/AFP
Argentina tem voz firme contra ‘agenda woke
Javier Milei fez um discurso no Fórum Econômico Mundial (FEM) na quarta-feira (22), criticando a organização supranacional por adotar a “agenda sinistra do wokismo”.
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Javier Milei, no Fórum Econômico Mundial 2025. (Captura de tela/YouTube/ World Economic Forum)
O presidente da Argentina pediu apoio para combater a “agenda sangrenta e assassina do aborto“, além da ideologia LGBT.
Em seu discurso aos líderes mundiais em Davos, Suíça, Milei afirmou: “É nosso dever moral e responsabilidade histórica desmantelar a estrutura ideológica woke doentia”.
Milei denunciou a “agenda sinistra do wokismo” e o “vírus mental da ideologia woke” como a “grande epidemia do nosso tempo que deve ser curada” e o “câncer do qual precisamos nos livrar”.
Ele detalhou os impactos prejudiciais da “ideologia woke”, especificamente a “agenda sangrenta e assassina do aborto”, que ele descreveu como resultado de uma premissa falha: “de que a superpopulação destruirá a Terra e, portanto, devemos implementar algum tipo de controle populacional”. Além disso, Milei criticou a “agenda LGBT”.
Milei discordou da afirmação feita pelos defensores da “agenda LGBT” de que “mulheres são homens e homens são mulheres simplesmente com base na autopercepção”.
Ele expressou sua preocupação com o fato de que os proponentes dessa agenda permanecem em silêncio “quando um homem se veste de mulher e mata seu oponente em um ringue de boxe ou quando um presidiário afirma ser uma mulher e acaba abusando sexualmente de mulheres na prisão”.
Ele se referiu a casos em que homens trans competem em esportes femininos e são alojados em celas de prisão com mulheres, compartilhando espaços para dormir e tomar banho.
‘Abuso infantil’
Após citar o caso de um casal do mesmo sexo acusado de abusar de seus filhos adotivos, Milei afirmou: “Em suas formas mais extremas, a ideologia de gênero é abuso infantil declarado”.
O presidente também destacou o fenômeno em que cirurgias mutiladoras, como castração e mastectomias, são realizadas em jovens que estão confusos quanto à sua identidade de gênero.
“Crianças saudáveis estão sendo irreversivelmente prejudicados por tratamentos hormonais e mutilação, como se uma criança de 5 anos pudesse consentir com tais coisas”, disse ele.
Milei lamentou que “se a família não concordar com isso, sempre haverá agentes do estado prontos para intervir em favor do que eles chamam de ‘o melhor interesse da criança'”, referindo-se às leis que permitem ao estado remover crianças da custódia dos pais que se opõem a permitir que seus filhos se submetam a procedimentos de transição de gênero.
E acrescentou: “Os experimentos escandalosos em nome dessa ideologia criminosa serão condenados e comparados aos cometidos pelos piores momentos da nossa história.”
O presidente argentino também identificou outra consequência do “wokismo” como o questionamento generalizado “do próprio conceito de sexo biológico”.
Como exemplo, ele apontou a “legislação absurda” que surgiu em decorrência desse fenômeno, incluindo o financiamento público de “tratamentos hormonais caros e cirurgias para atender à autopercepção” de indivíduos transidentificados.
Milei observou que os “efeitos de uma geração inteira que mutilou seus corpos” estão começando a surgir, acrescentando: “Essas pessoas terão que enfrentar a vida inteira em tratamento psiquiátrico para lidar com o que fizeram a si mesmas”.
Durante seus comentários, Milei criticou diretamente o Fórum Econômico Mundial por adotar o “wokismo”, detalhando como “por décadas, houve uma adoração a uma ideologia sinistra e assassina, tratada como um bezerro de ouro”.
Ele afirmou que “esta organização, junto com as ordens supranacionais mais influentes, foram os ideólogos desta barbárie”.

A 55ª edição do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça incluiu nos principais temas do evento, a inteligência artificial (IA) – principalmente, IA generativa (tecnologia por trás do ChatGPT, por exemplo) – Foto: Ciaran McCrickard/Fórum Econômico Mundial
Resultados do encontro
O encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos terminou nesta sexta-feira (24) com um tom mais otimista do que o do início da semana. Embora o evento já não tenha o mesmo impacto do passado, ele continua a atrair donos do poder pelo mundo —seja ele político, financeiro ou intelectual.
Aqui estão cinco conclusões tiradas dos cinco dias da reunião, que costuma servir de “teaser” do que movimentará a geopolítica e a economia global nos próximos 12 meses.
1 – Ninguém fala de Brasil em Davos
“Sinceramente, ninguém fala do Brasil hoje em Davos. O Brasil não é o foco de ninguém. A gente não está no radar de ninguém”, resumiu David Velez, o fundador e CEO do Nubank, em conversa com jornalistas. Outro alto executivo que há anos frequenta o fórum respondeu que o Brasil “é muito menos visível do que a gente pensa que ele é”, apontando a necessidade de o país fazer um esforço para se apresentar ao mundo.
As apreensões em relação ao Brasil, por causa do front fiscal e da percepção de que o déficit do país aumentará, freiam a entrada de dinheiro novo. Com o cenário internacional enevoado ao longo da semana pela promessa do americano Donald Trump de sobretaxar importações aos EUA, os investidores ficam mais cautelosos em relação a onde aplicam o dinheiro —e, com isso, mais longe do Brasil.
Pouco ajudou, também, o fato de o país ter mandado sua menor delegação oficial em anos, com o ministro Alexandre Silveira (Minas e Energia) como único representante do Planalto. Após adiar sua viagem, acabou fora dos painéis oficiais. Manteve encontros com alguns pares, ouviu empresários, reforçou que o país é um destino natural para quem quer produzir com energia limpa, mas não saiu de Davos com nenhum grande aporte novo para anunciar.
“Acho que o governo brasileiro está fazendo opções, e se você não participa das discussões, você obviamente perde o espaço”, aponta Erasmo Battistella, CEO da Be8, empresa de biocombustíveis e energia renovável. “Por exemplo, se essas empresas [brasileiras] todas não estivessem aqui, elas não teriam esse espaço, a Casa Brasil [onde ocorreram debates e eventos sobre o país promovidos por um pool de empresas nacionais]. Então, eu acho que é uma boa oportunidade do Brasil estar aqui, sabe?”
No tradicional jantar do Fórum para tratar de América Latina, nenhuma autoridade brasileira esteve presente.
2 – Analistas não gostam de Trump, mas empresários gostam
O presidente americano, recém-empossado, foi o elefante em todas as salas de Davos e adjacências, até fazer seu discurso por telão no fim da quinta-feira (23) e trazer algum alento para quem temia um salto nos atritos entre Estados Unidos e China.
Rich Lesser, presidente global do Bonton Consulting Group, disse também estar otimista com o conjunto da obra (ou das promessas), mas advertiu: “Se ele começar a fazer tudo aquilo que ele passou a campanha gritando que iria fazer, a coisa pode ficar preocupante”.
Quando o discurso de Trump veio, sua abertura a trabalhar em conjunto com a China —que no dia seguinte virou um aceno para um eventual acordo comercial— animou a todos.
3 – A transição energética é pra valer
A posição de Trump de desmantelar os incentivos econômicos à adoção de tecnologias e produtos mais amigáveis ao ambiente, e em vez disso investir na prospecção de combustíveis fósseis, surpreendeu zero pessoas.
“As grandes empresas se dão conta de que esse navio zarpou e não vai voltar. A agenda ambiental e sustentável veio para ficar. Vai ter momentos de turbulência, as metas vão se alterar, mas o sentido geral de que temos que caminhar para uma economia mais eficiente, que gere menos resíduos e que seja mais descarbonizada, está bem assimilado pelo setor privado e não vai mudar”, afirmou Roberto Azevêdo, presidente de operação globais da Ambipar e ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio).
Os próprios especialistas do Fórum, que foi criticado não só por Trump como pelo argentino Javier Milei por sua ênfase na transição energética e na preocupação ambiental, disseram que sua pauta não mudará.
Pode haver avanços pendulares em termos de velocidade, pode haver, eventualmente, algum soluço de financiamento, como ponderou um CEO. Mas seja nos painéis ou nos corredores, a decisão de fazer a transição para matrizes energéticas limpas se mantem inconteste. Ela é econômica, não apenas ambiental.
Outra constatação: a energia nuclear tem ganho enorme adesão como motor para a transição energética. Bill Gates, o governo argentino, o ministro Alexandre Silveira e o próprio Fórum —o leque de apoiadores dessa tecnologia é mais amplo do que nunca.
4 – O discurso monolítico morreu
O WEF, sigla em inglês para a entidade que criou e mantém o Fórum, sempre defendeu políticas econômicas liberais e bandeiras sociais progressistas. Com Trump e Milei vigorosamente aplaudidos nos palcos, contudo, esse binômio deixou de ser um consenso.
Embora o discurso de Milei tenha causado perplexidade de boa parte da plateia quando adentrou por críticas a orientação de gênero, ambientalismo, feminismo e outros temas caros a organização, houve também quem tenha concordado e aplaudido. As “guerras culturais” também estão em Davos, ainda que de maneira mais comedida. Nenhum tema é banido, e há entusiastas para tudo.
5 – Não há novas grandes crises
A reunião de Davos já lidou com a pandemia, com a recessão, com perspectivas sombrias para a economia e com guerras crescentes. Hoje, como definiu uma pessoa familiarizada com a pauta, há várias pequenas crises, mas nada realmente avassalador. E isso aparece nas discussões.
Há preocupações com as guerras em cursos —notadamente a da Ucrânia. Mas mesmo o presidente ucraniano, Volodimyr Zelensky, não foi recebido com a mesma expectativa da plateia que o aguardava em outros anos. Há urgência em relação à crise climática, e os incêndios na Califórnia foram evocados com frequência. Há temores de uma onda global de inflação, e há alguma apreensão diante da rapidez da evolução tecnológica.
Mas nenhum desses problemas é novo, e isso, certamente, tira parte da vibração do Fórum, que pulveriza as discussões e dissolve a possibilidade de ações mais enfáticas.
Com agências
