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Escândalo na Rússia: festa com famosos quase pelados irrita igreja e exército

A festa "Quase Naked", repleta de celebridades, na famosa discoteca Mutabor, em Moscou, provocou a indignação do establishment político russo, que se tornou cada vez mais carrancudo desde o ataque à Ucrânia.


A Justiça do país aceitou uma ação de um grupo de indivíduos que pede pagamento de cerca de R$ 53 mil por ‘sofrimento moral’ – eles querem doar o dinheiro para veteranos da guerra na Ucrânia. Além disso, a Receita do país começou a investigar a mulher que organizou o evento.

Imagens mostrando VIPs russos em lingerie e fantasias atrevidas levaram à prisão de um rapper por usar apenas uma meia estrategicamente colocada e a pedidos de boicotes e investigações.

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O escândalo mostra a diminuição do espaço para qualquer coisa que se desvie do patriotismo conservador na Rússia desde o seu ataque mortal na Ucrânia há quase dois anos.

Em meio à reação, a organizadora Anastasia Ivleeva publicou um vídeo choroso de desculpas.

“Gostaria de pedir a vocês uma segunda chance… Se a resposta for não, então estou pronta para minha execução pública”, disse ela na última quarta-feira (27).

Anastasia (Nastya) Ivleeva, uma blogueira russa e organizadora de uma festa “quase pelados” na boate Mutabor, em Moscou, faz um discurso nesta imagem estática de um vídeo público de desculpas publicado em 27 de dezembro de 2023 – Via Telegram/Reuters

Mais de 20 pessoas entraram com uma ação coletiva contra ela, exigindo que ela pagasse um bilhão de rublos (11 milhões de dólares) a uma instituição de caridade que apoia o ataque à Ucrânia.

Seu pedido de desculpas deixou alguns indiferentes, incluindo o influente apresentador de televisão estatal Vladimir Solovyov.

“Você quer uma segunda chance? Traga aquecedores e drones para nossos rapazes em Tokmak”, na linha de frente do sul da Ucrânia, disse ele no Telegram.

Em uma postagem anterior, Solovyov chamou os participantes de “bestas e escória”: “Vocês não têm ideia do quanto as pessoas odeiam vocês”, disse.

Festa “quase pelados” na boate Mutabor em Moscou, Rússia, em 21 de dezembro de 2023 – Foto Ostorozhno Novosti/Reuters

O rapper preso, Vasio, já havia sido condenado a 15 dias de prisão por distribuir “propaganda gay” e pequenos atos de vandalismo, informou a agência de notícias estatal TASS.

Ele foi condenado sob a lei de “propaganda LGBTQ”, que proíbe informações positivas sobre lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros, que as autoridades endureceram este ano .

Ivleeva estava na festa com joias que valem R$ 1,2 milhão. Ela publicou dois vídeos pedindo desculpas. No segundo vídeo, publicado no dia 27, ela disse que está arrependida e que espera “ter uma segunda chance”.

Ela tinha um contrato de publicidade com uma empresa de telefonia móvel, mas desde o começo do escândalo, as imagens dela na campanha publicitária sumiram.

A Justiça do país aceitou uma ação de um grupo de indivíduos que pede pagamento de cerca de R$ 53 mil por “sofrimento moral” –eles querem doar o dinheiro para veteranos da guerra na Ucrânia. Além disso, a Receita do país começou a investigar a blogueira (se ela for condenada, pode cumprir pena de até 5 anos).

Outros famosos

Outros famosos que estiveram na festa fizeram pedidos públicos de desculpas, incluindo a jornalista Ksenia Sobchak (ela é filha de um homem já falecido que era amigo de Putin).

Nikolai Vasilyev, um rapper conhecido como Vacio, foi quem apareceu em um momento do evento usando apenas uma meia para cobrir seu órgão genital. Além de ter sido condenado a 15 dias de prisão, ele ainda foi multado em R$ 10 mil por propaganda de “relações sexuais não tradicionais”.

Outras pessoas famosas tiveram shows cancelados e, em pelo menos um caso, aparentemente foram cortados de um novo filme.

Exército, Igreja Ortodoxa e Justiça não gostaram

As críticas vieram de setores conservadores da sociedade russa: legisladores alinhados com o governo, blogueiros, a mídia estatal e grupos da Igreja Ortodoxa. A história tem destaque nos veículos de imprensa do país há dias.

O site russo Baza, que é considerado próximo das Forças Armadas da Rússia, publicou um texto no qual afirma que soldados que estão na Ucrânia viram vídeos e fotos da festa e reclamaram do evento.

Dmitry Peskov, um porta-voz de Vladimir Putin, afirmou a jornalistas que ele não iria fazer nenhum comentário sobre a festa. “Desse jeito, eu e vocês seremos os únicos a não falar desse tema no país”, disse ele.

Com informações da Reuters