Internacional

Sobreviventes relatam terror após infecção por hantavírus: “Foi um inferno na Terra”

Casos graves da doença voltam a chamar atenção após surto em navio de cruzeiro deixar mortos e passageiros internados; especialistas alertam para transmissão por roedores e sintomas semelhantes aos da covid-19.


O hantavírus voltou ao centro das atenções internacionais após um surto registrado no navio de cruzeiro MV Hondius, que deixou ao menos três mortos e vários passageiros hospitalizados. Em meio ao alerta sanitário, sobreviventes da doença compartilharam relatos dramáticos sobre a luta pela vida após a infecção.

O canadense Lorne Warburton afirmou que enfrentou “o inferno na Terra” depois de contrair o vírus em 2023. Ele contou que os primeiros sintomas pareciam uma gripe forte ou covid-19: dores no corpo, fadiga intensa e dificuldade para respirar.

Continua depois da Publicidade

“O nível de doença e enfermidade pelo qual passei foi um inferno na Terra. Foi uma tortura conseguir sobreviver e me recuperar”, relatou.

Segundo Warburton, o quadro se agravou rapidamente, levando-o a ser internado às pressas e conectado a aparelhos de suporte à vida durante semanas. Ele acredita ter sido contaminado após entrar em contato com fezes de camundongos em um sótão.

Outro sobrevivente, o alemão Christian Ege, também descreveu uma experiência crítica. Infectado em 2019, ele desenvolveu insuficiência renal e sepse após apresentar sintomas inicialmente confundidos com uma virose.

“Foi extremamente preocupante. Passei dias difíceis na UTI”, contou.

Surto em navio de cruzeiro preocupa autoridades

O novo alerta internacional surgiu após passageiros do navio holandês MV Hondius apresentarem sintomas compatíveis com hantavírus durante uma expedição pelo Atlântico Sul.

A embarcação partiu da Argentina e ficou ancorada próximo a Cabo Verde por vários dias enquanto autoridades sanitárias avaliavam a situação. Três passageiros morreram, e outros foram transferidos para tratamento médico na Holanda.

Entre os hospitalizados está o ex-policial britânico Martin Anstee, de 56 anos, que permanece em estado estável, segundo familiares.

A Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA) informou que dois cidadãos britânicos seguem em isolamento domiciliar após possível exposição ao vírus.

O que é o hantavírus

O hantavírus não corresponde a uma única doença, mas a uma família de vírus transmitidos principalmente por roedores silvestres. A infecção ocorre, na maioria das vezes, pela inalação de partículas presentes em urina, saliva ou fezes ressecadas desses animais.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem mais de 20 espécies de hantavírus identificadas no mundo. Algumas cepas podem provocar síndromes graves pulmonares e renais, com taxas de mortalidade entre 20% e 40%.

No Brasil, o Ministério da Saúde alerta que os principais sintomas incluem:

  • febre alta;
  • dores musculares intensas;
  • fadiga;
  • tosse seca;
  • dificuldade respiratória;
  • náuseas e tonturas.

Em casos graves, o paciente pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória e falência de órgãos.

Não há vacina amplamente disponível

Atualmente, não existe vacina amplamente distribuída nem tratamento antiviral específico contra o hantavírus. O atendimento médico é baseado em suporte intensivo, incluindo oxigenação, ventilação mecânica e controle das complicações.

Especialistas explicam que o diagnóstico precoce aumenta as chances de sobrevivência, já que os sintomas iniciais costumam ser confundidos com gripe, covid-19 ou dengue.

Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a principal forma de prevenção é evitar contato com ambientes infestados por roedores e realizar limpeza adequada de locais fechados e empoeirados.

Recuperação lenta e sequelas

Mesmo após sobreviver, muitos pacientes relatam sequelas físicas e emocionais prolongadas.

Warburton afirmou que levou mais de um ano para recuperar parte da força física e ainda convive com fibrilação atrial, um distúrbio cardíaco que exige uso diário de medicamentos.

“Você passa a valorizar até os menores detalhes da vida. Um simples gole de água fresca parecia a melhor coisa do mundo depois de semanas na UTI”, disse.

Já Christian Ege afirmou que a experiência mudou sua visão de vida e o tornou mais humilde após enfrentar dias de incerteza e risco de morte.

O recente surto reacendeu discussões sobre vigilância sanitária em embarcações internacionais e reforçou os alertas de autoridades de saúde sobre os riscos de exposição a ambientes contaminados por roedores.