No início dos anos 1980, diversos casos de uma doença infecciosa até então desconhecida começaram a surgir nos Estados Unidos, sobretudo em HSH (termo para homens que mantém frequentemente ou esporadicamente relações sexuais com outros homens, independente de terem identidade sexual homossexual).

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O “isolamento” do novo vírus foi noticiado em 20 de maio de 1983 em um artigo publicado na revista americana Science. Os autores da descoberta, Françoise Barré-Sinoussi, Jean-Claude Chermann e Luc Montagnier, adotam um tom cauteloso: esse vírus “poderia estar envolvido em diversas síndromes patológicas, incluindo a AIDS”, escreveram os franceses na ocasião.
A pesquisa sobre Aids na época ainda era muito incipiente, e a doença, uma imensa novidade tanto para a sociedade quanto para a ciência, escondia muitos mistérios.
“Foi uma corrida contra o tempo, porque percebemos que o vírus era transmitido pelo sangue, sexualmente e de mãe para filho. Foi preciso mobilizar outras equipes: imunologistas, biólogos moleculares, clínicos e pacientes, sabendo que na época não teríamos tempo de encontrar um tratamento para salvar os doentes. Ficamos cara a cara com pessoas que vinham ao Instituto Pasteur para nos fazer perguntas sobre o vírus. Humanamente falando, foi muito difícil”, lembra Françoise Barré-Sinoussi.
Os primeiros alertas foram emitidos nos Estados Unidos dois anos antes, quando doenças raras, como a pneumocistose e o sarcoma de Kaposi, foram relatadas no verão de 1981 entre jovens homossexuais americanos. Os médicos, então, se perguntam: por que essas infecções “oportunistas”, que geralmente acometem pessoas muito frágeis, estariam afetando jovens gays que gozavam de perfeita saúde?
“Epidemia entre gays e drogados”
Especialistas americanos falavam de uma “epidemia entre gays e usuários de drogas”, quando a doença ainda não tinha nome, mas continuava se espalhando rapidamente.
Cientistas logo observariam que a população haitiana também era afetada, e começam a chamar a enfermidade de “doença dos três Hs”, em uma referência a homossexuais, viciados em heroína e haitianos, os três grupos mais afetados.
Um quarto “H” seria adicionado em breve: o de hemofílicos, fazendo com que a identificação provisória evoluísse para a “doença dos quatro Hs”. O termo Aids (sigla em inglês para síndrome da imunodeficiência adquirida) só seria usado a partir de setembro de 1982.
“De repente me deparei com coisas que nunca imaginei serem possíveis, como a falta de tolerância do público em geral com certas populações. Na época, os pacientes eram estigmatizados, afastados por familiares, amigos, às vezes profissionais de saúde. Alguns perderam suas casas, seus empregos. Também aprendi muito sobre as desigualdades que infelizmente podem ter piorado ainda mais hoje nos países ricos”, enfatiza Barré-Sinoussi.
A causa da Aids permaneceu desconhecida por algum tempo. Alguns estudiosos considerariam a hipótese de se tratar de um “retrovírus”, a exemplo de Robert Gallo, grande especialista americano dessa família de vírus causadores de câncer.

Os professores Jean-Claude Chermann (esq.) e Françoise Barré-Sinoussi (dir.), que participaram da descoberta do HIV, no Instituto Pasteur de Paris, abril de 1984 – Foto: arquivo Michel Clement / AFP
Instituto Pasteur
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, em Paris, um laboratório de oncologia viral do Instituto Pasteur mergulhava na pesquisa sobre este novo episódio de saúde pública, sob a liderança de Luc Montagnier.
No início de 1983, o infectologista Willy Rozenbaum coletou uma amostra dos gânglios linfáticos de um paciente em estágio inicial de Aids, no hospital Pitié-Salpêtrière, em Paris. Sua amostra chega às bancadas do laboratório do Instituto Pasteur em 3 de janeiro. “Ao anoitecer (…) comecei a trabalhar”, conta Montagnier, falecido em 2022, em seu livro “Des virus et des hommes”.
Em parceria com Françoise Barré-Sinoussi e Jean-Claude Chermann, ele detecta um novo retrovírus, que eles chamam de LAV (Lymphadenopathy Associated Virus). “Isolamos o vírus, demonstramos que era um retrovírus, mas ainda não tínhamos certeza de que era a causa da Aids”, lembra Françoise Barré-Sinoussi.
A publicação em maio de 1983 na Science sobre a descoberta é recebida com ceticismo, principalmente por Robert Gallo. Mas a equipe do Pasteur fica cada vez mais convencida de que seu LAV é responsável pela Aids. Montagnier apresentou dados nesse sentido em setembro de 1983 a um grupo de especialistas, incluindo Gallo, o que causou pouca reação.
“Durante um ano, sabíamos que tínhamos o vírus certo (…) mas ninguém acreditou em nós e nossas publicações foram recusadas”, relatou Luc Montagnier.
HIV
Em uma reviravolta, Gallo apresenta, em 1984, uma série de artigos anunciando sua descoberta de um novo retrovírus, o HTLV-3, apresentado como a “causa provável” da Aids. Em 23 de abril, Margaret Heckler, secretária de Saúde dos Estados Unidos, formaliza o anúncio com Gallo.
No mesmo dia, ele deposita nos Estados Unidos um pedido de patente para um teste de triagem de Aids, com base em sua descoberta, que foi prontamente concedido. Um pedido semelhante, feito anteriormente pela equipe do Instituto Pasteur, após sua descoberta do LAV, havia sido negado.
No entanto, Gallo e Montagnier rapidamente concordam que HTLV-3 e LAV são provavelmente o mesmo organismo. A prova de sua singularidade foi dada em janeiro de 1985. Este novo vírus foi finalmente denominado HIV (vírus da imunodeficiência humana) em 1986.
“Todos os níveis da sociedade foram afetados pelo HIV-Aids, que sempre foi uma batalha múltipla: científica, claro, mas também política, social, contra as empresas farmacêuticas”, destaca Barré-Sinoussi.
2. Medicamentos preventivos bem-sucedidos
“No tratamento, grandes avanços foram feitos, mas a verdadeira revolução veio do lado da prevenção”, indica Miyashita, codiretor do Centro do Sul da Califórnia do CHPRC.
Ele se refere à profilaxia pré-exposição, mais conhecida como PrEP.

A PrEP oral é oferecida no Brasil gratuitamente pelo SUS para grupos considerados mais vulneráveis ao HIV – Foto: reprodução
Se o comprimido for tomado diariamente, a terapia PrEP pode reduzir em mais de 90% as chances de contrair o vírus causador da Aids por meio do sexo — ou em 70% por meio do uso de agulhas não esterilizadas ou compartilhadas, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês).
A farmacêutica americana Gilead Sciences começou a comercializar o medicamento em 2012 sob a marca Truvada.
E, três anos depois, a OMS passou a recomendar seu uso para prevenir o HIV entre grupos de alto risco de contraí-lo, como gays, homens bissexuais e suas parceiras do sexo feminino, profissionais do sexo e parceiros de portadores do vírus.
Mas, embora seus resultados já sejam vistos em países desenvolvidos, o alto preço do tratamento o mantém longe das áreas mais vulneráveis.
“Recentemente, também foi aprovada a PrEP injetável de ação prolongada”, diz Goodman-Meza.

Vários ensaios clínicos da PrEP injetável foram bem-sucedidos – Foto: reprodução
Ele se refere, por exemplo, ao ensaio clínico de uma injeção de liberação prolongada realizado na África do Sul, e que se revelou um grande sucesso: eliminou quase por completo o risco de os participantes contraírem VIH — e foi 88% mais eficaz do que os comprimidos que tomavam diariamente.
A questão foi levantada na Conferência Internacional de Aids, um encontro anual de pesquisadores, formuladores de políticas públicas e ativistas, realizado em Montreal, no Canadá, no final de julho e início de agosto deste ano.
Nos últimos anos, a taxa de contágio pelo HIV se estabilizou, e a PrEP injetável é o primeiro medicamento com a nova tecnologia que é um bom presságio para a prevenção do HIV em muito tempo.
3. Pesquisas para uma vacina
Apesar de quatro décadas de pesquisa, ainda não há uma vacina contra o HIV.
Os esforços mais recentes para desenvolvê-la incluem um ensaio clínico de três vacinas experimentais baseadas na tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) sintético, já utilizada em algumas vacinas contra a covid-19.

Foto: reprodução
Realizado pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA (NIAID, na sigla em inglês), o ensaio clínico ainda está na primeira fase.
“Encontrar uma vacina contra o HIV provou ser um desafio científico assustador”, disse o então diretor do NIAID, Anthony S. Fauci, agora conselheiro-chefe de saúde do presidente dos EUA, quando o ensaio clínico foi lançado em março.
“Com o sucesso no desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes contra a covid-19, temos hoje uma excelente oportunidade para ver se podemos obter resultados semelhantes contra a infecção por HIV”.
“No momento, não há uma vacina eficaz, e tampouco temos cura”, diz Miyashita.

Foto: reprodução
Há casos conhecidos de pacientes que, acredita-se, conseguiram se curar — ou pelo menos estão livres do vírus há meses.
Mas esses casos são resultado de tratamentos novos e experimentais que não são fáceis de aplicar a todos os pacientes.
“Uma das coisas que não podemos esquecer é que agora existem pessoas vivendo com HIV, e até conseguirmos isso, não só a vacina, mas também a cura, ainda temos muito trabalho pela frente”, ressalta.
Além disso, é importante lembrar que nem todos os países se beneficiam dos avanços científicos nessa área.
“A igualdade no acesso à saúde e a um tratamento seguro não é algo que tenha sido alcançado globalmente. Portanto, não importa o quanto se avance nas intervenções biomédicas. Se não alcançarmos a igualdade de acesso, não veremos o fim do HIV.”
(Com informações da AFP)
