
Todos juntos, ativistas, usuários, profissionais da saúde e representantes de movimentos sociais – Fotos: Kan SAKAI (Portal CINCO)
Neste sábado (14), a Avenida Paulista foi palco da 17ª edição da Marcha da Maconha em São Paulo, um evento que tem ganhado força desde os anos 2000. A manifestação, que reuniu milhares de pessoas, é um dos maiores atos antiproibicionistas da América Latina e busca garantir a legalização da cannabis no Brasil para fins recreativos e medicinais.
Organizado por ativistas, usuários, profissionais da saúde e representantes de movimentos sociais, o evento trouxe à tona questões essenciais sobre os impactos sociais da guerra às drogas. “Discutir a regulação da maconha sem considerar os danos causados pela criminalização é perpetuar a exclusão de populações historicamente marginalizadas”, afirma Luiz Fernando Petty, um dos organizadores. A Marcha exige justiça social e destaca as dificuldades enfrentadas por jovens negros e moradores de periferias, que são os mais afetados pela repressão policial e pelo encarceramento em massa.
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Marcha da Maconha 2025 – Av. Paulista, S. Paulo (SP) em 14-06-2025 – Foto: Kan SAKAI (Portal CINCO)
Os Males da Criminalização: Violência e Desigualdade
Os organizadores da marcha não apenas defendem a legalização, mas também criticam a crescente intervenção do setor privado no mercado da cannabis. Eles temem que, ao legalizar, o benefício caia apenas nas mãos de quem já detém poder econômico, deixando de fora as populações mais atingidas pela violência policial e pelas políticas proibicionistas.
“A violência contra as periferias e as comunidades negras é cada vez mais escancarada. A repressão não pode continuar enquanto interesses econômicos prevalecem”, alerta Petty. A pauta da “reparação histórica” também ganhou destaque, com a proposta de uma ampla anistia para aqueles que foram penalizados por porte de até 40 gramas de maconha, um marco estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2024 ao descriminalizar o porte para uso pessoal.
A Cannabis Além do Uso Recreativo
Além dos debates sobre os danos causados pela criminalização, a Marcha da Maconha também focou em como a cannabis tem sido uma aliada importante para muitas pessoas no tratamento de doenças e na melhoria da qualidade de vida. Giuliana e Gisele, participantes do evento, são biólogas que utilizam o canabidiol para tratar questões de saúde, como ansiedade e dores crônicas. Elas afirmam que, enquanto o uso recreativo já havia impactado positivamente suas vidas, o tratamento medicinal trouxe resultados ainda mais significativos.

Marcha da Maconha 2025 – Av. Paulista, S. Paulo (SP) em 14-06-2025 – Foto: Kan SAKAI (Portal CINCO)
Giuliana, que já usava cannabis para fins recreativos, percebeu uma grande melhora em sua qualidade de vida após o uso do óleo medicinal. “Minhas tias também usam para ansiedade. Aqui em casa, praticamente todo mundo já entende e se trata com cannabis”, comentou. A alta de custos dos tratamentos particulares, como o canabidiol, no entanto, ainda é um grande obstáculo para muitas pessoas. Gisele, sua companheira, destacou que o preço elevado do tratamento — cerca de R$ 600 mensais — é uma barreira, e defende que o Sistema Único de Saúde (SUS) deveria oferecer acesso a esses medicamentos.
A Urgência da Legalização com Justiça Social
Nikolas, outro manifestante de longa data, acredita que a legalização da maconha é inevitável, mas tem sérias preocupações sobre o rumo do processo. Para ele, a legalização precisa vir acompanhada de uma agenda de justiça social. “A legalização precisa ser para todos, não apenas para quem já tem poder econômico. A repressão à maconha sempre afetou mais as periferias e as populações negras”, disse.
Com o aumento da violência policial em várias regiões, como a Baixada Santista e a Favela do Moinho, a Marcha da Maconha se posiciona também contra o agravamento da repressão nos locais mais vulneráveis. Em meio à crise climática e aos debates sobre a desigualdade social, a manifestação é uma chamada de atenção para a urgência de uma abordagem mais inclusiva na legalização da cannabis no país.
Acompanhamento da Polícia Militar e o Clima Pacífico
A Polícia Militar esteve presente para monitorar a segurança durante o evento, mas, até o momento da última atualização desta reportagem, não havia registros de incidentes. A manifestação transcorreu de forma pacífica, com a participação de artistas como Marcelo D2 e BNegão, que também se posicionaram a favor da causa. O evento, que estima reunir cerca de 80 mil pessoas, deixou claro o compromisso de muitos cidadãos com a legalização da cannabis e com o combate à criminalização e à violência policial.
Em resumo, a 17ª Marcha da Maconha foi um marco importante no debate público sobre a legalização da cannabis no Brasil, destacando não apenas os benefícios médicos e recreativos, mas também a necessidade urgente de justiça social no processo.
