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Bolsa brasileira despenca após reeleição de Lula; dólar dispara e mercado entra em alerta

Ibovespa aciona mecanismo de proteção contra quedas bruscas, moeda americana chega a R$ 5,60 e juros futuros sobem. Investidores cobram sinais de responsabilidade fiscal e aguardam definições sobre a equipe econômica do próximo mandato.


Foto: Reprodução

 

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República provocou forte turbulência no mercado financeiro brasileiro nesta segunda-feira (26). Na primeira sessão após o segundo turno, realizado no domingo (25), a Bolsa de Valores brasileira sofreu uma queda expressiva, o dólar disparou e os juros futuros avançaram, em um movimento de aumento da aversão ao risco por parte dos investidores.

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Diante da intensidade das perdas, a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em situações de queda acentuada. A medida foi adotada após o Ibovespa, principal indicador do mercado acionário nacional, atingir o limite de baixa de 10% em relação ao fechamento anterior.

O episódio marcou o primeiro acionamento do mecanismo desde março de 2020, período de grande instabilidade provocado pela pandemia de Covid-19. Após a retomada das operações, a pressão vendedora continuou, e o Ibovespa chegou a registrar queda superior a 16% durante a manhã, segundo informações divulgadas pelo UOL.

 

Trabalhadores da construção civil ao lado da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, com um painel eletrônico que exibe informações sobre as oscilações dos índices de mercado – Foto: Alexandre Meneghini/Reuters

 

Dólar chega a R$ 5,60 e aumenta preocupação com a inflação

No mercado de câmbio, o dólar comercial chegou a subir aproximadamente 12,3%, alcançando R$ 5,60 nos primeiros momentos de negociação. A valorização da moeda americana reflete, entre outros fatores, a procura por proteção diante das incertezas sobre os rumos da política econômica brasileira.

A alta do dólar pode ter efeitos que vão além do mercado financeiro. Uma moeda americana mais cara tende a elevar os custos de produtos importados, combustíveis, insumos industriais, máquinas e componentes utilizados por empresas brasileiras.

Caso a desvalorização do real persista, parte desses custos poderá ser repassada aos consumidores, aumentando a pressão sobre os preços. Esse cenário também pode dificultar o trabalho do Banco Central no controle da inflação.

Os efeitos, porém, não são imediatos nem automáticos. A intensidade do repasse cambial depende da duração da alta, das condições de demanda, das margens das empresas e da evolução dos preços internacionais.

Juros futuros disparam e crédito pode ficar mais caro

Outra consequência da turbulência foi a forte elevação das taxas dos contratos de juros futuros, que refletem as expectativas dos investidores para a trajetória dos juros e da economia.

A alta dessas taxas indica que o mercado passou a exigir uma remuneração maior para assumir riscos associados aos ativos brasileiros. Entre as principais preocupações estão a trajetória das contas públicas, o crescimento da dívida e a capacidade do governo de equilibrar despesas e receitas.

Se as taxas permanecerem elevadas, o custo de financiamento poderá aumentar para empresas, consumidores e para o próprio governo. Na prática, empréstimos, financiamentos imobiliários e operações de crédito corporativo podem ficar mais caros, dependendo das condições de cada modalidade.

O movimento também pode afetar decisões de investimento das empresas, especialmente em setores que dependem de financiamento para ampliar a produção, contratar trabalhadores ou executar projetos de longo prazo.

Por que o resultado eleitoral provocou reação tão forte?

A reação negativa está relacionada, sobretudo, à diferença entre o resultado das urnas e as expectativas de parte do mercado financeiro.

Após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Lula, os ativos brasileiros registraram uma valorização expressiva. Investidores passaram a apostar na possibilidade de uma mudança na condução da política econômica, com maior compromisso com o ajuste fiscal.

A vitória de Lula reverteu parte desse movimento e levou investidores a rever posições em ações, câmbio e contratos de juros.

Um levantamento do Citibank citado pela imprensa apontava que 80% dos 73 gestores de fundos de ações e multimercado consultados esperavam uma queda superior a 5% do Ibovespa caso Lula vencesse o segundo turno. A pesquisa também indicava expectativa de desvalorização do real entre os participantes.

A reação, entretanto, não significa que todos os investidores tenham a mesma avaliação sobre o novo mandato. Os preços refletem expectativas, estratégias de negociação e avaliações de risco que podem mudar conforme o governo apresente suas prioridades e medidas econômicas.

Tesouro Nacional cancela leilões de títulos públicos

A instabilidade também alcançou o mercado de títulos da dívida pública. Segundo informações da Reuters e do UOL, o Tesouro Nacional cancelou leilões regulares de títulos prefixados e de papéis vinculados à inflação previstos para os dias 27 e 29 de outubro.

A decisão ocorreu em meio à forte oscilação das taxas e à necessidade de acompanhar as condições de negociação. O Tesouro informou que continuaria monitorando o mercado e atuando para preservar seu funcionamento.

O cancelamento dos leilões não significa, por si só, uma interrupção do financiamento do governo, mas demonstra a dimensão da turbulência e a necessidade de avaliar as condições para novas operações.

O que pode acontecer a partir de agora?

Os próximos movimentos do mercado dependerão principalmente das sinalizações do governo eleito, da reação dos investidores e da capacidade de reduzir as incertezas fiscais e econômicas.

1. Mais volatilidade na Bolsa e no dólar

Se persistirem as dúvidas sobre a política econômica, ações brasileiras e o real poderão continuar sujeitos a oscilações intensas. A recuperação, por outro lado, poderá ganhar força caso surjam sinais considerados positivos pelos investidores.

2. Pressão sobre a inflação e os juros

A manutenção do dólar em patamares elevados pode encarecer importações e pressionar os preços internos. Se as expectativas de inflação piorarem, o Banco Central poderá ter menos espaço para reduzir a taxa básica de juros, a Selic.

Uma eventual mudança na trajetória dos juros dependerá dos dados de inflação, das expectativas econômicas e das decisões da autoridade monetária — não apenas da reação inicial à eleição.

3. Expectativa pela equipe econômica

A escolha dos responsáveis pela condução da economia será um dos principais pontos de atenção. Investidores deverão avaliar o perfil dos nomes indicados, as prioridades da Fazenda e a disposição do governo para apresentar medidas capazes de estabilizar as contas públicas.

4. Disputa sobre gastos e equilíbrio fiscal

O desafio será conciliar políticas sociais, investimentos públicos e crescimento econômico com uma trajetória sustentável para a dívida. A apresentação de metas, medidas concretas e mecanismos de acompanhamento poderá influenciar a confiança do mercado.

5. Relação com o Congresso Nacional

A capacidade de aprovar medidas econômicas também será determinante. Negociações sobre orçamento, despesas obrigatórias, arrecadação e reformas poderão definir quanto o governo conseguirá executar de seu programa.

Como a turbulência pode chegar ao bolso dos brasileiros?

Embora a queda da Bolsa afete diretamente quem investe em ações, os reflexos de uma crise de confiança podem alcançar a economia real.

O dólar elevado pode pressionar preços de produtos importados e insumos, enquanto juros mais altos podem dificultar o acesso ao crédito. Empresas que dependem de financiamento ou de componentes comprados no exterior também podem enfrentar custos maiores.

Por outro lado, exportadores que recebem receitas em moeda estrangeira podem se beneficiar da conversão de dólares em reais, embora esse efeito dependa dos custos, dos contratos e das condições de cada setor.

No mercado de investimentos, a forte queda não representa necessariamente uma oportunidade imediata de compra. A recuperação dos ativos dependerá dos fundamentos das empresas, das condições econômicas e da evolução dos riscos. Decisões tomadas apenas com base na expectativa de uma recuperação rápida podem expor investidores a perdas adicionais.

Mercado aguarda os próximos passos do governo

A turbulência desta segunda-feira coloca a política econômica no centro das atenções. Mais do que o resultado eleitoral isolado, os investidores deverão observar as decisões que serão tomadas nas próximas semanas e a capacidade do governo de transmitir previsibilidade.

A definição da equipe econômica, a apresentação das prioridades fiscais e o diálogo com o Congresso serão fatores importantes para determinar se a reação negativa perderá força ou se a instabilidade continuará.

Por enquanto, o cenário é de cautela. A queda dos ativos representa uma revisão das expectativas do mercado, mas não permite concluir, isoladamente, qual será o desempenho da economia brasileira nos próximos meses. O comportamento dos preços dependerá das medidas efetivamente adotadas, dos indicadores econômicos e da confiança na condução do próximo mandato.

Fontes consultadas: UOL Economia, Reuters e B3 — entenda o circuit breaker.