
Foto: Reprodução
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) protagonizaram, na sexta-feira (23 de outubro de 2026), o último debate presidencial do segundo turno, transmitido pela TV Globo. O confronto foi marcado por acusações sobre corrupção, discussões sobre a situação fiscal do país, críticas à gestão pública e tentativas de colocar em dúvida a credibilidade do adversário.
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Realizado dois dias antes da votação, o encontro ocorreu em um cenário de disputa acirrada e ampliou o confronto iniciado no debate da TV Bandeirantes, em 18 de outubro. Ao longo do programa, os candidatos recorreram tanto ao histórico de seus grupos políticos quanto a promessas e críticas relacionadas aos principais problemas enfrentados pelos brasileiros.
A cobertura também foi acompanhada por iniciativas de checagem de fatos. A Agência Lupa, em parceria com a Folha de S.Paulo, verificou declarações feitas durante o confronto, enquanto outros veículos mantiveram apurações independentes. A agência informou que já havia checado mais de 130 declarações de Lula e Flávio ao longo da campanha eleitoral de 2026.
Corrupção e Banco Master concentram os ataques
O bloco de tema livre concentrou parte dos momentos mais tensos do debate. Lula e Flávio trocaram acusações envolvendo o Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, relações políticas e supostas irregularidades.
Lula mencionou o orçamento de R$ 134 milhões associado ao filme Dark Horse, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A referência foi utilizada para questionar os gastos relacionados ao projeto e a atuação do grupo político adversário.
Flávio, por sua vez, citou uma suposta garrafa de uísque avaliada em R$ 500 mil que, segundo sua declaração, teria sido presenteada por Daniel Vorcaro ao presidente. O senador também mencionou a lobista Roberta Luchsinger, relacionada a investigações sobre fraudes envolvendo descontos em benefícios previdenciários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
As declarações colocaram as relações políticas e a transparência no centro do confronto. Entretanto, a citação de pessoas, valores ou investigações não comprova, isoladamente, a participação de qualquer candidato em uma irregularidade. A atribuição de responsabilidades exige documentos, evidências verificáveis e a análise dos procedimentos conduzidos pelas autoridades competentes.
A discussão também envolveu sigilos e informações fiscais. Flávio afirmou ter encaminhado dados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), enquanto Lula contestou as declarações do adversário e criticou o ex-procurador Deltan Dallagnol.
Para esclarecer a controvérsia, é necessário consultar os registros oficiais e verificar quais documentos foram apresentados, em que circunstâncias e com qual abrangência.
Checagem de fatos: o que foi apontado sobre as declarações dos candidatos
A verificação das falas ajuda a distinguir informações sustentadas por dados públicos de declarações que precisam de contexto ou que apresentam incorreções. Entre os pontos destacados na cobertura da Agência Lupa estão economia, segurança pública, inflação, obras e gastos governamentais.
1. Pobreza na Argentina durante o governo Milei
Ao afirmar que a pobreza na Argentina chegou a 40% durante o governo de Javier Milei, Lula recebeu a classificação de “falta contexto”, segundo a checagem mencionada no material original.
Dados do Instituto Nacional de Estadística y Censos (Indec) citados pela agência apontaram que a pobreza atingiu 52,4% da população no primeiro semestre de 2024 e recuou para 38% no segundo semestre daquele ano.
A comparação exige a indicação do período de referência. Um número isolado não representa toda a evolução do indicador nem permite, por si só, avaliar os resultados econômicos de um governo.
2. Roubo de celulares e a referência à compra de cerveja
Flávio acusou Lula de defender que pessoas que roubam celulares não deveriam ser presas porque estariam tentando conseguir dinheiro para comprar cerveja.
Segundo a checagem atribuída à Agência Lupa, a alegação foi classificada como falsa. A agência informou que Lula não defendeu o roubo de celulares com essa justificativa nem a impunidade de seus autores.
3. Brasil está quebrado? O que mostram os números fiscais
Flávio questionou Lula sobre a situação financeira do país e afirmou que o Brasil estaria quebrado. A declaração foi classificada como “falta contexto”, de acordo com a checagem apresentada no texto original.
Os dados oficiais do Banco Central mostram que, em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões, o equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo mês, o déficit nominal do setor público consolidado foi de R$ 115,9 bilhões. Em 12 meses, o déficit nominal acumulado chegou a R$ 1,264 trilhão.
Os números evidenciam desafios fiscais relevantes, mas não permitem concluir, isoladamente, que o país esteja insolvente. Uma avaliação mais ampla precisa considerar receitas, despesas, resultado primário, juros, capacidade de financiamento e trajetória da dívida.
Fonte: Banco Central do Brasil — Estatísticas fiscais.
4. Obras paralisadas: divergência sobre os números
Lula afirmou ter herdado 6 mil obras paralisadas, número que, segundo a checagem relatada, foi considerado subestimado pela Agência Lupa.
Flávio mencionou mais de 11,5 mil obras paralisadas atribuídas ao governo atual. Nesse caso, a agência apontou falta de contexto, porque o levantamento citado abrangia obras financiadas com recursos federais, e não apenas empreendimentos iniciados durante a administração Lula.
A comparação exige considerar o universo de obras incluído em cada levantamento, a data dos dados e os critérios utilizados para definir uma obra como paralisada.
5. Crescimento do PIB e histórico econômico
Lula afirmou que a economia brasileira não crescia acima de 3% desde sua saída da Presidência, em 2010. Segundo a checagem mencionada no texto original, a declaração foi classificada como falsa.
Os dados citados incluem crescimento de 3,9% em 2011, de 3% em 2013 e de 4,8% em 2021. A comparação mostra que houve anos com expansão econômica superior a 3% após 2010, embora a avaliação do desempenho de cada governo dependa de uma série mais ampla de indicadores.
6. Redução do tamanho das barras de chocolate
Flávio atribuiu à inflação a redução do peso de barras de chocolate, de 120 para 80 gramas. A Agência Lupa classificou a afirmação como falsa, segundo o relato original, observando que embalagens de 80 gramas já eram comercializadas em 2022.
O caso ilustra a necessidade de separar a discussão sobre inflação da comprovação de uma mudança específica de embalagem e de sua data de introdução no mercado.
7. Gastos eleitorais e medidas orçamentárias
Flávio afirmou que Lula teria gasto mais de R$ 400 bilhões para tentar a reeleição. A checagem relatada classificou a declaração como exagerada.
O valor de R$ 405 bilhões reunia medidas de impacto orçamentário, incluindo renúncias fiscais. Portanto, o montante não comprova que todo esse valor tenha sido efetivamente desembolsado ou destinado a beneficiar eleitoralmente o presidente.
Para avaliar a afirmação, é necessário distinguir despesas efetivas, renúncias de receitas, estimativas de impacto fiscal e eventuais evidências de finalidade eleitoral.
8. Transposição do Rio São Francisco
Flávio atribuiu a conclusão do projeto de transposição do Rio São Francisco ao governo Jair Bolsonaro. Segundo a checagem apresentada no material original, a declaração foi considerada exagerada.
A obra começou em governos anteriores e possui etapas cuja execução e conclusão precisam ser avaliadas individualmente. Por isso, atribuir o empreendimento integralmente a uma única administração desconsidera sua trajetória histórica.
Nota de apuração: as classificações acima reproduzem o relato fornecido sobre as checagens. Antes da publicação, recomenda-se confirmar cada classificação e os respectivos dados diretamente na Agência Lupa e nas fontes oficiais citadas.
Considerações finais: Lula aposta na trajetória de governo; Flávio enfatiza mudança
Nas considerações finais, Lula pediu desculpas aos espectadores e sugeriu que o público pesquisasse os gastos corporativos das duas gestões. O presidente voltou a defender sua trajetória política e os resultados de seu governo como argumentos para a continuidade administrativa.
Flávio concentrou sua mensagem na segurança pública, no poder de compra da população e na soberania dos eleitores. Também recorreu a referências religiosas e ao chamado “voto envergonhado”, argumentando que a decisão final seria individual e tomada diante da urna.
Após o debate, Lula voltou a criticar o adversário, questionando seu compromisso com a verdade e seu histórico político. As declarações integram a disputa retórica entre as campanhas e devem ser tratadas como manifestações políticas, não como conclusões independentes sobre todas as acusações feitas durante o programa.
As duas estratégias buscaram conectar a avaliação dos candidatos a preocupações concretas do eleitorado: de um lado, a experiência administrativa e a continuidade; de outro, a segurança, o custo de vida e a proposta de mudança.
Balanço do debate: quem se saiu melhor?
O desempenho de Lula e Flávio Bolsonaro pode ser comparado a partir dos temas escolhidos, dos argumentos utilizados e da capacidade de responder às críticas. Entretanto, declarar um vencedor geral exige critérios claros e evidências que vão além da intensidade dos ataques ou da repercussão imediata de determinadas falas.
Lula: o presidente concentrou sua estratégia na defesa da trajetória política e administrativa, além de questionar os gastos e as relações do grupo adversário. Esse caminho buscou associar sua candidatura à experiência de governo e à continuidade. Em contrapartida, suas declarações sobre economia e indicadores internacionais também ficaram sujeitas à necessidade de contextualização e checagem.
Flávio Bolsonaro: o senador priorizou segurança pública, poder de compra e críticas à gestão fiscal, além de explorar acusações relacionadas a possíveis irregularidades. A estratégia procurou associar sua candidatura à mudança e à cobrança de responsabilidades. Por outro lado, alegações específicas feitas durante o confronto precisam ser avaliadas individualmente, e as classificações da checagem indicam que algumas afirmações exigiam correção ou contextualização.
No critério factual, a avaliação deve considerar quais declarações resistiram à verificação, quais foram consideradas falsas ou exageradas e quais dependiam de informações adicionais. Não é adequado transformar uma checagem pontual em um julgamento global sobre todo o desempenho de um candidato.
No critério político, o debate contrapôs duas mensagens: Lula defendeu sua experiência e a continuidade do governo, enquanto Flávio procurou enfatizar os problemas da administração e a necessidade de mudança. A capacidade de cada estratégia de convencer os eleitores depende da percepção individual sobre os temas prioritários e da credibilidade atribuída aos argumentos.
Conclusão
O debate da Globo terminou com a credibilidade, a economia, a segurança pública e as acusações políticas no centro da disputa presidencial. A checagem de fatos acrescentou elementos importantes para avaliar as declarações dos candidatos, mas não substitui a análise integral de suas propostas, de seus históricos administrativos e das evidências disponíveis.
Assim, o balanço mais consistente é comparar o desempenho de Lula e Flávio por critérios específicos, sem atribuir um vencedor definitivo com base apenas no conteúdo apresentado. A intensidade dos confrontos pode marcar a memória do público, mas a avaliação mais sólida depende da precisão das informações, da consistência dos argumentos e da capacidade de cada candidato de explicar como pretende enfrentar os problemas do país.
