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Educação brasileira: os números de 2026 expõem estagnação e um enorme desafio de aprendizagem

Pisa expõe uma década de estagnação da aprendizagem no Brasil. Resultados divulgados em 2026 mostram melhora razoável em indicadores nacionais, mas Pisa revela que o desempenho dos adolescentes brasileiros permanece praticamente parado.


Faltas e indisciplina marcam o cenário da educação no segundo semestre de 2026

 

Foto: Reprodução

 

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De um lado, Ideb e Saeb registraram avanços em 2025, segundo os resultados divulgados pelo Inep em agosto deste ano. De outro, os resultados do Pisa 2025, divulgados pela OCDE em setembro de 2026, mostram que o desempenho dos estudantes brasileiros de 15 anos continua praticamente no mesmo patamar de mais de uma década atrás.

É justamente essa combinação que torna os números mais importantes: há sinais de melhora em alguns indicadores nacionais, mas a aprendizagem medida internacionalmente ainda apresenta um problema estrutural.

Ideb sobe, mas Pisa continua acendendo o alerta

Os resultados do Ideb 2025, divulgados em agosto de 2026, mostram crescimento nas três etapas da educação básica.

Considerando redes públicas e privadas, o índice passou de:

  • 6,0 para 6,3 nos anos iniciais do ensino fundamental;
  • 5,0 para 5,3 nos anos finais;
  • 4,3 para 4,5 no ensino médio.

Na rede pública, o Ideb avançou de 5,7 para 6,1 nos anos iniciais, de 4,7 para 5,0 nos anos finais e de 4,1 para 4,3 no ensino médio.

O Saeb 2025 avaliou aproximadamente 5,9 milhões de estudantes, distribuídos por 73,7 mil escolas, 247,7 mil turmas e todo o território nacional.

Mas existe uma diferença metodológica importante: o Ideb combina desempenho no Saeb com taxas de aprovação, enquanto o Pisa procura medir conhecimentos e habilidades de estudantes de 15 anos em uma avaliação internacional comparável.

Por isso, os dois indicadores não devem ser tratados como se medissem exatamente a mesma coisa.

Pisa 2025: o Brasil praticamente não saiu do lugar

O resultado internacional divulgado em 2026 é mais duro.

A OCDE afirma que as médias brasileiras de 2025 foram praticamente as mesmas de 2022 em Matemática, Leitura e Ciências.

Mais do que isso: a organização afirma que essa estabilidade se estende por mais de uma década. Os resultados brasileiros de 2025 permaneceram próximos dos níveis observados nas avaliações realizadas desde 2015.

 

 

Os números são:

Área Brasil Média OCDE
Matemática 377 463
Leitura 408 461
Ciências 409 482

O maior buraco aparece novamente em matemática: 86 pontos separam o Brasil da média da OCDE.

O problema começa antes dos 15 anos

Um dos dados mais importantes divulgados em 2026 está na alfabetização.

O Indicador Criança Alfabetizada mostra que o percentual de crianças consideradas alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental passou de:

56% em 2023 → 59% em 2024 → 66% em 2025.

O dado representa uma evolução, mas também significa que, em 2025, 34% das crianças avaliadas ainda não haviam atingido o padrão nacional de alfabetização definido pelo Inep.

A meta estabelecida pelo Compromisso Nacional Criança Alfabetizada é chegar a pelo menos 80% até 2030.

Esse dado ajuda a explicar por que a discussão sobre o Pisa não pode ficar restrita aos adolescentes de 15 anos.

Uma criança que chega aos anos iniciais sem dominar leitura e escrita carrega essa defasagem para as etapas seguintes.

Quase metade dos adolescentes não domina o básico nas três áreas

O Pisa 2025 mostra que aproximadamente 48% dos brasileiros atingiram pelo menos o nível 2 em Ciências, contra 74% na média da OCDE.

Em leitura, aproximadamente 49% chegaram ao nível 2 ou superior, contra 69% na OCDE.

Em Ciências, apenas 1% dos estudantes brasileiros atingiu os níveis 5 ou 6, considerados de alto desempenho. Na média da OCDE, foram cerca de 7%.

A consequência é uma pirâmide educacional bastante desigual: poucos estudantes chegam ao topo enquanto uma parcela muito grande permanece abaixo do nível considerado básico.

A desigualdade social aparece dentro da própria escola

Outro dado divulgado pela OCDE em 2026 merece atenção. No Brasil, os estudantes pertencentes aos 25% mais favorecidos socioeconomicamente superaram os 25% menos favorecidos em 96 pontos em Ciências.

Na média da OCDE, essa diferença foi de 85 pontos.

A OCDE também calcula que o nível socioeconômico respondeu por 16% da variação do desempenho em Ciências no Brasil, contra 12% na média dos países da organização.

E há uma tendência preocupante: entre 2015 e 2025, a diferença de desempenho entre os grupos socioeconômicos mais favorecidos e desfavorecidos aumentou no Brasil, enquanto a diferença média na OCDE diminuiu.

Segundo a OCDE, o desempenho melhorou entre os estudantes favorecidos, mas permaneceu estável entre os desfavorecidos.

Faltas às aulas: outro número que chama atenção

O Pisa 2025 também trouxe um indicador particularmente expressivo.

55% dos estudantes brasileiros disseram ter faltado à escola pelo menos um dia nas duas semanas anteriores à avaliação.

Na média da OCDE, foram 22%.

Além disso, 53% dos brasileiros disseram ter faltado a pelo menos uma aula, contra 24% na OCDE.

É um dado que merece investigação específica porque o absenteísmo pode comprometer a continuidade da aprendizagem, embora o Pisa, por si só, não estabeleça que a falta às aulas seja a causa dos resultados acadêmicos.

A escola brasileira está entrando na era da inteligência artificial

O Pisa 2025, cujos resultados foram divulgados em 2026, também apresenta uma novidade importante: o uso de inteligência artificial pelos estudantes.

48% dos brasileiros disseram utilizar chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para ajudá-los a aprender, percentual próximo da média da OCDE, de 46%.

No Brasil:

  • 40% usam IA para pesquisas preliminares;
  • 31% para resumir textos;
  • 27% para elaborar rascunhos de trabalhos escritos.

A questão agora deixa de ser simplesmente se o aluno utiliza inteligência artificial.

Passa a ser se ele sabe avaliar a informação produzida pela ferramenta, identificar erros, comparar fontes e utilizar a tecnologia para aprender — e não apenas para terceirizar o próprio raciocínio.

Celular: Brasil adota restrições em escala muito maior

Outro dado atualizado em 2026 mostra a mudança no ambiente escolar.

Em 2025, 81% dos estudantes brasileiros estavam em escolas que restringiam o uso de celulares, contra 49% na média da OCDE.

Em 2022, eram apenas 37% no Brasil.

A OCDE também encontrou uma associação entre distração digital e desempenho. No Brasil, estudantes que relataram distração digital nas aulas de Ciências apresentaram, em média, 19 pontos a menos do que aqueles que não relataram esse problema, depois de considerados fatores socioeconômicos.

Isso não significa que o celular seja, isoladamente, responsável pelo baixo desempenho. O próprio estudo trabalha com associações estatísticas, não com uma demonstração de causalidade.

E os professores?

Crise Docente: A atratividade da carreira está em baixa; apenas 14,7% dos concluintes do Enem com melhor desempenho optam por cursos de licenciatura. Os dados de 2026 também afastam uma explicação simplista baseada exclusivamente na falta de professores.

Em 2025, 21% dos estudantes brasileiros estavam em escolas cujos diretores relataram que a falta de docentes prejudicava o ensino em algum grau. Na média da OCDE, o percentual foi de 39%.

Por outro lado, 26% dos estudantes brasileiros estavam em escolas onde a falta de materiais educacionais era apontada como obstáculo ao ensino, enquanto 28% estavam em escolas onde problemas de infraestrutura física eram considerados obstáculos.

O problema, portanto, não pode ser reduzido a um único fator.

Há uma boa notícia no meio do problema. Os números de 2026 também revelam algo importante: o Brasil não está parado em todos os indicadores.

O Inep destaca que, desde 2006, o país está entre os que mais avançaram em proficiência no Pisa nas três áreas.

Na comparação entre 2006 e 2025, o Brasil aparece entre os dez países com maiores avanços: 7º em Leitura, 7º em Matemática e 8º em Ciências, segundo a análise do Inep.

A distância para a média da OCDE também diminuiu nesse período:

  • Leitura: de 102 para 58 pontos;
  • Matemática: de 131 para 92 pontos;
  • Ciências: de 113 para 77 pontos.

Mas há uma ressalva fundamental: a própria OCDE registrou queda do desempenho médio de seus países em 2025.

Portanto, a redução da distância histórica não significa que o Brasil tenha alcançado os países de maior desempenho.

O retrato de 2026

Somando os principais indicadores divulgados neste ano, o quadro é mais complexo do que o título “Brasil estaciona” sugere.

Há avanços recentes no Ideb, crescimento do percentual de crianças alfabetizadas e melhora histórica do Brasil em relação ao seu próprio desempenho de 2006.

Ao mesmo tempo, há estagnação do Pisa desde 2015, enorme diferença em relação à média da OCDE, baixo percentual de estudantes nos níveis mais altos, forte desigualdade socioeconômica e elevado absenteísmo escolar.

O retrato brasileiro em 2026 pode ser resumido em quatro números:

66% — crianças alfabetizadas ao final do 2º ano em 2025.

377 — pontos do Brasil em Matemática no Pisa.

409 — pontos em Ciências.

408 — pontos em Leitura.

O primeiro número aponta para uma recuperação em curso.

Os três últimos mostram que o desafio permanece enorme.

E existe uma questão que os próximos anos terão de responder: os avanços registrados nos indicadores nacionais serão suficientes para produzir uma mudança consistente na aprendizagem medida internacionalmente?

O próximo Pisa brasileiro só ocorrerá em 2029, porque a avaliação passou a ser quadrienal a partir de 2025. Resultados adicionais do ciclo de 2025, incluindo análises sobre aprendizagem autorregulada em ambientes digitais, estão previstos para 2027.

Até lá, o Brasil terá de transformar melhora estatística em aprendizagem efetiva — especialmente para aqueles que ainda estão na parte de baixo da escala.

Brasil em perspectiva internacional

Sistema Ciências Leitura Matemática
Singapura 560 535 563
Japão 538* 503* 525*
Estônia 527* 499* 508*
Coreia 526* 501* 522*
Uruguai 445* 443* 446*
Chile 442* 438* 447*
Colômbia 414* 410* 407*
México 414* 407* 420*
Brasil 409 408 377
Argentina 390* 397* 376*
Média OCDE 482 461 463

Os asteriscos indicam valores que devem ser consultados com a tabela estatística completa da OCDE quanto às margens de erro e significância das diferenças. A tabela serve para comparação das pontuações médias, não para produzir uma classificação geral de “melhor” ou “pior” sistema educacional.

 

Fontes: OCDE/Pisa 2025, Inep/MEC, Saeb 2025, Ideb 2025 e Indicador Criança Alfabetizada.