Justiça

Eleições 2026

Violência e avanço do crime organizado entram no centro da disputa eleitoral de 2026

Segurança pública ganha peso decisivo entre as preocupações dos brasileiros, enquanto facções ampliam presença territorial, poder econômico e capacidade de desafiar o Estado.


A violência e a insegurança pública devem ocupar um espaço central na eleição brasileira de 2026. Mais do que um tema tradicional de campanha, a segurança passou a interferir diretamente na percepção do eleitor sobre a capacidade do Estado de proteger a população e manter controle sobre territórios cada vez mais disputados por organizações criminosas.

Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), realizada em parceria com o Instituto Datafolha, mostra a dimensão do problema: 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam perceber a presença de facções ou milícias no bairro onde vivem. O percentual corresponde a cerca de 68,7 milhões de pessoas e sobe para 55,9% nas capitais.

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O dado ajuda a explicar por que a segurança pública tende a se transformar em um dos principais campos de disputa entre candidatos à Presidência, governos estaduais e ao Congresso. O debate já deixou de se restringir à redução dos homicídios. Hoje, envolve o medo cotidiano, roubos, golpes digitais, domínio territorial, tráfico, violência contra mulheres e, principalmente, a crescente capacidade de adaptação das organizações criminosas.

Enquanto o debate eleitoral está preso às promessas fáceis, o crime organizado se estrutura e fica mais forte

 

 

Crime organizado amplia território e desafia o poder do Estado

O avanço das facções é um dos elementos mais preocupantes do cenário brasileiro. O crime organizado deixou de estar concentrado nos grandes centros urbanos e passou por um processo de interiorização, nacionalização e expansão internacional.

Levantamento divulgado em 2026 apontou que alianças envolvendo PCC, Comando Vermelho e Terceiro Comando Puro, além de grupos regionais, já alcançam pelo menos 17 estados. A estratégia é pragmática: ampliar territórios, controlar rotas e fortalecer diferentes mercados ilícitos.

Na Amazônia, a expansão é ainda mais visível. Estudo do FBSP registrou a presença de facções em 344 municípios da Amazônia Legal em 2025, contra 260 no ano anterior e 178 em 2023. O Comando Vermelho, sozinho, passou de presença em 128 cidades, em 2023, para 286 em 2025.

O fenômeno demonstra que as organizações criminosas não atuam mais apenas como grupos voltados ao tráfico de drogas. Elas buscam controlar territórios, rotas fluviais e terrestres, sistemas logísticos, atividades econômicas e, em alguns casos, até mecanismos de vigilância.

Em Campina Grande, na Paraíba, por exemplo, a Polícia Civil retirou recentemente câmeras instaladas ilegalmente por organizações criminosas para monitorar a movimentação policial e grupos rivais.

No Rio de Janeiro, operações recentes também revelaram a capacidade das facções de responder à ação estatal. Nesta quarta-feira, ônibus foram sequestrados e usados como barricadas após uma operação policial, enquanto as forças de segurança atuavam também para impedir uma tentativa de expansão territorial do Comando Vermelho.

A preocupação já ultrapassa as fronteiras brasileiras. Reportagens recentes mostram a expansão de facções nacionais para regiões da Bolívia próximas à fronteira com o Brasil, reforçando a dimensão transnacional do problema.

Menos homicídios, mas um problema cada vez mais complexo

O cenário apresenta uma contradição. Os números gerais de mortes violentas caíram, mas isso não significa que a sensação de insegurança tenha diminuído na mesma proporção.

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontou que o país registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais em 2025, uma queda de 8,2% em relação ao ano anterior. A taxa ficou em 19,1 mortes por 100 mil habitantes, a menor da série histórica do Fórum desde 2012.

Ao mesmo tempo, o próprio levantamento alerta para outros problemas: crescimento de feminicídios, alta da letalidade policial e explosão de crimes digitais.

A consequência política é clara: o eleitor não avalia segurança pública apenas pelas estatísticas de homicídios. A percepção é construída pela experiência diária — o medo de sair de casa, a presença de facções no bairro, os roubos, os golpes pela internet e a sensação de que determinadas regiões vivem sob regras impostas por grupos criminosos.

Segurança se torna vulnerabilidade eleitoral

Uma pesquisa Datafolha divulgada em maio mostrou que a segurança pública aparece entre as áreas em que o governo federal recebe uma de suas piores avaliações. Para 16% dos entrevistados, ela era justamente o setor de pior desempenho da gestão Lula naquele momento.

O tema também passou a dominar o discurso dos candidatos. As propostas vão desde o reforço da inteligência e do combate financeiro às facções até o endurecimento das penas, maior isolamento de lideranças criminosas, controle de fronteiras e mudanças na classificação jurídica das organizações.

Lula e Flávio Bolsonaro, por exemplo, têm apresentado estratégias diferentes para enfrentar as facções, embora ambos reconheçam a transformação do crime organizado em uma estrutura com poder financeiro, logístico e atuação nacional e internacional.

O debate, portanto, tende a colocar frente a frente diferentes modelos de segurança: de um lado, propostas baseadas em integração institucional, inteligência, investigação financeira e prevenção; de outro, discursos que defendem respostas mais duras, ampliação do poder repressivo e endurecimento das leis penais.

O Estado diante de organizações cada vez mais estruturadas

Um dos maiores desafios é que o crime organizado demonstrou capacidade de adaptação superior à resposta fragmentada do poder público.

Durante audiência sobre a legislação de combate às facções, o ministro Alexandre de Moraes afirmou que a falta de integração entre os órgãos de segurança prejudica o enfrentamento ao crime e alertou para a capacidade de cooperação das organizações criminosas.

O problema não é apenas policial. Facções movimentam recursos, exploram atividades legais e ilegais, controlam rotas internacionais e utilizam tecnologia para comunicação, vigilância e aplicação de golpes.

A discussão eleitoral, portanto, deverá ir além da pergunta sobre quem será mais duro contra o crime. A questão central será se o Estado brasileiro conseguirá construir uma estratégia capaz de enfrentar organizações que se tornaram mais capilarizadas, financeiramente sofisticadas e territorialmente presentes.

Com 68,7 milhões de brasileiros afirmando perceber facções ou milícias perto de onde vivem, a violência deixou de ser apenas um tema de campanha. Ela se tornou uma experiência cotidiana para uma parcela expressiva do eleitorado.

Nas eleições de 2026, vencer o debate sobre segurança poderá depender menos de slogans e mais da capacidade de apresentar respostas concretas para uma pergunta que deve acompanhar milhões de brasileiros até as urnas: quem conseguirá devolver ao Estado o controle dos territórios onde o crime organizado avança?