Política

Eleições 2026

Mais de 900 candidatos mudam declaração racial no TSE; caso no Amazonas acende alerta sobre registros eleitorais

Levantamento aponta 909 alterações entre candidatos que disputaram 2022 e 2026; no Amazonas, vereador Sargento Salazar foi intimado pelo TRE-AM após mudar de branco para pardo.


Imagem ilustrativa gerada por IA/Gemini

 

A corrida eleitoral de 2026 ganhou um novo capítulo de atenção para partidos, candidatos e Justiça Eleitoral. Um levantamento atualizado com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificou 909 candidatos que alteraram a declaração de cor ou raça em relação às eleições de 2022.

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O número representa 14,4% dos 6.315 candidatos que disputaram os dois pleitos e possuíam registros comparáveis. Outros 5.406 candidatos, equivalentes a 85,6%, mantiveram a mesma declaração.

A maior parte das alterações ocorreu entre as categorias parda e branca. Foram 322 candidatos que passaram de parda para branca e 317 que fizeram o caminho inverso, de branca para parda. Somadas, as duas situações representam 639 casos, ou 70,3% de todas as mudanças identificadas.

O levantamento não significa, por si só, que houve fraude. Especialistas ouvidos na análise ressaltam que uma alteração pode decorrer de erro de preenchimento, mudança na percepção da própria identidade racial ou até da participação das estruturas partidárias no processo de registro.

Amazonas também aparece no radar

No Amazonas, um caso envolvendo uma candidatura com potencial de repercussão política chamou a atenção da Justiça Eleitoral.

O vereador de Manaus Alexandre da Silva Salazar, o Sargento Salazar (PL), candidato a deputado federal em 2026, declarou-se pardo no atual registro eleitoral. Nas eleições de 2022 e 2024, porém, constava como branco.

O TRE-AM identificou a divergência e intimou o candidato a regularizar a documentação. O procedimento está relacionado ao processo nº 0600495-67.2026.6.04.0000, referente ao registro de candidatura de Salazar, que disputa uma vaga na Câmara dos Deputados com o número 2211.

O caso amazonense é especialmente relevante porque demonstra como a nova sistemática de registro pode provocar uma conferência mais rigorosa das informações declaradas pelos candidatos.

Quais os nomes mais fortes das eleições no Amazonas?

A alteração envolvendo Salazar ocorre em meio a uma eleição que reúne nomes de grande peso político no Amazonas.

Na disputa pelo Governo do Estado estão sete candidatos, segundo levantamento divulgado pela CNN com base nos registros eleitorais. Entre os nomes de maior projeção estão, Roberto Cidade, atual deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas; Omar Aziz, senador e uma das principais lideranças políticas do Estado; David Almeida (Avante), ex-prefeito de Manaus; além de outros postulantes que integram diferentes campos políticos.

A eleição também movimenta a disputa pelas duas vagas ao Senado que estarão em jogo em 2026, colocando no mesmo tabuleiro algumas das principais forças políticas amazonenses.

Republicanos lidera número de alterações

Entre os partidos, o Republicanos aparece na primeira posição em números absolutos, com 74 mudanças entre os candidatos analisados.

Na sequência aparecem:

  • MDB: 67 mudanças;
  • PL: 66;
  • Podemos: 57;
  • PSDB: 53;
  • PSD: 53;
  • PT: 46;
  • Avante: 45;
  • União Brasil: 42;
  • PSB: 41.

Os números consideram somente candidatos que concorreram em 2022 e 2026 e possuíam declarações comparáveis nos dois pleitos.

Deputados concentram a maioria dos casos

A enorme maioria das mudanças está concentrada nas eleições proporcionais.

Dos 909 registros identificados, 855 são de candidatos a deputado estadual, federal ou distrital, o equivalente a 94,1% do total.

Foram:

  • 515 candidatos a deputado estadual;
  • 317 candidatos a deputado federal;
  • 23 candidatos a deputado distrital.

Também foram encontradas mudanças entre candidatos ao Senado, governo estadual, vice-governadoria e suplências. Nenhum candidato à Presidência aparece entre os 909 casos analisados.

Por que a cor ou raça declarada é tão importante?

A questão ganhou peso nas eleições porque a autodeclaração racial está diretamente relacionada às regras de distribuição de recursos públicos para campanhas.

Para 2026, os partidos precisam destinar no mínimo 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do Fundo Partidário às candidaturas de pessoas negras, conforme as regras eleitorais. O TSE também passou a contemplar expressamente as candidaturas indígenas nas regras de distribuição.

O próprio TSE informou que, para orientar a aplicação dos recursos, foram consideradas 20.560 candidaturas em todo o país. Desse universo, 10.206 candidatos, ou 49,64%, foram classificados como negros — considerando pretos e pardos — e 191, ou 0,93%, como indígenas.

Justiça Eleitoral pode exigir confirmação

A legislação eleitoral de 2026 prevê um procedimento específico quando há divergência entre a nova declaração e informações existentes no Cadastro Eleitoral ou em registros anteriores.

Nesses casos, o candidato e o partido podem ser intimados para confirmar a alteração. Se houver reconhecimento de erro ou ausência de manifestação dentro do prazo, o registro pode ser ajustado para refletir a informação anterior, ficando proibido o repasse de recursos públicos destinados especificamente às candidaturas negras ou indígenas.

A regra também permite que partidos criem comissões de heteroidentificação para verificar candidaturas que se autodeclarem pretas ou pardas.

Mudança não significa fraude automaticamente

Apesar da repercussão política do levantamento, especialistas alertam que não é possível transformar automaticamente uma mudança de declaração racial em acusação de irregularidade.

A socióloga Flávia Rios, da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Afro-Cebrap, aponta que as alterações podem estar relacionadas a mudanças na percepção da própria identidade, erros no preenchimento ou à atuação das estruturas partidárias.

A especialista em Direito Eleitoral Ana Cláudia Santano também ressalta que uma alteração isolada não é suficiente para determinar que houve irregularidade.

O tema, contudo, ganhou uma dimensão adicional em 2026 porque a informação pode ter consequências práticas sobre o financiamento das campanhas.

Cenário nacional

As eleições deste ano terão mais de 20 mil candidatos disputando os cargos de presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. Um balanço parcial apontou pelo menos 20.501 candidaturas, número que ainda pode sofrer alterações com decisões judiciais e atualizações dos registros.

No Amazonas, levantamento baseado nos registros eleitorais aponta 462 candidaturas registradas, com predominância de candidatos pardos, que representam aproximadamente 61% do total. Brancos aparecem com 26%, pretos com 7% e indígenas com 5%.

Com a campanha oficialmente em andamento, a tendência é que novas divergências sejam identificadas e que partidos e candidatos sejam cada vez mais cobrados sobre a consistência das informações apresentadas à Justiça Eleitoral.

O caso de Sargento Salazar, no Amazonas, mostra que o tema deixou de ser apenas uma estatística nacional e já chegou diretamente ao processo eleitoral do Estado.