
Igor Gustavo Veloso de Souza (pai da criança) e Kathellen Moreira (madrasta) foram presos na madrugada desta quinta-feira (6). A madrasta é investigada por possível omissão na morte de Gustavo Veloso Feitosa, de 3 anos – Foto: Reprodução/Policia Civil de Palmas
A morte de Gustavo Veloso Feitosa, de apenas 3 anos, provocou comoção em Palmas, no Tocantins, e passou a ser investigada como um caso de extrema violência contra uma criança. Gustavo foi encontrado morto na casa do pai, na região norte da capital, na segunda-feira, 3 de agosto de 2026, depois de passar o fim de semana com ele.
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O que inicialmente foi apresentado às autoridades como um possível afogamento em uma piscina mudou de rumo após os primeiros exames do Instituto Médico Legal (IML). A perícia não encontrou sinais compatíveis com afogamento e apontou que a criança morreu em decorrência de graves lesões internas, incluindo laceração intestinal e hemorragias interna e externa. O corpo também apresentava múltiplos sinais de violência.
A investigação é conduzida pela 1ª Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Palmas e permanece sob sigilo. O objetivo é esclarecer como Gustavo foi morto, quem participou das agressões e qual teria sido a motivação.

Fotos: Reprodução
A versão apresentada inicialmente pelo pai
Segundo a versão apresentada pela defesa de Igor Gustavo Veloso de Sousa, de 33 anos, pai da criança, Gustavo teria se afogado na piscina da residência no domingo, 2 de agosto.
Ainda de acordo com os advogados, Igor teria retirado o filho da água, prestado os primeiros socorros e percebido uma aparente recuperação. A criança teria sido colocada para descansar depois de tomar banho. Posteriormente, o pai teria percebido que Gustavo não respondia e não apresentava sinais vitais.
Igor deixou a residência e, posteriormente, compareceu espontaneamente à Polícia Civil para comunicar a morte. A defesa afirmou que ele estava emocionalmente abalado e entregou as chaves do imóvel para a realização da perícia. Inicialmente, após prestar depoimento, ele foi liberado.
A versão, porém, entrou em contradição com os resultados da perícia.
IML descarta afogamento e encontra lesões graves
O diretor do IML de Palmas, Eduardo Godinho, afirmou que o primeiro exame não encontrou qualquer indício de afogamento. A avaliação apontou laceração intestinal associada a hemorragia interna e externa, além de diversas marcas de violência.
O médico legista classificou o caso como excepcionalmente grave e afirmou que, em 18 anos de atuação, não havia visto no Tocantins uma situação semelhante.
Posteriormente, o delegado Eduardo Menezes afirmou que as evidências reunidas apontam para uma morte provocada por agressões de extrema violência. Segundo a polícia, as lesões na região anal e intestinal teriam ocorrido dentro de um contexto de tortura.
A investigação também considera a possibilidade de violência sexual, mas esse ponto ainda depende de exames complementares e da conclusão das perícias. A polícia esclareceu que, diante da combinação de lesões internas, ferimentos na cabeça e hemorragia, não havia, naquele momento, elementos para afirmar que as lesões correspondiam a uma relação sexual. A tipificação criminal poderá ser alterada conforme os novos resultados periciais.
Polícia suspeita de tentativa de simular afogamento
Em coletiva, o delegado Eduardo Menezes afirmou que há indícios de que o pai teria tentado construir uma versão que apresentasse a morte como um afogamento.
De acordo com a investigação, Igor teria permanecido na residência com o corpo da criança antes de procurar a Polícia Civil, o que ocorreu somente na tarde de segunda-feira. A perícia realizada no imóvel teria encontrado garrafas de bebidas alcoólicas e sinais que, segundo os investigadores, poderiam indicar uma limpeza prévia do ambiente.
A polícia trabalha com a hipótese de que a morte tenha ocorrido ainda na noite de domingo e que, depois disso, o pai teria permanecido no imóvel tentando criar uma explicação para a morte. Essa é uma conclusão da investigação e ainda será submetida ao contraditório e à análise judicial.

Sabrina da Silva Feitosa durante enterro do menino Gustavo – Foto: Cirlene Feitosa
Pai e madrasta foram presos
Na quarta-feira, 5 de agosto, a Polícia Civil protocolou pedido de prisão preventiva contra Igor e sua companheira, Kathellen Moreira, de 23 anos, madrasta de Gustavo.
A Justiça autorizou as prisões, cumpridas na madrugada de 6 de agosto. Os dois foram encaminhados à Unidade Penal de Palmas e são investigados por homicídio qualificado e tortura.
Segundo o delegado, não foram identificadas, até o momento, evidências de que Kathellen tenha participado diretamente das agressões. A polícia, entretanto, investiga a possibilidade de omissão, sob o argumento de que ela também estaria na condição de responsável pelos cuidados da criança e não teria impedido o resultado.
A defesa dos dois contesta as acusações. Os advogados de Igor afirmam que ele colaborou desde o início das investigações e que se apresentou voluntariamente para cumprir o mandado. A defesa de Kathellen também contestou a prisão e chamou atenção para o fato de ela ser mãe de uma bebê de cinco meses que ainda estaria sendo amamentada.
Vídeo mostra Gustavo dizendo que não queria ir para a casa do pai
Outro elemento que ganhou repercussão foi um vídeo gravado antes da morte da criança.
Nas imagens divulgadas nas redes sociais, Gustavo aparece chorando e dizendo que não queria ir para a casa do pai. Em outro trecho reproduzido por veículos de imprensa, a criança teria dito que o pai “batia” nele.
A defesa da mãe, Sabrina Feitosa, afirma que Gustavo já teria retornado machucado de períodos anteriores de convivência com o pai. A Polícia Civil, entretanto, ainda não informou oficialmente qual peso atribui ao vídeo dentro do conjunto de provas.

Sabrina e seu filho Gustavo – Foto: Reprodução
Histórico de ameaças e medida protetiva
A relação entre os pais de Gustavo já havia sido marcada por conflitos.
Em 2023, Sabrina denunciou Igor por supostas ameaças durante uma discussão relacionada à convivência com o filho, que na época ainda era bebê. Segundo os relatos divulgados posteriormente, a mãe teria recusado que o pai levasse a criança para dormir em sua casa porque o bebê ainda era amamentado.
Após o episódio, Sabrina registrou boletim de ocorrência relatando ameaças e também informou que o portão de sua residência havia sido destruído durante a madrugada, atribuindo o episódio ao ex-companheiro.
A Justiça concedeu uma medida protetiva de urgência, determinando que Igor mantivesse distância mínima de 200 metros da ex-companheira e não mantivesse contato direto com ela. As comunicações relacionadas ao filho deveriam ocorrer por intermédio de terceiros.
Naquele período, Igor ocupava a presidência do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB Tocantins e acabou afastado da função. Um dos episódios citados nas reportagens envolve um áudio atribuído a ele no qual teria feito uma ameaça de morte contra Sabrina. Como se trata de acusação registrada em boletim e divulgada pela imprensa, a autoria e o contexto devem ser considerados dentro do devido processo legal.
Por que Gustavo continuava tendo contato com o pai?
A defesa da mãe afirma que a convivência entre Gustavo e o pai era determinada judicialmente.
Segundo a advogada Stella Bueno, havia um regime de visitas regulamentado pela Justiça. A mãe não poderia simplesmente impedir a convivência, pois isso poderia gerar consequências judiciais, inclusive alegações de alienação parental.
Esse aspecto passou a ser questionado publicamente após a morte da criança, especialmente diante do histórico de denúncias e do vídeo em que Gustavo demonstrava resistência em ir para a casa do pai.
Os pais também mantinham disputas judiciais relacionadas à família, incluindo questões envolvendo pensão alimentícia.
OAB suspende registro profissional do pai
Após a prisão e a repercussão do caso, a OAB Tocantins aplicou suspensão cautelar ao advogado Igor Gustavo Veloso de Sousa.
A entidade informou que a medida foi tomada pela Diretoria, pelo Conselho Seccional e pela presidência do Tribunal de Ética e Disciplina. A suspensão é cautelar e permanecerá até a instauração e análise do procedimento disciplinar, assegurando ao advogado o direito ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal.
A OAB também voltou a ser citada no caso porque Igor já havia sido afastado da presidência do Tribunal de Ética em 2023, após as denúncias feitas pela então companheira.
Gustavo era aluno de CMEI em Palmas
Gustavo era atendido desde 2025 pelo Centro Municipal de Educação Infantil Maria Custódia de Jesus, no Jardim Aureny II.
Em nota, a Secretaria Municipal da Educação de Palmas lamentou a morte e afirmou que a criança fazia parte da comunidade escolar e recebia diariamente os cuidados da equipe da unidade.
O sepultamento ocorreu na Igreja Presbiteriana Central de Palmas, na região da Arse 23 (208 Sul).
Mobilização por justiça
A morte provocou manifestações de familiares, amigos e moradores de Palmas.
Na quinta-feira, 6 de agosto, foi realizada uma mobilização denominada “Justiça por Gustavo”, com concentração prevista na região de Taquaralto e caminhada até o Fórum de Palmas. O ato buscou cobrar rigor na investigação e responsabilização dos envolvidos, além de ampliar o debate sobre mecanismos de proteção de crianças e adolescentes.
O que ainda precisa ser esclarecido
Apesar dos avanços, a investigação ainda não apresentou uma reconstrução definitiva de todos os momentos que antecederam a morte.
Entre os principais pontos que permanecem sob investigação estão:
- quem efetivamente praticou as agressões que provocaram a morte;
- qual foi a participação individual do pai e da madrasta;
- se houve omissão por parte da madrasta;
- qual foi a dinâmica das agressões;
- se houve violência sexual e qual a natureza das lesões identificadas;
- se houve tentativa deliberada de simular um afogamento;
- qual foi o horário exato da morte;
- e qual teria sido a motivação para as agressões.
A Polícia Civil informou que o casal deverá ser novamente interrogado, desta vez diante dos elementos reunidos durante a investigação. O inquérito segue sob sigilo.
Até o momento, Igor Gustavo Veloso de Sousa e Kathellen Moreira são investigados e estão presos preventivamente; não há condenação judicial contra nenhum dos dois. Ambos negam as acusações, e a investigação continua para determinar responsabilidades individuais.
Linha do tempo do caso Gustavo
2023 — denúncias e medida protetiva
Sabrina Feitosa denuncia o então companheiro, Igor Gustavo, por supostas ameaças relacionadas à convivência com o filho. A Justiça concede medida protetiva, com distância mínima de 200 metros e proibição de contato direto.
2025 — Gustavo passa a ser atendido por CMEI
O menino começa a frequentar o Centro Municipal de Educação Infantil Maria Custódia de Jesus, no Jardim Aureny II, em Palmas.
Fim de semana de 1º e 2 de agosto de 2026 — Gustavo fica na casa do pai
A criança passa o fim de semana com Igor, conforme o regime de convivência estabelecido judicialmente. Um vídeo feito nesse período posteriormente é divulgado e mostra Gustavo chorando e dizendo que não queria ir para a casa do pai.
Noite de domingo, 2 de agosto — momento apontado pela investigação como provável morte
A Polícia Civil trabalha com a hipótese de que as agressões tenham ocorrido ainda no domingo à noite. A versão apresentada inicialmente pelo pai, porém, relacionava a morte a um suposto afogamento na piscina.
Segunda-feira, 3 de agosto — criança é encontrada morta
Gustavo é encontrado sem vida na residência do pai, na região norte de Palmas. Igor procura a Polícia Civil posteriormente e relata inicialmente um possível afogamento.
3 e 4 de agosto — perícia muda o rumo da investigação
Os primeiros exames do IML não encontram sinais de afogamento e identificam laceração intestinal, hemorragias e múltiplas lesões.
5 de agosto — pedido de prisão e suspensão da OAB
A Polícia Civil pede a prisão preventiva de Igor e Kathellen. No mesmo período, a OAB-TO anuncia a suspensão cautelar do registro profissional do advogado.
6 de agosto — pai e madrasta são presos
Igor e Kathellen têm as prisões preventivas cumpridas e são encaminhados à Unidade Penal de Palmas. Eles passam a responder, na investigação, por suspeitas relacionadas a homicídio qualificado e tortura.
6 de agosto — manifestação em Palmas
Familiares, amigos e apoiadores participam da mobilização “Justiça por Gustavo”, cobrando esclarecimento do caso e maior proteção às crianças.
7 de agosto — polícia fala em tentativa de simular afogamento
O delegado Eduardo Menezes afirma que as evidências indicam que o pai teria tentado construir uma versão de afogamento após a morte da criança. A polícia também afirma que as lesões apontam para violência extrema e investiga a participação individual do pai e da madrasta.
Situação atual — 7 de agosto de 2026
Igor Gustavo Veloso de Sousa e Kathellen Moreira permanecem presos preventivamente. A investigação continua sob sigilo, com novas perícias e interrogatórios previstos. A Polícia Civil ainda trabalha para esclarecer toda a dinâmica da morte, a motivação e a responsabilidade individual dos investigados.
