A escalada de pressões do governo dos Estados Unidos contra a Venezuela, incluindo sanções ampliadas, bloqueio de navios petroleiros e a possibilidade de uma intervenção militar, tem motivações que ultrapassam o discurso oficial de combate ao narcotráfico e à corrupção. Segundo especialistas em relações internacionais e economia, a ofensiva do presidente Donald Trump envolve interesses estratégicos ligados ao petróleo, à influência da China na região e à retomada da liderança norte-americana na América Latina.
Nos últimos meses, Washington intensificou operações no Caribe e no Pacífico, com apreensão de embarcações e restrições severas às exportações venezuelanas. O governo norte-americano acusa o presidente Nicolás Maduro de chefiar um regime corrupto e de permitir o uso do território venezuelano por organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas.
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Caracas, por sua vez, classifica as ações como uma tentativa de golpe e uma violação da soberania nacional. Maduro afirma que os EUA usam o combate ao narcotráfico como pretexto para forçar sua saída do poder.
Países com as maiores reservas conhecidas de petróleo
Venezuela lidera, seguida por Arábia Saudita e Irã

Fonte: Boletim Estatístico Anual da OPEP 2025
O peso do petróleo venezuelano
No centro da disputa está o petróleo. A Venezuela detém a maior reserva comprovada do mundo, com cerca de 303 bilhões de barris, o equivalente a 17% das reservas globais, segundo a Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA). O volume supera países como Arábia Saudita e Irã.
Apesar do potencial, grande parte do petróleo venezuelano é do tipo extra-pesado, o que exige tecnologia avançada e altos investimentos — fatores limitados pelas sanções internacionais e pela precariedade da infraestrutura local.
Segundo a própria EIA, esse tipo de petróleo é especialmente adequado às refinarias dos Estados Unidos, sobretudo as localizadas na Costa do Golfo. Para o professor Marcos Sorrilha, da Unesp, o interesse de Trump está diretamente ligado à economia doméstica.
“O petróleo venezuelano poderia ajudar a reduzir o preço dos combustíveis nos Estados Unidos, o que tem impacto direto no custo de vida da população”, afirma.
Além disso, ao restringir a produção e as exportações da Venezuela, Washington atinge o principal pilar econômico do governo Maduro. Reportagens recentes indicam, inclusive, que o país enfrenta dificuldades para armazenar petróleo diante do bloqueio imposto por autoridades norte-americanas.
China no radar de Washington
Outro fator central é a relação cada vez mais estreita entre Venezuela e China. Antes das sanções impostas em 2019, os EUA eram o principal comprador do petróleo venezuelano. Com o endurecimento das restrições, Caracas passou a vender grande parte de sua produção por meio de acordos de petróleo em troca de empréstimos, principalmente com Pequim.
Segundo dados oficiais, a China recebeu 68% das exportações de petróleo venezuelano em 2023 e já concedeu quase US$ 50 bilhões em financiamentos ao país sul-americano ao longo da última década, tendo o petróleo como garantia.
Para a especialista Carolina Moehlecke, da Fundação Getulio Vargas (FGV), essa parceria incomoda diretamente Washington.
“A Venezuela mantém uma relação estratégica com a China em setores críticos, como petróleo e mineração. Isso entra em choque com os interesses dos EUA na região”, explica.
América Latina como prioridade estratégica
Economistas e analistas avaliam que a postura de Trump reflete uma tentativa de reforçar a influência norte-americana na América Latina diante do avanço chinês. Esse movimento ajuda a explicar, segundo especialistas, a recente reaproximação dos EUA com países como Brasil e Argentina, ambos relevantes no mercado global de energia.
Embora o Brasil não esteja entre os maiores detentores de reservas, figura entre os maiores produtores de petróleo do mundo. Já a Argentina ganhou protagonismo com as reservas de Vaca Muerta, consideradas estratégicas.
Espaço para empresas dos EUA
Outro objetivo da ofensiva, segundo especialistas, é abrir o mercado venezuelano para empresas norte-americanas. O tema aparece em discursos da oposição venezuelana, que defende maior abertura econômica e a entrada de companhias estrangeiras no país, inclusive nos setores industrial e energético.
Trump, em seu segundo mandato, tem priorizado políticas voltadas à expansão das exportações americanas e ao fortalecimento de empresas dos EUA em mercados internacionais considerados estratégicos.
Retomada da Doutrina Monroe
A pressão sobre a Venezuela também se encaixa na nova estratégia de política externa divulgada pela Casa Branca, que retoma princípios da Doutrina Monroe, formulada em 1823. O documento defende a América Latina como área prioritária para a segurança e a prosperidade dos Estados Unidos e busca limitar a atuação de potências rivais no hemisfério.
Para especialistas, a releitura da doutrina ocorre de forma mais assertiva e ofensiva, com foco explícito em conter a influência chinesa e assegurar o acesso dos EUA a recursos estratégicos da região.
“Trata-se de uma estratégia de consolidação da hegemonia continental, semelhante a políticas adotadas no início do século 20”, avalia Sorrilha.
