Líder opositora María Corina Machado fala à Folha de São Paulo sob clandestinidade e pede pressão internacional por transição na Venezuela

María Corina Machado participa de ato da oposição em Caracas, em janeiro de 2025, um dia antes da posse do ditador Nicolás Maduro para novo mandato; esta foi a última vez em que ela foi vista em público – Foto: Gaby Oraa/Reuters
Refugiada em local secreto e vivendo há mais de um ano em isolamento dentro da Venezuela, a recém-premiada com o Nobel da Paz, María Corina Machado, afirmou em entrevista exclusiva à Folha de S.Paulo que “o fim do regime de Nicolás Maduro está próximo” — e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a responsabilidade histórica de ajudar a acelerar essa transição.
“É hora de Lula dizer a Maduro que acabou. Vá, para o seu próprio bem”, declarou a opositora, que defendeu ainda a atuação militar dos EUA no Caribe e fez elogios diretos ao ex-presidente Donald Trump, a quem dedicou simbolicamente o Nobel. “É o líder que mais claramente entende a urgência de desmontar esse sistema criminoso”, disse.
Continua depois da Publicidade
Na clandestinidade e separada da família há dois anos
Mesmo com o reconhecimento internacional, a rotina da ativista de 58 anos pouco mudou. Desde que foi impedida de disputar a presidência nas eleições de 2024 — amplamente questionadas por denúncias de fraude — María Corina vive escondida em território venezuelano, isolada da família e sem contato físico com aliados. “Estou absolutamente sozinha há 14 meses”, afirmou.
Ela garante que permanece no país por decisão própria. “Se há um momento em que quero e devo estar na Venezuela, é agora”, diz. A última vez que foi vista publicamente foi em janeiro de 2025, durante protestos contra a nova posse de Maduro.
Críticas ao Brasil e apelo à América Latina
Ao abordar o papel do Brasil, María Corina foi direta: disse que Lula precisa usar os canais diplomáticos que ainda mantém com Caracas para convencer Maduro a aceitar uma transição negociada. “O Brasil não pode se manter neutro diante de uma tirania que já ultrapassou todos os limites”, criticou.
Segundo ela, a América Latina precisa deixar de ignorar a “invasão” silenciosa do país por forças estrangeiras e organizações criminosas. “Temos presença de cubanos, iranianos, russos, Hezbollah, Hamas, cartéis de drogas e guerrilhas colombianas. É uma ditadura com estrutura de narcoterrorismo”, afirma.
Trump, CIA e operações militares
Questionada sobre a atuação da CIA e a ofensiva dos EUA no mar do Caribe — que já resultou na morte de 27 supostos narcotraficantes —, a Nobel não se mostrou contrária. Ao contrário: disse que essas ações “cortam as fontes de financiamento do regime”.
“A guerra foi iniciada por Maduro. Ele se recusou a negociar após a eleição e iniciou uma onda brutal de repressão”, justificou. Ela nega, no entanto, ter participação nas decisões operacionais dos EUA.
Diáspora e futuro da Venezuela

Migrantes aguardam fila para entrar no posto de triagem perto do abrigo BV-8 em Pacaraima, cidade brasileira que faz fronteira com a Venezuela – Foto: Shanti Sai Moreno Brooks/Folhapres
Sobre a crise migratória, especialmente em relação aos venezuelanos no Brasil e nos EUA, María Corina reconheceu a gravidade do problema, mas acredita que a solução virá com a queda do regime. “O retorno vai acontecer. Estamos trabalhando para garantir segurança e proteção aos que voltarem”, disse.
Ela também afirmou que, num cenário democrático, buscará retomar a integração sul-americana e estreitar laços com o Brasil em temas como energia, meio ambiente e direitos humanos. “Uma Venezuela livre será um ganho enorme para o Brasil”, concluiu.
Quem é María Corina Machado

2025 – Líder opositora da Venezuela, María Corina Machado foi a última a receber a láurea – Foto: Federico Parra – 28.jul.24/AFP
Engenheira de formação e ex-deputada, María Corina Machado é uma das principais vozes da oposição venezuelana nas últimas duas décadas. Impedida judicialmente de disputar cargos públicos, ela se tornou símbolo da resistência ao chavismo. Em 2025, foi a primeira venezuelana a receber o Prêmio Nobel da Paz.
Ao contrário do que espera Corina, Lula critica ações dos EUA contra Venezuela em congresso do PCdoB
Durante a abertura do 16º Congresso do PCdoB, realizada nesta quinta-feira (16) no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez sua primeira declaração direta sobre a escalada de tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela. Em seu discurso, Lula criticou as ameaças recentes do governo norte-americano e defendeu a soberania venezuelana.
“O Brasil nunca será a Venezuela, e a Venezuela nunca será o Brasil. Cada país deve ser dono de seu próprio destino. Nenhum presidente de outro país tem que dar palpite sobre como será a Venezuela ou Cuba”, afirmou Lula, sem citar diretamente o presidente norte-americano.
A fala ocorre um dia após o ex-presidente Donald Trump autorizar a CIA a conduzir operações na Venezuela. No mesmo dia, os chanceleres do Brasil e dos EUA se reuniram para discutir as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.

Lula rompe o silêncio e critica ameaça norte-americana à Venezuela – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Governo brasileiro condena intervenção
Mais cedo, o assessor especial para Assuntos Internacionais do governo, Celso Amorim, também se manifestou contra possíveis ações militares. Em entrevista ao portal UOL, classificou como “inconcebível” qualquer operação secreta para derrubar o governo venezuelano.
“O Brasil é contra o uso da força e de operações secretas. Seguimos fielmente a política de não intervenção. Trata-se de um princípio básico do direito internacional”, afirmou o ex-chanceler.
O Partido dos Trabalhadores (PT) também divulgou nota oficial repudiando a postura de Washington, classificando-a como uma “afronta à soberania da Venezuela” e uma violação do Direito Internacional.
Pressão dos EUA vem crescendo
Desde o início do ano, os Estados Unidos têm aumentado a pressão sobre o governo de Nicolás Maduro. Em janeiro, a Casa Branca ofereceu uma recompensa de US$ 25 milhões por informações que levassem à prisão do presidente venezuelano — valor que foi dobrado em julho.
Em agosto, os EUA enviaram caças, tropas, navios de guerra e um submarino nuclear para a costa venezuelana, elevando ainda mais a tensão na região.
Durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em setembro, Lula já havia feito menção indireta ao tema, afirmando que “outras partes do planeta já testemunharam intervenções que causaram danos maiores do que se pretendia evitar”, e reiterou que “a via do diálogo não deve estar fechada na Venezuela”.
Relação Brasil-Venezuela vive momentos de instabilidade
Apesar da defesa da soberania venezuelana, as relações entre os dois países têm sido marcadas por momentos de tensão. O governo brasileiro não reconheceu o resultado das eleições presidenciais venezuelanas de julho de 2024, vencidas por Maduro, sob alegações de irregularidades.
Na ocasião, Lula declarou que a situação política no país vizinho estava “deteriorada” e que o Conselho Nacional Eleitoral precisava se manifestar sobre as atas da votação.
Outro ponto de atrito ocorreu em outubro de 2024, quando o Brasil vetou a entrada da Venezuela nos BRICS durante a cúpula realizada em Kazan, na Rússia. A decisão foi tomada por orientação direta de Lula, sinalizando uma mudança de postura em relação ao país caribenho.
Em julho deste ano, Caracas novamente ficou de fora da reunião do bloco, realizada no Rio de Janeiro, sob presidência brasileira.
