Brasil

Amazônia

Brasil intercepta apenas 3% da cocaína que entra pela Rota do Solimões

Fronteiras desguarnecidas e domínio do Comando Vermelho facilitam tráfico de drogas que movimenta até 300 toneladas por ano na Amazônia. Governo Federal, Congresso e Forças Armadas são apontados como culpados por especialistas e autoridades. “Não é o Amazonas que precisa, é o Brasil. A fronteira está largada. O fardo é pesado demais para carregar sozinho”, palavras do secretário de Segurança Pública do Amazonas, Marcus Vinícius Oliveira de Almeida.


Apesar dos esforços das autoridades, o Brasil apreende somente de 2% a 3% da cocaína que entra no país pela chamada Rota do Solimões, principal corredor fluvial do narcotráfico na região amazônica. Estimativas apontam que até 300 toneladas da droga sejam escoadas anualmente por esse caminho, que liga a tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia ao restante do território nacional.

Fronteira entre Brasil e Colômbia – Foto: Wiliam Cardoso/Metrópoles

A droga produzida em larga escala no Peru e na Colômbia, muitas vezes com variedades adaptadas ao clima úmido da floresta, chega ao Brasil por meio de pequenas embarcações que circulam livremente por rios como o Solimões e o Javari. A falta de fiscalização efetiva transforma esses rios em verdadeiras rodovias do tráfico.

Continua depois da Publicidade

A situação é ainda mais crítica pela ausência de postos de controle entre cidades fronteiriças como Tabatinga (AM), no Brasil, e Letícia, na Colômbia. Na prática, a fronteira é apenas simbólica: é possível atravessar de um país ao outro sem qualquer fiscalização — inclusive por canoas.

Segundo o pesquisador Cesar Mello, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, “a produção de cocaína na região ultrapassa milhares de toneladas por ano, enquanto as apreensões no Brasil não passam de 43 toneladas”.

Tráfico financiado e protegido

A logística do narcotráfico passou por mudanças. Agora, os traficantes pagam antecipadamente pela droga e contratam escoltas armadas para garantir o transporte seguro até Manaus, Belém e Macapá. Essas “escoltas” atuam como verdadeiros pedágios fluviais, cobrando pelo direito de passagem em determinados trechos do rio.

Pichação do Comando Vermelho em Manaus, Amazonas – Foto: Wiliam Cardoso/Metrópoles

Para reduzir custos e dividir riscos, diferentes grupos criminosos passaram a usar o sistema de consórcios de drogas, compartilhando embarcações, mas mantendo as cargas identificadas por símbolos.

Além da cocaína, as rotas fluviais também são usadas para contrabando de ouro, madeira ilegal e pesca predatória. Estima-se que 80% dos homicídios em Manaus estejam ligados ao narcotráfico.

Patrulhamento precário

O patrulhamento da vasta região — que abrange mais de 96 mil km², equivalente a todo o território de Portugal — é feito por apenas 156 policiais militares em Tabatinga e cerca de 1.000 militares das Forças Armadas, estes últimos sem função de combate direto ao crime.

Policial colombiano no Porto em Leticia na Colômbia, com vista para ilha de Santa Rosa no Peru – Foto: Wiliam Cardoso/Metrópoles

Policiais militares e seus cães farejadores em Tabatinga (Am) – Foto: Wiliam Cardoso/Metrópoles

Durante o período de cheia dos rios, o escoamento fluvial domina. Já na seca, os traficantes utilizam aviões e helicópteros que voam abaixo dos radares, aproveitando as mais de 200 pistas clandestinas espalhadas pelo Amazonas.

Facções em guerra e domínio do CV

A hegemonia do Comando Vermelho (CV) se consolidou após o grupo eliminar rivais como a Família do Norte (FDN) e barrar a ascensão do PCC, que ainda atua em quatro municípios, principalmente em Coari.

O CV também conta com o apoio de grupos armados conhecidos como “piratas”, muitos deles formados por ex-policiais, que atacam embarcações e revenderm as drogas roubadas.

Pichações em área de atuação do Comando vermelho na Colômbia – Foto: Wiliam Cardoso/Metrópoles

Na cidade colombiana de Letícia, pichações e sinais com os dedos em “V” (indicando “tudo 2”) denunciam a presença e o domínio do Comando Vermelho, inclusive fora do território brasileiro.

O pedido de socorro

Durante o Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o secretário de Segurança do Amazonas, Marcus Vinícius Almeida, apelou por mais apoio federal. “Não é o Amazonas que precisa, é o Brasil. A fronteira está largada. O fardo é pesado demais para carregar sozinho”, afirmou.

Almeida destacou que, apesar dos investimentos locais, como as bases fluviais “Arpão”, lanchas blindadas e o isolamento de líderes de facções no sistema prisional, o estado arca com R$ 7 milhões por mês, enquanto o governo federal colabora com apenas R$ 1,3 milhão.

Iniciativas e limitações

Em 2023, o governo federal lançou o Programa Amas (Amazônia, Segurança e Soberania), com previsão de investir R$ 2 bilhões na região. Uma das medidas foi a criação do Centro de Cooperação Internacional da Polícia Federal (CCPI), em Manaus, que ainda está em fase de estruturação.

Enquanto isso, o narcotráfico segue avançando, aproveitando-se da fragilidade da presença do Estado e da facilidade de movimentação em uma das regiões mais porosas do mundo. E a droga que sai pelos rios da Amazônia não afeta apenas o Brasil — ela alimenta mercados da Europa e dos Estados Unidos, com consequências globais.

Fronteira entre Tabatinga (BRA) e Leticia (COL) – Foto: Wiliam Cardoso/Metrópoles

Quem são os responsáveis?

Com base nos depoimentos de especialistas e autoridades ouvidas pela reportagem, o cenário de descontrole pode ser atribuído diretamente a três instâncias de responsabilidade:

1. Governo Federal – Inércia e subfinanciamento

Segundo o secretário de Segurança Pública do Amazonas, Marcus Vinícius Oliveira de Almeida, o governo federal não tem assumido sua responsabilidade constitucional de proteger a soberania nacional na Amazônia.

“Não é o Amazonas que precisa, é o Brasil. A gente se sente como se o país estivesse de costas para nós”, afirmou Almeida, natural de Atalaia do Norte (AM), cidade que foi palco do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips em 2022.

Apesar de o Ministério da Justiça ter lançado o Programa Amas (Amazônia, Segurança e Soberania) em 2023, com promessa de R$ 2 bilhões em investimentos, o impacto ainda é mínimo. O estado do Amazonas arca com R$ 7 milhões por mês em operações de segurança, enquanto o governo federal repassa apenas R$ 1,3 milhão em diárias operacionais.

2. Forças Armadas – Presença simbólica e atuação limitada

Com cerca de 1.000 militares na região da tríplice fronteira, as Forças Armadas têm exercido papel mais decorativo do que efetivo. De acordo com agentes ouvidos sob anonimato, os militares só agem “se cair no colo”.

O major Diego Magalhães, subsecretário de Operações da Polícia Militar do Amazonas, afirma que o Exército não realiza patrulhamento ativo nos rios, apesar da extensão crítica das fronteiras:

“São 1.430 km com o Peru e 1.644 km com a Colômbia. [Nos EUA], com 3.145 km de fronteira seca com o México, há muro e patrulhamento constante — e ainda assim a droga entra. Aqui, sequer temos presença constante.”

3. Congresso Nacional – Omissão legislativa

Projetos de lei voltados ao reforço da atuação federal na Amazônia e ao uso das Forças Armadas no combate ao crime transnacional têm sido negligenciados no Congresso Nacional. Parlamentares da bancada da Amazônia apontam falta de vontade política para aprovar medidas que tratem a segurança na região como questão de Estado.

Enquanto isso, o narcotráfico ganha terreno, inclusive com pistas clandestinas de pouso (mais de 200 detectadas pela inteligência da PM) e rotas que ligam a floresta diretamente à Europa.

O domínio das facções e a expansão do tráfico

O Comando Vermelho (CV) domina hoje a Rota do Solimões, cobrando “pedágios” para cargas de cocaína que saem da fronteira até Manaus, Belém e Macapá. O Primeiro Comando da Capital (PCC), por sua vez, ampliou sua atuação no transporte aéreo, com aviões e helicópteros voando abaixo dos radares.

Infográfico — Foto: Editoria de Arte

O pesquisador Cesar Mello confirma que grupos criminosos estão organizados em consórcios, dividindo embarcações e rotas para diluir riscos e reduzir custos. O transporte fluvial predomina no período das cheias; na seca, entram em ação as pistas clandestinas.

Em Letícia (Colômbia) e cidades como Benjamin Constant e Tabatinga, pichações do CV estão por toda parte. Segundo o major Magalhães, é comum ver casas com a frente em um país e o quintal em outro, favorecendo a movimentação de criminosos sem qualquer controle aduaneiro ou policial.

“Se o bandido entra por uma casa e pula o muro, já está em outro país”, resume o major.

Impactos locais e pedidos de ajuda

O secretário Marcus Almeida afirma que 80% dos homicídios em Manaus têm relação com o tráfico. Apesar do aumento nas apreensões — de 9 toneladas (2018) para 43 toneladas (2024) — e da redução da taxa de homicídios para 17 por 100 mil habitantes, o estado não consegue agir sozinho.

As bases fluviais “Arpão” e as lanchas blindadas ajudam a conter parte do escoamento da droga, mas o secretário reforça que a solução passa por integração federal e internacional, além da mudança no papel das Forças Armadas.

“A gente precisa que o Brasil olhe para nós como brasileiros. O fardo é muito pesado para carregarmos sozinhos”, conclui Almeida.

Impactos nacionais

Além de abastecer o tráfico interno e o mercado internacional, a presença maciça das facções transforma o Amazonas num dos estados mais violentos do Brasil. Cerca de 80% dos homicídios em Manaus estão relacionados diretamente ao tráfico.

Mesmo com investimentos estaduais, como bases fluviais blindadas e lanchas de combate, o esforço isolado do governo do Amazonas não é suficiente diante da dimensão continental da crise, da falta de integração nacional e da ausência de políticas federais robustas e contínuas.

Com informações do Metrópoles