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Incertezas com os EUA levam Japão a repensar sua política nuclear

Mudanças nas atitudes japonesas sobre armas nucleares refletem um crescente distanciamento da postura pacifista do pós-Segunda Guerra Mundial, influenciado pela imprevisibilidade de Trump e pela crescente tensão no Pacífico.


Estudantes em visita ao Domo da Bomba Atômica no Parque Memorial da Paz de Hiroshima – Foto: Kim Kyung-Hoon/Reuters

No final de abril, estudantes visitaram o Domo da Bomba Atômica no Parque Memorial da Paz de Hiroshima, onde as lembranças da tragédia de 1945 continuam a ser um marco na memória coletiva do Japão. Porém, enquanto o país relembra os horrores da guerra, novas discussões estão surgindo sobre sua postura em relação às armas nucleares. As atitudes no Japão, tradicionalmente pacifistas desde o fim da Segunda Guerra Mundial, estão mudando, em parte devido à imprevisibilidade da política externa dos Estados Unidos, especialmente durante o governo de Donald Trump.

A crescente inquietação com a confiabilidade das garantias de segurança oferecidas pelos EUA está se espalhando por todo o Japão e pela Coreia do Sul, ambos aliados tradicionais de Washington. O governo Trump, com sua postura muitas vezes agressiva em relação a aliados históricos e sua retórica inconstante, despertou no Japão a reflexão sobre a necessidade de reavaliar sua dependência da proteção nuclear americana.

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A governista Rui Matsukawa acredita que o Japão precisa se preparar para a possibilidade de compartilhamento nuclear, o que permitiria que um Estado sem armas nucleares como o seu participasse do planejamento, treinamento e uso de armas nucleares – Foto: Kim Kyung-Hoon/Reuters

Em março, durante uma conferência de alto nível na Abadia de Fordham, nos arredores de Londres, a legisladora japonesa Rui Matsukawa, ex-vice-ministra da Defesa, começou a questionar a firmeza do compromisso dos EUA com a defesa do Japão. Ela percebeu que, assim como a Europa, o Japão não pode mais considerar a presença militar americana como algo garantido. “Trump é imprevisível, e talvez o Japão precise considerar um ‘Plano B’, que envolva a possibilidade de se tornar nuclear”, afirmou Matsukawa em entrevista.

A ideia de uma revisão da política pacifista do Japão, formulada há mais de cinco décadas, está ganhando força entre alguns legisladores de Tóquio. Embora o país tenha renunciado formalmente a armas nucleares com os “Três Princípios Não Nucleares”, que proíbem a produção, posse e hospedagem de armas nucleares, a crescente tensão na região e a modernização dos arsenais nucleares de vizinhos como China e Coreia do Norte têm alimentado debates sobre a revisão dessa postura.

O Japão, que abriga o maior número de tropas americanas fora dos EUA, tem se apoiado na dissuasão nuclear dos EUA como uma garantia de segurança contra ameaças externas. No entanto, a retórica de Trump, incluindo críticas à OTAN e ao relacionamento com aliados como Japão e Coreia do Sul, tem minado a confiança de muitos desses países nas promessas de defesa americana.

Além disso, as atitudes na Coreia do Sul também estão mudando, com uma pesquisa recente mostrando que até 75% da população sul-coreana é a favor do desenvolvimento de armas nucleares próprias. Embora o Japão tenha uma postura mais conservadora em relação ao tema, algumas vozes, como a de Matsukawa, argumentam que o país pode precisar considerar opções de “compartilhamento nuclear”, um conceito pelo qual países não nucleares participam no planejamento, treinamento e possível uso de armas nucleares com seus aliados.

A inquietação no Japão sobre a confiabilidade da segurança dos EUA não começou com Trump. A crise no Mar da China Meridional, quando o governo Obama foi acusado de não responder adequadamente às ações de Pequim, já havia gerado dúvidas sobre a disposição de Washington em enfrentar a crescente influência da China na região. Mais recentemente, a guerra na Ucrânia e a hesitação dos EUA em se envolver diretamente na defesa da Ucrânia contra a Rússia alimentaram ainda mais as preocupações sobre a confiabilidade das promessas de segurança dos EUA.

A disseminação de dúvidas por Trump sobre o compromisso de Washington com a OTAN e a imposição de tarifas a aliados americanos tradicionais assustaram parlamentares no Japão e na Coreia do Sul, e agora questionam sobre a confiabilidade das garantias de segurança dos EUA – Foto: Jonathan Ernst/Reuters

Enquanto a política americana sob Trump e Biden continua a ser um ponto de discussão no Japão e na Coreia do Sul, o Japão está gradualmente se distanciando de sua postura pacifista e reconsiderando seu futuro no contexto da segurança global. “A realidade é que a ameaça nuclear de países vizinhos e a incerteza quanto ao compromisso dos EUA tornam difícil para o Japão manter sua posição tradicional”, afirma Matsukawa, que se une a outros legisladores no questionamento do futuro dos Três Princípios Não Nucleares.

Embora o governo japonês continue a afirmar que o país não alterará sua política, as recentes discussões e o aumento das incertezas sobre a segurança global indicam que, no futuro, o Japão poderá ser forçado a repensar sua postura sobre armas nucleares, o que representa uma mudança drástica para uma nação que se definiu, por tanto tempo, como um bastião do pacifismo no cenário global.

Alguns legisladores em Tóquio afirmam que o Japão deveria revisar seus princípios não nucleares para permitir a entrada de armas nucleares dos EUA em território japonês – como a visita do USS Kentucky à base naval da Coreia do Sul em Busan, em julho de 2023. O ex-presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol discursa durante uma visita à base, ao lado do submarino de mísseis balísticos, projetado para transportar armas nucleares – Foto: Michael Chen/Divulgação via REUTERS

Fonte: REUTERS