
A supermodelo posou para inúmeras revistas e desfilou nas passarelas mais prestigiadas do mundo. Mas sua vida diante das câmeras começou longe do mundo glamoroso da moda – Foto: Getty Images
O rosto de Paulina Porizkova causou fascínio tanto quando ela era uma menina de quatro anos, quanto mais tarde na vida dela.
Na década de 1980, ela foi uma das supermodelos mais bem pagas do mundo.
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Adorada pelas câmeras, foi capa de revistas como a Vogue, o rosto de marcas globais e protagonista de um dos contratos publicitários mais lucrativos dos anos 1980.
Tudo isso enquanto desfilava nas passarelas dos epicentros do mundo da moda. No entanto, sua vida não é um conto de fadas.
Por trás de sua imagem impecável, esconde-se uma história de abandono, exclusão, abuso e, por fim, redenção.
Aqui, dividimos a história de Paulina Porizkova (em fases) para que pudesse ser melhor compreendida.
Fase 1: A infância sequestrada pela guerra

A invasão da Tchecoslováquia pelo Pacto de Varsóvia, também conhecida como Operação Danúbio. Uma guerra não declarada envolvendo tropas de cinco países socialistas na noite de 20 para 21 de agosto de 1968 – Foto: Getty Images
Paulina Porizkova nasceu em 1965, na então Tchecoslováquia, em plena Guerra Fria. Aos 3 anos, seus pais fugiram da invasão soviética e a deixaram para trás com os avós. Enquanto ela era exposta na mídia como símbolo do sofrimento infantil sob o comunismo, a pequena Paulina só queria brincar.
Sem entender, se tornava o rosto de uma campanha anticomunista na Europa. “Eu posava com um ursinho e um olhar triste sem saber por quê”, relembra. Aos 8 anos, foi finalmente resgatada e levada à Suécia — deixando para trás a avó que mais amava, sua única figura de afeto verdadeiro.
Fase 2: Da exclusão ao bullying — e a primeira tentativa de reinvenção
Na Suécia, o recomeço não foi doce. Conhecida nos jornais como “a menina comunista”, sofreu bullying violento na escola: era empurrada, agredida e ridicularizada. Tentou mudar sua aparência para se encaixar. Trabalhou para comprar roupas da moda, maquiagens, e esconder sua origem.
Nada adiantou. “Percebi que não existia a menos que estivesse sendo maltratada”, contou. O fundo do poço veio quando colegas a agrediram e afundaram sua cabeça no vaso sanitário: “A parte mais dolorosa foi perceber que não havia nada que eu pudesse fazer para ser aceita.”
Fase 3: A fotografia que mudou tudo — e a entrada precoce no mundo da moda
Aos 14 anos, a virada. Uma amiga que sonhava ser maquiadora tirou algumas fotos de Paulina e as enviou a uma agência. Em vez de focar na maquiagem, a resposta foi direta: “Quem é essa garota?”
Pouco tempo depois, Paulina foi convidada para ser modelo em Paris. De uma adolescência invisível, foi lançada ao topo do mundo da moda — ainda sem saber o preço que pagaria por isso.

O que as fotos não mostravam era o assédio sexual e a violência normalizados na indústria da moda – Foto: Getty Images
Fase 4: Fama, assédio e silenciamento — a dor por trás da beleza
Em pouco tempo, Paulina era uma supermodelo internacional. Desfilava para as grifes mais prestigiadas, estampava capas de revistas como a Vogue, e assinava contratos milionários — incluindo um de US$ 6 milhões com a Estée Lauder.

Paulina com Estée Lauder, fundadora, com seu marido Joseph Lauder, da Estée Lauder Companies, da qual a modelo foi o rosto de 1988 a 1995 – Foto: Getty Images
Mas bastidores escondiam uma realidade de violência sexual e misoginia. “Eu tinha 15 anos quando um fotógrafo encostou o pênis em meu ombro como piada. Achei que fazia parte do trabalho.” Ela só reconheceu aquilo como abuso décadas depois, aos 46 anos.
Fase 5: O amor idealizado, o casamento sufocante
Nos anos 80, conheceu o vocalista da banda The Cars, Ric Ocasek. Apaixonaram-se, casaram-se, tiveram dois filhos. Mas ele era 22 anos mais velho e controlava tudo: sua aparência, amigos e decisões profissionais. “Na época, eu via isso como amor. Só depois entendi que era dominação.”

Paulina se apaixonou perdidamente pelo vocalista da banda The Cars, Ric Ocasek – Foto: Ron Galella Collection via Getty
Após quase 30 anos juntos, a relação desmoronou. Mesmo separados, viveram sob o mesmo teto até 2019 — quando Ric morreu, deixando Paulina de fora do testamento. “Foi um segundo abandono, tão brutal quanto o primeiro.”
Fase 6: A reconstrução — e a revolução contra o etarismo
Sozinha, magoada e em luto, Paulina buscou resgatar sua identidade. Tentou voltar à carreira de modelo — e encontrou outra forma de rejeição: a idade.

À medida que as mulheres se aproximam da meia-idade, começamos a nos tornar invisíveis (…). Mas é aí que realmente começamos a viver a vida por nós mesmas’, Paulina ao New York Times Well Festival de 2025 – Foto: Getty Images
“Uma agente disse que não era como se eu pudesse reviver a carreira. Mulheres mais velhas não são consideradas atraentes.” Em vez de se calar, ela reagiu: passou a expor sua história, suas dores e rugas nas redes sociais, sem filtros.
Publicou o livro Unfiltered, denunciando o machismo do casamento e o etarismo da sociedade. Fotos de biquíni aos 60 anos viralizaram. A mesma Estée Lauder que a contratou na juventude voltou a chamá-la — agora como símbolo da mulher que inspira, não só como rosto bonito.
Hoje, Paulina Porizkova é mais do que uma supermodelo: é um espelho da resiliência feminina.
Sua história é um lembrete de que sofrimento não desaparece com fama ou beleza — mas que é possível reconstruir-se, mesmo depois de tantas perdas. Ela não voltou a ser quem era. Ela se tornou alguém melhor: uma mulher inteira, com rugas, cicatrizes e voz.
“O que não te mata, não necessariamente te fortalece. Mas te faz descobrir sua força.”
