Cultura

Amazônia

“Queremos Starlink”: A transformação dos Korubo após o contato com o mundo exterior

Povo indígena antes isolado no Vale do Javari adota internet, celulares e panelas de metal enquanto enfrenta dilemas culturais, desafios de saúde e impactos da modernidade.


Por décadas, os Korubo viveram isolados nas profundezas da floresta amazônica, no Vale do Javari (AM), desconhecendo cidades, eletricidade ou tecnologia. Hoje, eles pedem acesso à Starlink, cozinham com panelas de alumínio, usam celulares e frequentam centros urbanos em busca de atendimento médico. A transição do isolamento à integração levanta questões urgentes sobre identidade, saúde, autonomia e futuro.

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O indígena Korubo, Xuxu, quer uma panela de metal grande o suficiente para caber um macaco inteiro. Até pouco tempo atrás, seu povo, os Korubo, cozinhava refeições em caldeirões de cerâmica feitos na floresta. Mas as panelas leves de metal trazidas pelos “brancos” provaram ser irresistíveis.

Xuxu, à direita, e seu irmão Txitxopi em visita a Tabatinga – Foto: Damë Matis

Desde os primeiros contatos oficiais com a Fundação Nacional do Índio (Funai) — em 1996, 2014 e 2015 — os cerca de 127 Korubo que vivem em quatro aldeias enfrentam profundas transformações. A chegada de produtos manufaturados, serviços de saúde, internet e energia solar mudou hábitos e criou novas relações sociais dentro das comunidades.

Entre os novos desejos está o acesso constante à internet. “Queremos a Starlink”, diz Txitxopi, irmão de Xuxu, um dos líderes locais. “Quando alguém vai para o hospital, queremos saber se está bem. Antes não sabíamos. Agora temos celular.”

Takvan, Xuxu e Txitxopi fazendo compras em Tabatinga – Foto: John Reid

A presença crescente da tecnologia tem impactos visíveis no cotidiano das aldeias. Jovens se afastam das tarefas tradicionais de caça e cultivo, preferindo as telas às atividades de subsistência. “Eles são naturalmente fascinados por tudo o que vem de fora”, afirma Luisa Suriani, professora de português nas aldeias. “O plano de limitar o acesso à internet não funcionou.”

Mas o avanço também trouxe riscos. A cidade, antes evitada, agora é visitada com frequência até por motivos médicos simples — o que tem levado a surtos de doenças como gripe, pneumonia e diarreia. “Eles não são biologicamente frágeis”, diz o médico Lucas Albertoni, responsável pelo atendimento aos povos recém-contatados. “O problema é a falta de memória imunológica.”

Menino indígena Korubo na floresta amazônica em 2018 – foto: Paulo Mumia/Funai

Ao mesmo tempo, a introdução de dinheiro — via empregos da Funai e transferências do governo — permitiu aos Korubo adquirir desde barcos até alimentos industrializados. Ainda que resistam à ideia de viver permanentemente na cidade, a dependência de recursos externos aumenta.

Para o etnólogo Sydney Possuelo, que liderou o primeiro contato em 1996, os dilemas vividos hoje pelos Korubo são reflexo do trauma histórico causado por invasões, violências e deslocamentos. “O sofrimento pós-contato é muito grande. Eles acabam dependendo dos mesmos que antes os caçavam e matavam”, diz ele. “O mínimo que podemos fazer é manter distância respeitosa e preservar os que ainda estão isolados.”

Apesar de todos os desafios, os Korubo seguem sendo um povo forte e vibrante, como destaca Suriani: “Eles têm uma forma única de viver, de rir, de lidar com a dor. São um povo extraordinário em sua essência.”

O etnólogo Sydney Possuelo, agora com 84 anos, e seu filho Orlando com Estevão, chefe dos Marubos, em janeiro de 2025 – Foto: Alvaro Canovas/Paris Match/Getty Images

Xuxu vive em uma das quatro aldeias Korubo perto da confluência dos rios Ituí e Itaquaí, na Terra Indígena Vale do Javari, onde os 127 Korubos foram contatados no total, em quatro aldeias, em 1996, 2014 e 2015. Uma década depois, as consequências trouxeram doenças, novos materiais, maior segurança contra ameaças externas e uma janela para o mundo mais amplo.

Os Korubo são responsáveis por todos os eventos recentes de primeiro contato no Brasil, exceto um, mostrando o que pode aguardar mais de 60 grupos isolados da Amazônia caso eles emerjam. Suas terras foram inicialmente ocupadas por seringueiros no final do século XIX, seguidos por madeireiros no século XX.

Os Korubo resistiram com porretes de madeira de palmeira, uma característica única entre os povos amazônicos, já que não utilizam arcos e flechas.

“Eles eram como um escudo para o território”, diz Fabrício Amorim, ex-coordenador da Fundação Nacional do Índio (Funai) no Vale do Javari. “Eles enfrentavam grupos de madeireiros que tinham 10, 15, 20 caixas de munição e muitas armas, e os Korubo só carregavam esses pedaços de madeira.”

Foto: Paulo Mumia/Funai

Entre 1965 e 1997, os Korubo mataram 25 invasores não indígenas em seu território. Seus adversários iniciaram diversas caçadas, rastreando, atirando e envenenando Korubos. “Estávamos na nossa maloca [casa comprida], e os brancos chegaram e mataram muitos dos meus familiares, os mais velhos”, diz Xuxu. “Por isso nos vingamos, matando pescadores.”

O futuro dos Korubo, assim como de dezenas de outros grupos ainda isolados na Amazônia, permanece em aberto — dividido entre a floresta e a modernidade.

Fonte: The Guardian