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Antissemitismo: a origem de um termo impreciso que moldou séculos de perseguição

Criada no século XIX com pretensão “científica”, a palavra esconde uma construção ideológica que ajudou a redefinir e perpetuar o ódio contra judeus até os dias atuais.


Manifestação contra o antissemitismo. Manchester, Grã-Bretanha, janeiro de 2024 – Foto: Wikimedia Commons.

 

“Antissemitismo” – A palavra sugere uma coisa. A história revela outra.

“Antissemitismo” parece, à primeira vista, um termo abrangente — uma oposição a todos os povos chamados “semitas”, incluindo judeus e árabes. A etimologia reforça essa leitura: o conceito de “semita” deriva de Sem, tradicionalmente associado a diversos povos do Oriente Médio. Mas essa lógica, embora correta no papel, não resiste à investigação histórica.

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Documentos, discursos políticos e publicações da Europa do século XIX mostram que o termo nasceu com um alvo definido — e nunca pretendeu ser neutro.

O responsável por popularizar a expressão foi Wilhelm Marr, na Alemanha. Em seus escritos, Marr não propunha uma crítica linguística ou antropológica. Ele defendia a ideia de que judeus representavam uma ameaça estrutural à sociedade alemã. Ao cunhar “antissemitismo”, buscava substituir o antigo preconceito religioso por uma narrativa que soasse moderna, alinhada ao discurso científico emergente da época.

A escolha do termo não foi acidental. Ao evitar palavras diretamente ligadas à religião, como “judaísmo”, Marr e seus contemporâneos ampliaram o escopo do preconceito. A partir daí, não importava se um indivíduo praticava ou não a fé judaica — bastava sua origem para ser considerado parte de um grupo indesejado.

Essa mudança teve consequências profundas. Ao longo do final do século XIX e início do século XX, o antissemitismo passou a circular em jornais, partidos políticos e teorias conspiratórias com uma roupagem intelectualizada. A linguagem ajudava a legitimar o preconceito, tornando-o mais aceitável em determinados círculos sociais.

A distinção entre “antijudaísmo” e “antissemitismo” torna-se central nesse ponto. O primeiro, presente sobretudo na Idade Média, estava ligado a conflitos religiosos — conversão forçada, acusações teológicas, segregação. Já o segundo, consolidado na modernidade, desloca o foco para uma suposta identidade racial imutável.

Essa transformação foi determinante para os eventos do século XX. Regimes autoritários incorporaram o antissemitismo como política de Estado, utilizando-o para justificar exclusão, perseguição e violência sistemática. O caso mais extremo foi o Holocausto, em que milhões de judeus foram assassinados não por suas crenças, mas por uma classificação racial construída ideologicamente.

A investigação histórica mostra que o termo “antissemitismo”, apesar de impreciso, não é um erro inocente da linguagem. Ele é parte de um projeto. Um projeto que redefiniu antigas formas de preconceito e lhes deu novos instrumentos de disseminação.

Hoje, especialistas apontam que a palavra permanece em uso justamente por carregar esse peso histórico. Substituí-la por “antijudaísmo” poderia apagar a dimensão racial e política que marcou os episódios mais violentos da história contemporânea.

Ainda assim, o debate persiste — especialmente em contextos acadêmicos e políticos — sobre a precisão e os limites do termo. A discussão, no entanto, não é apenas semântica. Ela envolve memória, responsabilidade histórica e a forma como sociedades reconhecem e nomeiam o preconceito.

 

Prisioneiros judeus do campo de concentração Auschwitz-Birkenau, libertados em janeiro de 1945 – Foto: Russian Government

O antissemitismo na história

  • Antiguidade: Registros iniciais de hostilidade contra judeus em contextos como o Império Romano, ligados a diferenças culturais e religiosas.
  • Idade Média (séculos V–XV): Intensificação do antijudaísmo religioso na Europa cristã, com perseguições, expulsões e violência recorrente.
  • Séculos XV–XVIII: Manutenção da discriminação institucional, mesmo com mudanças políticas e o surgimento dos Estados modernos.
  • Século XIX: Formulação do antissemitismo moderno na Europa, com base racial e pseudocientífica; popularização do termo.
  • Início do século XX: Disseminação de teorias conspiratórias e ideologias nacionalistas que colocam judeus como inimigos internos.
  • 1933–1945: Aplicação sistemática do antissemitismo como política de Estado na Europa, culminando no Holocausto.
  • Pós-1945: Reconhecimento internacional do antissemitismo como forma de discriminação extrema e crime contra a humanidade.
  • Século XXI: Reconfiguração do antissemitismo em novos ambientes, incluindo redes sociais, movimentos políticos e discursos globais.