
O Censo 2022, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira (6), confirma uma transição significativa no cenário religioso brasileiro. Pela primeira vez, a população católica caiu para 56,7%, o menor patamar já registrado. Enquanto isso, os evangélicos, que hoje somam 26,9% da população com 10 anos ou mais, continuam a crescer, mas em ritmo mais lento que nas décadas anteriores.
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O Brasil segue majoritariamente cristão — são 100,2 milhões de católicos e 47,4 milhões de evangélicos —, mas a composição religiosa vem mudando. Em 1980, católicos eram 89,2% da população. Agora, embora ainda liderem, perderam mais de 30 pontos percentuais em quatro décadas.

Foto: Reprodução
Já os evangélicos saltaram de 6,5% em 1980 para quase 27% hoje. Contudo, o crescimento observado entre 2010 e 2022 (35,3%) foi mais modesto do que o registrado entre 2000 e 2010 (69,2%). A taxa de expansão ficou abaixo das expectativas de especialistas, que previam que evangélicos já representariam um terço da população.
A mudança é também geracional: entre crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, 31,6% são evangélicos, contra 52% católicos. Entre os idosos acima de 80 anos, os números mudam: 72% são católicos, e apenas 19% evangélicos.
Além disso, cresce silenciosamente o grupo dos “sem religião”, que passou de 7,9% para 9,3% da população — um contingente que abrange ateus, agnósticos e espiritualistas sem afiliação formal.

Brasil em transformação, mas não isolado
Essa reorganização do mapa religioso brasileiro não é um fenômeno isolado. Em todo o mundo, a religiosidade passa por mudanças expressivas:
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Europa Ocidental já tem maioria da população se identificando como “sem religião” em países como a Suécia, República Tcheca e Holanda.
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Estados Unidos registram crescimento constante dos “nones” (sem filiação religiosa), que já representam cerca de 30% dos adultos, segundo dados do Pew Research Center.
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Países africanos e da Ásia veem o crescimento de igrejas pentecostais e movimentos evangélicos, principalmente entre jovens urbanos e nas periferias.
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Na América Latina, a queda do catolicismo também é observada: no Chile, os católicos caíram de 70% para cerca de 45% em duas décadas; no México, a hegemonia católica também começa a recuar.
Diversidade e questionamentos internos
A pesquisa também revela que há diferentes “Brasis religiosos”: o Acre é o estado com maior proporção de evangélicos (44,4%), enquanto o Piauí tem a menor (15,6%). Racialmente, indígenas lideram a proporção de evangélicos (32,2%), seguidos por pretos (30%) e pardos (29,3%).
Por outro lado, especialistas alertam para sinais de desgaste entre os próprios evangélicos, especialmente entre mulheres e jovens que não se reconhecem em lideranças religiosas politizadas ou radicais. Ainda assim, o movimento segue sendo o mais expansivo do país.
Crescem também religiões historicamente marginalizadas e subnotificadas, como as de matriz africana, que já representam cerca de 1% da população — o triplo do registrado em 2010, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.
O que esperar?
Segundo a cientista política Ana Carolina Evangelista, diretora do Instituto de Estudos da Religião (ISER), o Brasil continua sendo majoritariamente cristão, mas caminha para uma maior pluralidade e fragmentação religiosa. O crescimento dos evangélicos é hoje parte de um quadro mais amplo, que inclui avanços dos sem religião, do sincretismo e de espiritualidades alternativas.
Apesar das mudanças, o país ainda carrega heranças do passado católico imperial — mas o futuro promete um cenário religioso mais diverso, complexo e menos previsível.
