Alguns desses grandes eventos do passado já são conhecidos dos cientistas. No início da Era Cenozoica, segundo Lúcia Lohmann, acredita-se que toda a América do Sul era coberta de florestas úmidas. Essa paisagem começou a mudar radicalmente cerca de 30 milhões de anos atrás, com a formação da chamada Diagonal Seca, uma faixa de biomas mais áridos que corta o continente nas regiões que hoje correspondem à Caatinga, ao Cerrado e ao Chaco. A parte norte da Cordilheira dos Andes, que faz fronteira com a Amazônia, começou a se erguer cerca de 23 milhões de anos atrás, também desencadeando mudanças radicais no clima, na hidrogeologia e, consequentemente, na biodiversidade da região. O Rio Amazonas mudou de direção, passando a desaguar no Oceano Atlântico, e houve longos períodos em que a Amazônia foi alagada por grandes incursões de água doce e até salgada, oriunda do Mar do Caribe.
Os novos testemunhos, porém, permitirão reconstruir essa história com um nível de detalhamento muito maior. “Entender o que aconteceu no passado é essencial para que possamos prever melhor o futuro e nos prepararmos para as mudanças que estão por vir”, afirma Lúcia Lohmann. Ela e o professor Renato Paes de Almeida, do IGc, são os pesquisadores principais no braço brasileiro do projeto, que André Sawakuchi coordena dentro do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.
Paralelamente ao TADP, um outro grande projeto internacional de pesquisa da história geológica e climática da região está em curso no Oceano Atlântico, com participação de cientistas da USP e de outras universidades brasileiras, a bordo do navio de pesquisa francês Marion Dufresne. É a expedição Amaryllis-Amagas, que vai coletar amostras profundas de sedimento marinho na região da foz do Amazonas e vários outros pontos da costa norte e nordeste do Brasil. Vários dos pesquisadores envolvidos no TADP também participam desse projeto, cujos dados poderão ser combinados com os dos testemunhos terrestres para melhorar ainda mais a resolução dos resultados de ambas as iniciativas. O braço paulista da expedição é coordenado pelo professor Cristiano Chiessi, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, com apoio da Fapesp.