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Mulheres rompem ciclos de violência com negócios sociais

“Eu não tinha emprego, não sabia o que fazer. Até que me aproximei de grupos de mulheres que me estenderam as mãos", diz Keila Freitas.


Aos 16 anos, Keila Freitas, hoje com 34, conheceu aquele que ela acreditava ser o amor da vida dela. Apaixonada, engravidou, abandonou a escola, se casou e abriu mão de trabalhar para cuidar da família. O que Keila não imaginava naquela época é que esse caminho a guiaria para o beco quase sem saída da violência doméstica atrelada à dependência financeira.

Foto: reprodução

Realidade bem comum no Brasil, uma vez que, para 48% das pessoas, a falta de dinheiro é o principal impeditivo de mulheres encontrarem novos rumos, segundo pesquisa do Instituto Patrícia Galvão. No caso da Keila, foi o empreendedorismo social que abriu uma janela de oportunidade antes que ela entrasse para outra estatística: a de feminicídio, da qual esteve bem perto. “Na primeira semana de casada, meu ex-marido já me deu um tapa na cara. Disse que se arrependeu, mas me agrediu várias vezes depois e quase me matou. Cheguei a pensar que, para sair dessa situação, ele tinha que morrer ou eu”, conta Keila.

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Em um primeiro momento, Keila não conseguia perceber que vivia um relacionamento abusivo. Quando começou a notar que não havia solução a não ser o término do casamento, esbarrou na falta de qualificação e renda para seguir com o filho, na época com cerca de 10 anos.

“Eu não tinha emprego, não sabia o que fazer. Até que me aproximei de grupos de mulheres que me estenderam as mãos, voltei a estudar, me formei em direito e hoje trabalho como advogada para ajudar outras vítimas de violência”, diz.

Livro

A história dela foi contada em um capítulo de um livro escrito para inspirar outras pessoas que seguiram pela mesma trilha e agora ilustra a segunda reportagem sobre empreendedorismo social “Ninguém Solta a Mão”. “Com ajuda, é possível achar um caminho”, garante a mulher, que deixou para trás um sofrimento de 13 anos.

Entre as mulheres que ajudaram a Keila nesse processo de empoderamento está Rizzia Froes, presidente do Instituto Por Elas, empreendimento social que se dedica a alavancar carreiras e dar novo direcionamento na vida de mulheres em situação de risco. “Eu trabalhava em uma ONG nos Estados Unidos e montei lá uma rede de ajuda a mulheres imigrantes. Quando voltei para o Brasil, percorri 150 cidades mineiras para conversar com lideranças femininas e montei a rede aqui”, conta.

O grupo conecta mulheres com empresas para gerar oportunidades de trabalho e colabora com a capacitação delas. O trabalho já tem 4.000 mulheres cadastradas. Desde 2015 à frente do instituto, Rizzia presenciou muitas transformações de vida. Como a de uma mulher que trabalhava em uma fazenda no interior de Minas Gerais. “Eles amarravam as pernas dela aos pés dos bois para moer cana desde a infância. Quando virou moça, deram uma blusa de malha mais larga e rasparam os cabelos dela para que os outros trabalhadores não mexessem com a menina. Quando ela saiu dessa situação, conseguimos nos organizar para ajudá-la porque, sem dinheiro, nenhuma mulher consegue deixar de ser vítima”, diz.

Vergonha

A desembargadora e presidente da 9ª Câmara Especializada em Violência Doméstica do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Karin Emmerich, concorda. “Dificuldade financeira não é o único entrave para mulheres saírem da situação de violência. Pesam questões como vergonha em uma sociedade preconceituosa, filhos, dependência psicológica, entre outros. Mas é muito comum o agressor tirar o acesso a recursos financeiros para prender a vítima em uma teia. Alguns se apoderam de todo o salário das mulheres, que é a chamada violência patrimonial”.

O empreendedorismo pode capacitar e ser alternativa de sobrevivência. “Empreender as liberta da questão financeira (do marido). Muitas vezes, essas mulheres estão em relacionamentos abusivos e, quando percebem que são capazes, que conseguem sustentar a si mesmas e os filhos, elas se libertam”, explica a analista do Sebrae Minas Jaqueline Lima, gestora do projeto Sebrae Delas.

Autonomia melhora relações

O caminho dos negócios pode ser tão transformador que 84% das mulheres ouvidas na Pesquisa Mulheres Empreendedoras Sebrae Minas 2023, divulgada em março, afirmam que ser proprietária de um empreendimento e ter autonomia financeira influencia positivamente como elas vivem seus relacionamentos afetivos (tanto com parceiros quanto com familiares).

A pesquisa mostra ainda que as motivações para abertura do negócio divergem, em termos percentuais, entre os gêneros, de acordo com pesquisa feita com empreendedores iniciais (com até 1 ano de abertura).  As motivações mais apontadas pelas mulheres foram ‘ser dona do próprio negócio para obter autonomia e flexibilidade’ (63%), ‘necessidade financeira’ (45%) e ‘vocação e desejo de empreender’ (42%). Já para os homens, a busca por autonomia foi apontada por 52%, e a necessidade financeira, por 34%.

Saída

“Feminicídio é a ponta do iceberg, mas, antes, as vítimas sofrem muitas outras violências. Um dos degraus é impedir que a vítima tenha dinheiro. O empreendedorismo pode ser uma saída”, Karin Emmerich, desembargadora.