As restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e a proibição de uso de redes sociais e viagens, antecipam seu afastamento definitivo da arena política — e elevam a tensão em torno da sucessão presidencial de 2026.
A decisão, assinada pelo ministro Alexandre de Moraes, surpreendeu até os aliados mais próximos e reaqueceu o discurso de perseguição política, alimentado pelo bolsonarismo. Embora o ex-presidente já esteja inelegível, parte da base ainda apostava em sua influência direta no pleito de 2026.
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Alexandre de Moraes, surpreendeu até os aliados mais próximos e reaqueceu o discurso de perseguição política, alimentado pelo bolsonarismo – Andre Borges/EFE
Internamente, o ambiente é de incerteza. Reuniões marcadas no PL devem definir os próximos passos do grupo político, mas há preocupação sobre o estado emocional e físico de Bolsonaro. Desde o fim de 2022, ele já enfrentava episódios de depressão após a derrota nas urnas.
O gesto do STF também teve efeito colateral: reagrupou momentaneamente os apoiadores de Bolsonaro, que estavam fragilizados por recentes embates internos e desgaste internacional, como o embate com o ex-presidente Donald Trump sobre sobretaxas.
Apesar disso, a liderança conservadora para 2026 permanece em aberto. Alguns veem no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o nome mais preparado para herdar o espólio bolsonarista. Outros, porém, defendem uma chapa com um dos filhos de Bolsonaro e líderes estaduais como Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por exemplo, chegou a falar em disputar o Planalto, mas também demonstrou receio de retornar ao Brasil diante das investigações em curso. Ele é um dos alvos do inquérito que levou às novas sanções contra o pai.
Bolsonaro, embora publicamente negue qualquer intenção de deixar o país, teria cogitado a fuga em privado. A apreensão de dólares em sua residência reforçou no STF a tese de uma possível tentativa de evasão, o que também preocupa parte de seus apoiadores.
Mesmo isolado politicamente, Bolsonaro permanece nos holofotes e tenta manter sua imagem como mártir perseguido, o que pode ser estratégico para indicar um sucessor. Na sexta-feira (18), deu cinco entrevistas, buscando contornar a restrição às redes sociais.
Já no Congresso, a reação às medidas do STF variou entre perplexidade e silêncio. Líderes do centrão, que buscam uma alternativa viável à polarização Lula x Bolsonaro, estão cautelosos e preferem aguardar os desdobramentos antes de tomar posição.
Cenários possíveis para 2026

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas – Foto: Vinicius Rosa/Governo do Estado de SP
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Tarcísio como cabeça de chapa da direita
Com apoio de parte do bolsonarismo e articulação com o centrão, o governador de SP pode surgir como figura moderada e competitiva. -
Chapa familiar: Michele é uma das grandes opções, por outro lado, Eduardo ou Flávio Bolsonaro como vice ou titular
A depender do desgaste e da inelegibilidade, um dos filhos ou até mesmo a esposa, pode tentar manter o “legado Bolsonaro” na urna, talvez em aliança com outro governador conservador. -
União da direita sem Bolsonaro
Forças de direita mais moderadas podem se unir em torno de nomes como Zema (MG), Ratinho Jr. (PR) ou Caiado, rompendo com o bolsonarismo clássico. -
Bolsonarismo radicalizado e fragmentado
Caso o ex-presidente perca influência de forma acelerada, há risco de pulverização da base conservadora, com candidaturas frágeis e discurso extremado. -
PT fortalecido pela ausência de Bolsonaro
Sem um adversário forte na direita, Lula ou um candidato governista pode encontrar caminho livre para o favoritismo, desde que mantenha estabilidade econômica e social, o que é pouco provável devido ao confronto econômico com EUA, que tende a piorar.
Possibilidades até as Eleições de 2026
Agosto a Dezembro de 2025:
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PL e bolsonaristas definem estratégias de contenção de danos. Decisão sobre o papel político de Eduardo e Flávio Bolsonaro.
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Tarcísio de Freitas amplia agenda nacional e inicia conversas discretas com partidos de centro.
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STF e PF continuam investigações que envolvem Bolsonaro e aliados. Novas revelações podem mudar a correlação de forças.
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Centrão observa e mede o enfraquecimento bolsonarista antes de tomar partido.
1º semestre de 2026:
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Convenções partidárias começam a tomar forma.
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Nomes da terceira via tentam se consolidar como alternativas à polarização.
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Possível tentativa de aliança entre União Brasil, MDB e PSD, com apoio de governadores.
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Bolsonaro pode ser oficialmente afastado de qualquer articulação eleitoral, dependendo da evolução judicial.
2º semestre de 2026:
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Campanha presidencial oficialmente começa.
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Definições sobre coligações e candidaturas ao Planalto.
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Tensão entre herdeiros políticos de Bolsonaro se intensifica, caso não haja nome único.
Análise de Viabilidade Eleitoral por Partido/Candidato (até o momento)
| Candidato/Grupo | Situação Atual | Pontos Fortes | Riscos/Desafios |
|---|---|---|---|
| Tarcísio de Freitas (Republicanos) | Pré-candidato forte | Gestão técnica em SP, bom trânsito com o centro | Associação com Bolsonaro pode virar peso |
| Eduardo Bolsonaro (PL) | Incerto | Base radical fiel | Investigações no STF, isolamento internacional |
| Ronaldo Caiado (União Brasil) | Possível vice ou cabeça de chapa | Experiência, diálogo institucional | Baixa popularidade nacional |
| Romeu Zema (Novo) | Alternativa de terceira via | Imagem de gestor e liberalismo | Partido fraco, baixo carisma |
| Lula/PT ou sucessor(a) | Governista favorito | Estrutura forte, base consolidada | Desgaste natural de governo |
| Centrão (MDB, PSD, União) | Em articulação | Base nacional, poder legislativo | Falta de nome competitivo e unificado |
Cenário de Risco: A Fragmentação da Direita
Se o bolsonarismo não unificar sua base até 2026, a eleição pode se dividir em múltiplas candidaturas conservadoras, abrindo espaço para:
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Um segundo turno com a esquerda mais fortalecida;
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Um candidato de centro-direita com perfil mais “paz e amor” (como Tarcísio) assumir a dianteira;
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Crescimento de candidaturas populistas radicais à direita ou até à esquerda.
Análise de contexto
As recentes medidas cautelares impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-presidente Jair Bolsonaro — incluindo o uso da tornozeleira eletrônica e a proibição de viagens e de uso das redes sociais — marcam um momento decisivo no cenário político brasileiro. Mais do que um afastamento jurídico, trata-se de um afastamento simbólico e prático do ex-presidente do protagonismo político, antecipando uma nova etapa na sucessão presidencial de 2026.
A ironia é que, apesar das restrições, Bolsonaro sai politicamente menos fragilizado do que se poderia imaginar. O uso da tornozeleira, tratado como uma espécie de “prisão domiciliar” por seus aliados, acabou por reunir sua base, reacendendo discursos de perseguição e vitimização que funcionam como combustível para a militância. É o velho jogo do mártir: quanto mais pressão judicial, mais votos.
Porém, esse efeito pode ser efêmero. O grande desafio para o bolsonarismo agora é a sucessão política. Em meio à crescente impossibilidade de Bolsonaro concorrer — seja por decisões judiciais ou pela própria exaustão política e pessoal do ex-presidente — o grupo busca um nome para representar essa força nas urnas.
Neste cenário, a figura de Michelle Bolsonaro ganha relevância. Embora mais discreta no último ciclo político, ela tem sido vista por alguns analistas e aliados como uma possível ponte para reconstruir a imagem do bolsonarismo junto a setores da sociedade mais moderados e conservadores, especialmente mulheres e evangélicos. Michelle pode atuar como um elemento de união interna, além de projetar uma imagem de estabilidade e empatia diante do desgaste do ex-presidente.

Michelle Bolsonaro -Foto: Alan Santos
As opções ainda contemplam os filhos de Bolsonaro, especialmente Eduardo, que enfrenta limitações jurídicas e divergências internas, e aliados tradicionais, como o governador Tarcísio de Freitas, considerado o mais viável até o momento. No entanto, a influência de Michelle pode se revelar estratégica para ampliar o espectro de apoio da direita e até criar um espaço de diálogo mais amplo, crucial em um ambiente político tão polarizado.
O cenário, porém, segue nebuloso. O centrão observa com cautela, evitando se comprometer com qualquer lado até que o terreno se torne mais claro. A dispersão da direita pode abrir espaço para uma terceira via ou fortalecer o projeto da esquerda, hoje representado pelo presidente Lula, que, embora desgastado pelo exercício do poder, ainda mantém uma base consolidada.
Assim, a política brasileira se encaminha para um quadro complexo em 2026: um ex-presidente fisicamente afastado e judicialmente restringido, seus seguidores divididos e pressionados, e um Congresso tentado a se proteger da instabilidade. O grande teste será a capacidade do bolsonarismo de se reinventar — talvez com Michelle Bolsonaro como elemento de coesão e renovação — ou ceder espaço para novos protagonistas.
Se a direita não encontrar um nome forte e coeso, o Brasil pode se preparar para mais uma eleição polarizada, mas também com possibilidades de renovação — ou com a vitória de um projeto consolidado da esquerda. Em política, nada é definitivo, mas a tornozeleira eletrônica pode simbolizar o início de uma nova fase decisiva para a democracia brasileira.
