Política

Eleições 2026

Queda em avaliação força Lula a atuar pessoalmente na montagem de palanques para 2026

Com alta da rejeição em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, Planalto enfrenta dificuldades para definir candidatos competitivos e costurar alianças estratégicas na região.


Presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca convencer o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a concorrer ao governo de São Paulo – Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Com a piora de sua avaliação no Sudeste — região que concentra quase metade do eleitorado brasileiro — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou sua atuação direta na articulação política para as eleições de 2026. O objetivo é estruturar palanques competitivos em estados-chave como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde pesquisas recentes indicam avanço da reprovação ao governo federal.

Levantamento da Genial/Quaest divulgado em janeiro aponta que o saldo negativo entre aprovação e desaprovação de Lula no Sudeste dobrou em apenas um mês, passando de oito para 16 pontos percentuais. Segundo a pesquisa, 56% dos entrevistados na região reprovam o governo, enquanto 40% afirmam aprová-lo.

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O estudo foi realizado presencialmente entre os dias 8 e 11 de janeiro, com 2.004 entrevistados em todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-00835/2026.

Além dos índices de avaliação, simulações de primeiro turno mostram o presidente atrás de nomes ligados à direita no Sudeste, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Tarcísio, no entanto, já sinalizou que deve disputar a reeleição e indicou apoio à pré-candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

São Paulo vira prioridade absoluta

Diante desse cenário, São Paulo — que reúne cerca de 22% do eleitorado nacional — tornou-se prioridade máxima para o Planalto. Além da força de Tarcísio, a possível candidatura de Flávio Bolsonaro tende a contar com o apoio do prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB).

Para tentar montar um palanque competitivo no estado, Lula tem insistido para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dispute o governo paulista. Haddad, porém, resiste à ideia. Derrotado por Tarcísio em 2022, ele prefere atuar como coordenador da estratégia nacional da campanha presidencial e avalia deixar o cargo ainda neste mês de fevereiro.

“Eu estou conversando com o presidente sobre isso [eleição em São Paulo]. Vamos ver quem convence quem. Eu gostaria de participar da campanha do presidente. É isso que eu acho que vou fazer de melhor”, afirmou Haddad nesta terça-feira (3), em entrevista à Rádio Bandeirantes.

Caso o impasse persista, outras alternativas são analisadas. O vice-presidente Geraldo Alckmin já indicou que não pretende concorrer ao Palácio dos Bandeirantes e deseja permanecer na chapa presidencial. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, avalia a possibilidade de transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo e até mudar de partido para viabilizar uma candidatura. Já a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, demonstrou interesse em integrar a chapa como candidata ao Senado, em uma tentativa de ampliar alianças.

Indefinição é ainda maior em Minas Gerais

Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, o cenário é considerado ainda mais complexo. Durante grande parte de 2025, Lula defendeu publicamente o nome do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para disputar o governo do estado, mas o projeto perdeu força.

Outros nomes passaram a ser cogitados, como o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) e o presidente da Assembleia Legislativa mineira, Tadeu Leite (MDB). Há também discussões internas sobre uma chapa ao Senado que una Kalil e a prefeita de Contagem, Marília Campos (PT).

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, esteve em Belo Horizonte para dialogar com Kalil e avaliar a possibilidade de reconstrução da aliança firmada em eleições anteriores. Aliados de Lula avaliam que, mesmo sem empolgar o eleitorado petista, o ex-prefeito poderia ajudar a formar uma coligação ampla ao centro.

A insistência de Lula no nome de Pacheco também gerou ruídos. A preferência pelo senador chegou a interferir nas expectativas em torno da vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso. Enquanto aliados de Pacheco aguardavam sua indicação, o presidente optou por Jorge Messias, atual advogado-geral da União, reforçando a pressão para que o senador dispute o governo mineiro.

Além da resistência local, Pacheco ainda enfrenta entraves partidários. Ele avalia deixar o PSD, insatisfeito com o que aliados classificam como uma “guinada à direita” da legenda em Minas Gerais, que recentemente filiou Mateus Simões, vice do governador Romeu Zema (Novo) e provável candidato ao governo estadual.

Cautela na aliança com Eduardo Paes no Rio

No Rio de Janeiro, a aliança entre Lula e o prefeito Eduardo Paes (PSD) é considerada provável, mas cercada de cautela. Ao longo de 2025, a relação esfriou após gestos de Paes em direção à direita e críticas públicas de integrantes de sua equipe ao governo federal.

Os dois voltaram a se reunir recentemente em Brasília para tentar reaproximar posições. Ainda assim, petistas avaliam que a elevada desaprovação de Lula no estado pode levar Paes a um engajamento mais discreto na campanha presidencial, especialmente se o adversário for um nome forte da direita no Sudeste.

A sucessão estadual também pesa no cálculo político. Com a possível saída do governador Cláudio Castro (PL) para disputar o Senado e a renúncia do vice Thiago Pampolha — que assumiu vaga no Tribunal de Contas do Estado —, o Rio pode passar por uma eleição indireta na Assembleia Legislativa para um mandato-tampão a partir de abril de 2026. Esse processo pode redesenhar alianças no ano eleitoral.

Rejeição ganha peso decisivo no Sudeste

Nos bastidores, dirigentes do PT reconhecem que, diante do cenário adverso, não será suficiente vencer com folga em redutos tradicionais como o Nordeste. A estratégia passa por reduzir a margem de derrota no Sudeste.

Para analistas, a rejeição tornou-se um fator central nas disputas presidenciais. Segundo Emanoelton Borges, CEO da Alfa Inteligência, esse indicador passou a ter papel decisivo em eleições polarizadas.

“A rejeição se consolidou como um elemento central da decisão eleitoral. Em disputas apertadas, ela pode ser determinante para o resultado final”, afirmou.

Na avaliação do pesquisador, compreender esse comportamento será crucial para a estratégia de 2026. “Quando uma parcela significativa do eleitorado decide pelo critério da menor rejeição, vencer passa menos por mobilizar bases ideológicas fiéis e mais por não afastar o eleitor indeciso”, concluiu.