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Marilena Chauí volta a atacar a classe média mesmo recebendo quase R$ 41 mil por mês da USP

Professora aposentada reafirma "ódio" à classe média em entrevista, menosprezando a base produtiva do país enquanto desfruta de altos salários pagos com dinheiro público.


“Odeio a classe média até o fim dos meus dias”, disse Marilena Chauí em entrevista à Folha – Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A filósofa e professora aposentada da USP, Marilena Chauí, voltou a demonstrar seu desprezo pela classe média brasileira em entrevista publicada neste domingo (28) pela Folha de S.Paulo. Aos 84 anos, Chauí reafirmou uma das declarações mais polêmicas de sua carreira: “Eu odeio a classe média até o fim dos meus dias”.

A fala chama atenção não apenas pelo radicalismo, mas também pela incoerência: Chauí recebe mensalmente uma aposentadoria bruta de R$ 40.962,82, segundo dados do portal da transparência da Universidade de São Paulo. Um valor distante da realidade da imensa maioria dos brasileiros, inclusive da classe média que ela ataca.

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Segundo a professora, que se define como uma marxista “muito conservadora”, a classe média exerce o papel de “oprimir os dominados” e “bajular os dominantes”. Ela afirma que essa parcela da população é “odiosa” por ser, segundo sua visão, o “cimento ideológico” que sustenta o sistema capitalista.

Críticas como essas, vindas de alguém que passou décadas recebendo recursos públicos e que ainda hoje é remunerada com cifras muito superiores à média da população, levantam questionamentos sobre o distanciamento entre discurso e prática. A classe média, muitas vezes formada por trabalhadores que sustentam o país com esforço diário, é também quem financia, via impostos, os altos salários de servidores públicos como a própria Chauí.

Durante a entrevista, a filósofa também criticou o identitarismo, o neoliberalismo e a chamada “extrema direita”, comparando o ex-presidente norte-americano Donald Trump a imperadores romanos como Calígula e Caracala. Ela defendeu ainda a necessidade de um Estado forte para “reintegrar” uma sociedade que, segundo ela, foi desagregada pelo modelo econômico vigente.

A fala de Marilena Chauí reforça uma retórica ideológica que desconsidera o papel essencial da classe média no funcionamento do país — desde professores e pequenos empresários até profissionais da saúde, segurança e tecnologia, que mantêm a economia ativa e os serviços funcionando.

Em meio a tantos ataques, fica o questionamento: a quem realmente serve o discurso de ódio contra a parcela da população que, com trabalho e esforço, carrega o Brasil nas costas?

Em 2016 o filósofo Ruy Fausto desmontou o discurso político de Marilena Chauí

Doutor em Filosofia pela Universidade Paris I, Ruy Costa disse: “A filósofa equivoca-se ao rejeitar a autocrítica e ao não criticar os petistas que se tornaram corruptos”.

Ruy Fausto (falecido em 2019)  e Marilena Chaui, filósofos e professores da USP – Foto: Reprodução

Marilena Chaui, figura central no pensamento político-intelectual da esquerda brasileira, tem exercido um papel controverso ao longo dos tempos. Sua postura pública, sobretudo em defesa intransigente do Partido dos Trabalhadores (PT) e na rejeição da autocrítica, levanta sérias questões sobre os limites entre militância política e compromisso filosófico com a verdade. Nesse ponto, as críticas de Ruy Fausto, também filósofo e professor da USP, são não apenas pertinentes, mas necessárias para o processo de reconstrução da própria esquerda brasileira.

1. A confusão entre ideologia e realidade

Chaui, ao transformar o PT em um objeto quase sagrado de defesa, incorre num erro fundamental: subordina a análise da realidade à lógica partidária, como destaca Ruy Fausto. Isso implica ignorar ou relativizar fatos concretos — como os escândalos de corrupção envolvendo lideranças petistas — em nome de uma narrativa ideológica. Tal atitude enfraquece a própria credibilidade da esquerda enquanto força crítica, pois demonstra uma seletividade moral que acaba espelhando aquilo que critica na direita.

2. A negação da autocrítica como princípio democrático

Ao deslegitimar a ideia de autocrítica por associá-la exclusivamente a práticas totalitárias — como aquelas utilizadas nos regimes stalinistas — Chaui comete um grave equívoco conceitual. A autocrítica, em contextos democráticos, é um instrumento de aperfeiçoamento ético e político, não de punição arbitrária ou humilhação pública. Recusá-la é fechar os olhos para os próprios erros e comprometer o futuro de qualquer projeto político que se pretenda emancipador. Como afirma Fausto, “lançar uma cortina de fumaça” sobre os erros do próprio campo político é um desserviço à verdade e à transformação social.

3. A tentação da retórica em detrimento da reflexão

Ruy Fausto apontava ainda para a sedução exercida pelo aplauso fácil, pelas plateias convertidas, como um vício perigoso para qualquer intelectual. Chaui, segundo ele, fazia da retórica uma ferramenta de blindagem ideológica, mais preocupada em mobilizar afetos do que em esclarecer contradições. Quando a filosofia cede à propaganda, ela perde sua capacidade crítica, tornando-se um instrumento de manutenção do poder — e não de seu questionamento.

4. A desinformação como método

Um dos pontos mais delicados da crítica de Fausto diz respeito à reprodução de teorias conspiratórias, como já insinuou que a formação de Sergio Moro pela CIA para entregar o pré-sal aos americanos. Sem apresentar provas ou base sólida, esse tipo de afirmação desinformava e desviava o debate à época. Além disso, minou a seriedade das críticas legítimas ao sistema judiciário, ao imperialismo ou à atuação seletiva da mídia. Para Fausto, esse tipo de discurso sempre foi contraproducente e levou a esquerda à desmoralização pública, pois transformou a luta política em caricatura.

5. A confusão entre partido e projeto político

Outro aspecto central da crítica de Ruy Fausto é a incapacidade de Chaui em separar o destino do PT da causa da esquerda. Defender uma ideologia ou projeto de sociedade não deve significar defender incondicionalmente um partido — sobretudo quando este falha gravemente em seus princípios. Ao fazer essa confusão, a filósofa compromete a possibilidade de renovar a esquerda, uma vez que impede o diagnóstico realista de suas falhas e limitações.

A crítica como dever ético e político

A fala de Ruy Fausto feita em 2016  é um chamado à responsabilidade intelectual dentro da esquerda atual. Ao contrário do que sugere Chaui, a crítica interna não é um sinal de fraqueza ou de traição, mas de maturidade política. A esquerda que deseja reconstruir sua relevância precisa encarar seus erros, revisitar suas alianças, reconhecer os limites de seus líderes e, acima de tudo, retomar o compromisso com a verdade — mesmo quando ela é desconfortável.

Marilena Chaui tem, sem dúvida, uma trajetória filosófica admirável e contribuições relevantes para o pensamento político brasileiro. No entanto, a fidelidade cega a um partido, como bem alertou Ruy Fausto, pode transformá-la — de filósofa crítica — em voz de propaganda. E, nesse processo, é a própria esquerda democrática e transformadora que perde seu rumo.