
Apreensão de 6 toneladas de drogas no Amazonas – Foto: Reprodução/PF-AM
Nos últimos 11 anos, a região Norte do Brasil viveu uma explosão nas apreensões de drogas, acompanhada por um aumento da violência, da presença de facções criminosas e da lavagem de dinheiro. Os dados são do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com base em números da Polícia Federal.
Entre 2013 e 2024, a apreensão de cocaína na região aumentou 92%, saltando de 5,4 toneladas para 10,4 toneladas. O volume de maconha recolhida disparou 6.530%, passando de 229 quilos para 15,2 toneladas — crescimento muito superior à média nacional, que foi de 100%.
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O Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta que a Amazônia, especialmente os estados do Amazonas e Pará, se consolidou como principal rota da cocaína produzida na Colômbia e no Peru rumo à Europa. A chamada rota do Solimões, por meio dos rios da região, é explorada por traficantes devido à sua extensão e à baixa fiscalização.
Além do narcotráfico, crimes como garimpo ilegal, contrabando e lavagem de dinheiro se intensificaram. Segundo o relatório Cartografias da Violência na Amazônia, também do Fórum, o número de comunicações de operações financeiras suspeitas na Amazônia Legal cresceu 300% entre 2016 e 2023, alcançando 3.615 relatórios enviados pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) no ano passado.

“O tráfico hoje financia outras atividades ilegais e esconde os lucros por meio de setores formais, como o mercado imobiliário”, afirma o professor Aiala Couto, da Universidade do Estado do Pará. Ele explica que a violência mudou de forma: há menos homicídios, mas mais ameaças, assédio e domínio territorial por parte de facções.
Atualmente, o Norte é a segunda região mais violenta do Brasil, atrás apenas do Nordeste. Segundo o levantamento, em 2023 havia presença de 22 facções criminosas em 178 municípios da Amazônia Legal. O Comando Vermelho (CV) domina 130 desses municípios, seguido pelo PCC (28) e por grupos locais menores.
César Mello, pesquisador do Fórum e coronel da Polícia Militar do Pará, destaca que o combate ao narcotráfico na região exige alto investimento logístico. Apenas no Amazonas, o governo estadual gasta cerca de R$ 7 milhões por mês para manter cinco bases fluviais de policiamento — muitas vezes com recursos insuficientes para cobrir a vasta extensão do rio Amazonas.
“A presença do Estado nas fronteiras e ao longo dos rios é essencial para dificultar o tráfico”, afirma. Ele defende maior envolvimento das Forças Armadas, com equipamentos adequados como lanchas blindadas e aviões anfíbios, especialmente em áreas estratégicas como a tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.
A situação crítica na Amazônia preocupa também pelas semelhanças com modelos criminosos vistos no Rio de Janeiro e, mais recentemente, no Nordeste. Segundo Mello, o domínio de facções sobre atividades econômicas e serviços públicos já começa a se desenhar em cidades da região Norte.
A Operação Ágata, conduzida pelas Forças Armadas em parceria com órgãos de segurança pública, tem como objetivo combater crimes transfronteiriços e ambientais na faixa de fronteira. Em nota, o Ministério da Defesa informou que a ação busca fortalecer a presença do Estado e garantir a segurança da população.
O Governo do Amazonas foi procurado pela Folha de São Paulo, mas não se manifestou até o fechamento da reportagem.
