
Ao longo das últimas décadas, o crime organizado no Rio deixou de atuar apenas como fornecedor de drogas e passou a gerir um conjunto de atividades econômicas que sustenta sua presença territorial nas favelas. Relatos de moradores, investigações policiais e apurações do Ministério Público descrevem um quadro em que extorsões, monopólios sobre serviços e cobranças parecidas com “impostos” se somam ao comércio ilegal para compor a principal fonte de receita desses grupos.
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Moradores de bairros vizinhos a favelas relatam pagar valores fixos mensais — em alguns casos cerca de R$ 2.000 para condomínios ou R$ 150 para mototaxistas — sob a justificativa de “taxa de segurança”. A recusa costuma resultar em represálias, que vão de ameaças e assaltos ao risco de ocupação por facções rivais. Em diversas comunidades, donos de pequenos comércios afirmam ser obrigados a repassar percentuais do faturamento; proprietários que vendem imóveis relatam ter sido pressionados a entregar até 20% do valor da negociação.
A transformação do negócio criminoso tem contornos bem delineados: além do tráfico de entorpecentes, grupos armados passaram a investir em serviços como transporte alternativo, fornecimento de gás e água, descarte irregular de lixo e clonagem de veículos — todas fontes que aumentam a capacidade financeira para bancar disputas por território. Investigações policiais apontam, por exemplo, que facções chegaram a controlar a venda de botijões de gás em áreas onde o preço ao consumidor pode dobrar em relação ao mercado formal.
Autoridades calculam que a venda de drogas corresponda a uma parte — estimada em cerca de 15% — da receita total desses grupos, enquanto grande fatia vem de práticas extorsivas e negócios paralelos. Para promotores que atuam no combate ao crime organizado, a linha entre milícia e facção tem se esboroado: ambos adotam as mesmas práticas de exploração territorial e coerção da população, embora com diferenças na articulação e nos vínculos com o sistema prisional. Segundo o promotor responsável por inquéritos sobre o tema, o que antes se via como mercados separados hoje se sobrepõe em objetivos e métodos.

O resultado ligado à guerra nas favelas do Rio resultaram em centenas de mortos – Foto: Anizelli/FolhaPress
A disputa pelo controle dos territórios tem deixado um rastro de morte e destruição. Entre 2023 e 2024, confrontos e ataques ligados à guerra por áreas nas favelas do Rio resultaram, segundo levantamentos, em centenas de mortos — incluindo vítimas civis e crianças — e episódios de grande violência. A ação mais letal citada pela apuração recente ocorreu em 28 de outubro, quando uma operação contabilizou 121 mortos, episódio que também teve repercussão política e foi saudado por autoridades locais.
A intensidade e os novos formatos de exploração impõem efeitos práticos no dia a dia da população: serviços básicos ficam comprometidos, empresas e concessionárias enfrentam dificuldades operacionais e equipes técnicas correm riscos ao atuar em áreas conflagradas. Registros de ataques a equipamentos públicos, como transformadores, prejudicam o fornecimento de energia; já operadoras de telefonia relatam impedimentos para manutenção e instalação de infraestrutura. A soma desses fatores aprofunda a vulnerabilidade social e reduz alternativas legais de renda para muitos moradores.
Casos investigados pela polícia mostram cobranças que lembram tributações formais — com valores cobrados por obras, licenças informais para comércio e percentuais na venda de imóveis — além da prática de cobrar “taxas” por serviços como descarte de lixo ou pelo direito de operar vans e mototáxis. Em alguns conjuntos, motoristas de aplicativo disseram ter de colar adesivos que comprovem pagamento a grupos locais para poder circular sem ser hostilizados.
A articulação entre facções também passa pelo sistema prisional, segundo as investigações: a capacidade de coordenar ações interestaduais e de financiar operações a partir de dentro das cadeias favorece a expansão da atuação criminosa em várias regiões do estado e do país.
Possível cenário político e o peso da segurança nas eleições de 2026
A persistente deterioração da segurança pública no Rio e em outras grandes cidades tende a se traduzir em agenda política robusta e centralizada nas eleições de 2026. Politicamente, a insegurança tem três efeitos principais:
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Agenda prioritária e polarização: Segurança pública costuma virar tema de campanha com alta capacidade de mobilização do eleitorado, atraindo propostas de endurecimento — operações policiais, flexibilização de instrumentos legais e maior orçamento para forças de segurança. Candidatos que apresentem discursos de mão-dura podem ganhar tração, sobretudo em regiões mais impactadas pela violência, enquanto opositores que defendam foco em políticas sociais e reformas estruturais enfrentarão o desafio de demonstrar eficácia em prazos eleitorais curtos.
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Impacto sobre confiança nas instituições: O avanço de grupos criminosos que exercem controle territorial e serviços paralelos mina a confiança na capacidade do Estado. Isso cria espaço para narrativas que criticam a gestão pública e favorecem projetos políticos que prometam restauração da ordem à custa de ampliação de poderes de segurança. Demandas por maior efetividade das polícias e do Poder Judiciário podem influenciar alianças partidárias e pautar o debate legislativo.
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Voto por performance local e segurança como tema decisivo: Em eleições majoritariamente locais (prefeituras, assembleias estaduais) e nas disputas nacionais com foco em segurança, eleitores tendem a premiar gestores com resultados de curto prazo — redução visível da criminalidade, campanhas de operações ou medidas simbólicas de “presença” do Estado. Isso pressiona candidatos a prometer ações imediatas, elevando risco de políticas reativas que priorizem resultados rápidos sobre soluções estruturais de longo prazo (educação, inclusão, reforma prisional).
Do ponto de vista técnico, três recomendações emergem para atores institucionais e candidatos que queiram tratar o tema com sobriedade:
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Priorizar diagnóstico localizado e metas mensuráveis. Programas de segurança precisam combinar dados policiais, avaliação socioeconômica dos territórios e metas claras de redução de danos, em vez de ações únicas e espetaculares.
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Integrar políticas de segurança com medidas socioeconômicas. A diminuição da receita das facções depende também de alternativas econômicas e de infraestrutura estatal que reduzam o espaço para exploração – saneamento, transporte, regularização fundiária e empregos locais.
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Evitar militarização excessiva como solução única. Embora ações repressivas sejam necessárias em episódios críticos, a dependência exclusiva de operações pode consolidar ciclos de violência e ampliar riscos eleitorais e humanitários; estratégias combinadas com prevenção e Justiça restaurativa tendem a ser mais sustentáveis.
Em suma, a segurança será tema decisivo em 2026 no Rio e em outros locais afetados: candidatos e gestores que equilibraram respostas imediatas com políticas públicas de médio prazo — e que apresentarem indicadores confiáveis de resultado — estarão em melhor posição para converter a agenda de segurança em credibilidade política.
