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O ‘fator Trump’ no julgamento de Bolsonaro: Implicações e riscos de uma condenação

O julgamento de Jair Bolsonaro no STF pode afetar as relações entre Brasil e EUA, com potenciais consequências diplomáticas e econômicas.


O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que terá início nesta terça-feira (2/9) no Supremo Tribunal Federal (STF), representa um marco crucial não apenas para o futuro político do Brasil, mas também para suas relações internacionais, especialmente com os Estados Unidos. O caso, que investiga a participação de Bolsonaro em uma tentativa de golpe de Estado após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ganha uma dimensão internacional inesperada, com a figura do ex-presidente americano Donald Trump fazendo-se presente como um ator de peso no processo.

O envolvimento dos EUA no Caso Bolsonaro

Jair Bolsonaro e Donald Trump se consideravam aliados no período em que ambos ocupavam a presidência de suas respectivas nações – Foto: Getty Images

A relação de Trump com Bolsonaro nunca foi um segredo, e, desde o início das investigações no Brasil, o apoio de Trump e de membros de seu círculo mais próximo a Bolsonaro tem sido evidente. O filho de Bolsonaro, deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), já havia iniciado uma mobilização nos Estados Unidos antes mesmo de o ex-presidente se tornar réu. Durante essa movimentação, Eduardo solicitou apoio internacional, o que incluiu declarações públicas e encontros com autoridades americanas, buscando uma “justa punição” contra ministros do STF que ele considera inimigos de seu pai.

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O apoio de Trump, no entanto, não se limitou às palavras. Em julho, o ex-presidente americano se manifestou contra o julgamento, chamando-o de “perseguição” e sugerindo que o Brasil estava cometendo uma injustiça contra Bolsonaro. Como resposta, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, além de sancionar ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes, acusando-o de abuso de poder e censura. Essas ações tensionaram ainda mais a relação entre os dois países, gerando um desgaste significativo na opinião pública brasileira.

Especialistas apontam similaridades entre as cenas durante a invasão das sedes dos Três Poderes em 2023 e a invasão do Capitólio nos EUA em 2021 – Fotos: Reuters

O impacto na opinião pública brasileira

Embora o apoio de Trump tenha sido visto como uma forma de fortalecer Bolsonaro internamente, a estratégia tem gerado efeitos opostos. Especialistas apontam que a interferência externa, especialmente as sanções e tarifas impostas pelos EUA, contribuiu para um aumento da percepção negativa sobre o ex-presidente entre os brasileiros. Pesquisa Genial/Quaest de agosto de 2025 mostrou que 52% dos brasileiros acreditam que Bolsonaro esteve envolvido no golpe de Estado de 2022, uma elevação de 5% em relação ao início do ano.

Luciana Veiga, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), afirma que o apoio americano só aprofundou a narrativa negativa sobre Bolsonaro, com os brasileiros vendo essas ações como uma tentativa de “livrar” o ex-presidente de uma crise pessoal em detrimento do país.

O julgamento e suas consequências políticas

O julgamento de Bolsonaro no STF envolve, além dele, outros sete réus, incluindo ministros de seu governo e três generais do Exército. A acusação é de formação de uma organização criminosa que tentou subverter o resultado das eleições de 2022. Bolsonaro é acusado de cinco crimes, incluindo a tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e danos ao patrimônio público durante os ataques de 8 de janeiro de 2023, que resultaram na invasão das sedes dos Três Poderes.

Especialistas apontam que a probabilidade de condenação de Bolsonaro é alta, considerando a evolução do processo até agora. A questão crucial, segundo Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia Group, é o impacto que uma possível condenação terá sobre as relações Brasil-EUA. Caso o ex-presidente seja condenado, novas sanções ou retaliações de Washington contra o Brasil podem ocorrer, o que pode aumentar ainda mais a tensão diplomática entre os dois países.

Fonte: Polícia Federal / Fotos: Getty Images, Agência Brasil, Reuters, EPA, Exército Brasileiro, Marcos Corrêa, PR, Reprodução redes sociais

Possibilidade de indulto e a pressão internacional

Embora a ideia de um indulto presidencial para Bolsonaro seja debatida internamente, especialmente por aliados como o ex-ministro Tarcísio de Freitas, a pressão dos Estados Unidos pode mudar os cálculos do STF. O indulto, uma prerrogativa do presidente, pode ser uma saída política para Bolsonaro, mas, se concedido, poderia ser visto como uma concessão ao governo americano, que já exerceu forte influência nas negociações.

Para Silvio Cascione, uma mudança de governo nas eleições presidenciais de 2026 poderia abrir espaço para a possibilidade de um perdão a Bolsonaro, o que teria de ser analisado sob a ótica do STF, que tem mostrado resistência a perdões em casos como este.

Desdobramentos futuros

O julgamento de Jair Bolsonaro se apresenta como um ponto de inflexão não apenas para o futuro político do ex-presidente, mas também para o Brasil em termos de sua posição no cenário internacional. A relação com os Estados Unidos, cada vez mais tensa, adiciona uma camada complexa à já controversa situação política interna do Brasil. A pressão externa, combinada com o julgamento, pode gerar um efeito dominó, com novas reações diplomáticas e econômicas, além de reconfigurar alianças políticas dentro do Brasil.

Se o ex-presidente for condenado, a crise entre os dois países pode se agravar ainda mais. Contudo, com as eleições de 2026 se aproximando, o futuro de Bolsonaro e a possibilidade de um indulto presidencial permanecem em aberto, dependendo de variáveis políticas e diplomáticas que continuam a se desenrolar nos bastidores.

Com informações da BBC