
O presidente Lula e vários ministros visitam a Favela do Moinho, tida como “quartel-general” do PCC na cidade de São Paulo, em junho de 2025. (Foto: Cláudio Kbene/Presidência da República)
O Brasil ocupa a liderança em um preocupante ranking latino-americano, com 26% de sua população — cerca de 50 milhões de brasileiros — vivendo sob o domínio de facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho. A pesquisa, publicada pela Cambridge University Press, coloca o país como destaque em um fenômeno chamado “governança criminal”, onde as organizações exercem controle social e impõem regras rígidas dentro das comunidades.
O levantamento, realizado por quatro acadêmicos de universidades dos Estados Unidos, utilizou dados do Latino Barômetro 2020, que analisa 18 países da América Latina. Os números mostram que, em toda a região, entre 77 e 100 milhões de pessoas estão sob o comando de facções criminosas, representando entre 14% a 20% da população regional. O Brasil, com seu índice de 26%, está significativamente à frente de outros países, como a Costa Rica, que ocupa a segunda posição com 13%.
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A expansão das facções e os impactos da governança criminal
Em entrevista ao CBN São Paulo, o repórter do O Globo, Guilherme Queiroz, explicou que o conceito de governança criminal vai além da violência armada e inclui normas sociais impostas pelas facções. “Essas regras podem ser desde condutas que não são aceitas dentro de determinada comunidade até normas como não falar com a polícia. Em momentos de disputa territorial, as restrições tendem a se intensificar”, afirmou o jornalista.
A pesquisa também revela como a presença dessas facções impacta os índices de criminalidade. Um exemplo citado é São Paulo, onde o PCC tem dominado o território, o que, em certo período, contribuiu para a redução das mortes violentas. No entanto, em cenários de disputa, como o ocorrido em Fortaleza entre 2014 e 2015, a violência disparou, mostrando o alto custo da “governança” dessas organizações.
Facções no Brasil: um fenômeno complexo e multifacetado
O estudo questiona a ideia de que facções criminosas surgem apenas em áreas onde o Estado é ausente. Curiosamente, dois dos maiores grupos do país, o PCC e o Comando Vermelho, nasceram justamente nos estados mais ricos do Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro. Os acadêmicos sugerem que fatores como a repressão policial intensa e o encarceramento em massa podem ter ajudado na expansão dessas organizações, ao mesmo tempo em que o Estado não conseguiu frear seu crescimento.
Existem atualmente pelo menos 64 facções em operação no Brasil. Enquanto o PCC e o Comando Vermelho estão presentes em quase todos os estados, em regiões como o Rio Grande do Sul, predominam grupos locais com estruturas menores, mas igualmente perigosas.
A aproximação das facções com o Estado
Queiroz destaca um ponto alarmante: a crescente aproximação das facções com as estruturas do Estado. Ele menciona que o PCC, por exemplo, tem exportado seu modelo de organização para outros estados, estimulando o surgimento de facções rivais que seguem a mesma estrutura de atuação. “Essa interferência mais forte já é um passo em direção a algo mais próximo do que se poderia classificar como uma máfia”, alerta o repórter.
A pesquisa conclui que o fenômeno da “faccionalização” no Brasil reforça a necessidade de entender a governança criminal não apenas como um reflexo da ausência estatal, mas como um resultado direto das respostas do próprio Estado, que, muitas vezes, acabam por consolidar o poder das organizações criminosas.
A crescente ameaça
O cenário descrito pelos pesquisadores e jornalistas é uma preocupante realidade para a segurança pública brasileira. Com o crescimento e a consolidação dessas facções, o Brasil enfrenta um desafio complexo para reverter o quadro e garantir a soberania do Estado em suas próprias fronteiras. A violência, o tráfico de drogas e o controle territorial exercido por essas organizações são aspectos que demandam uma abordagem mais estratégica e profunda para que o país possa, de fato, retomar o controle sobre áreas em que a criminalidade se tornou a norma.
