
O ditador norte-coreano, Kim Jong-un, cumprimenta o dirigente chinês, Xi Jinping, durante visita a Pequim – Foto: Ju Peng/Xinhua
A Coreia do Norte, governada com mão de ferro por Kim Jong-un, se transformou, nas últimas décadas, em muito mais que uma ditadura isolada: tornou-se uma rede internacional de crime organizado. Por trás da fachada de um Estado soberano, o regime opera um esquema global que envolve falsificação de produtos, tráfico de drogas, contrabando de espécies ameaçadas e lavagem de dinheiro.
Para manter seu poder e contornar as sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados, Pyongyang desenvolveu um verdadeiro império ilícito. Um exemplo emblemático é a produção anual de cerca de 2 bilhões de maços de cigarros falsificados, réplicas de marcas internacionais como Marlboro e Dunhill, que circulam ilegalmente em mercados de todo o mundo.
Continua depois da Publicidade
Esse mercado clandestino se fortaleceu a partir de 2002, quando a repressão chinesa às fábricas piratas transferiu o know-how criminoso para o território norte-coreano. Hoje, com apoio logístico da máfia chinesa, o regime lucra com a distribuição global desses produtos falsificados.
No entanto, o que está por trás dessa produção é ainda mais alarmante: a exploração sistemática de cidadãos norte-coreanos em condições análogas à escravidão. Trabalhadores são forçados a operar em fábricas clandestinas e campos de produção sob vigilância militar, sem liberdade, salário digno ou possibilidade de fuga. Esses trabalhadores não têm qualquer direito reconhecido e vivem sob constante ameaça — tudo em nome da sustentação do regime.

Líder Supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-un Foto: KCNA
Além das falsificações, Pyongyang atua no tráfico de metanfetaminas, na produção de dólares falsos e até no contrabando de chifres de rinoceronte, itens valiosos no mercado negro asiático. O Estado também utiliza diplomatas e empresas de fachada para realizar transferências ilegais de recursos e manter uma rede de financiamento paralela à economia oficial.
Hoje, especialistas alertam que a Coreia do Norte não é apenas um regime ditatorial repressivo, mas uma organização criminosa transnacional, cuja máquina de repressão e corrupção só é possível graças à exploração brutal de sua população e à capacidade de operar fora da legalidade internacional.
O Papel da China na Sustentação de Redes Criminosas em Regimes Autoritários
Conivência estratégica e apoio logístico: como Pequim se tornou peça-chave no funcionamento de sistemas repressivos e operações ilegais em países aliados
Enquanto o mundo debate o avanço de regimes autoritários e suas conexões com redes criminosas internacionais, a China emerge como um elo central nesse sistema de interesses. Pequim, sob o comando do Partido Comunista Chinês, tem se mostrado mais do que um aliado político de ditaduras como a da Coreia do Norte — é também um parceiro silencioso na manutenção de esquemas ilegais que sustentam esses regimes.
Desde o fechamento de fábricas piratas em território chinês nos anos 2000, quando o país passou a tentar controlar sua imagem perante o Ocidente, houve uma transferência intencional de tecnologia ilícita e conhecimento logístico para a Coreia do Norte. Em vez de acabar com os crimes, a China realocou o problema para um aliado estratégico, permitindo que o regime norte-coreano se tornasse um novo polo de produção de cigarros falsificados, drogas sintéticas e moedas falsificadas.
Mas o envolvimento chinês vai além da tolerância. Máfias e redes criminosas chinesas colaboram ativamente com o regime de Kim Jong-un, fornecendo insumos, canais de distribuição e rotas seguras para escoamento dos produtos ilegais. Por meio de portos controlados, empresas de fachada e redes de comércio subterrâneo, a China facilita a inserção desses itens no mercado internacional, lucrando e mantendo o regime vizinho estável.
Além disso, trabalhadores norte-coreanos são frequentemente enviados à China para trabalhar em condições degradantes, sem direito à liberdade de movimento e com seus salários sendo confiscados pelo governo norte-coreano. Essa prática, reconhecida por diversas organizações de direitos humanos, constitui trabalho forçado em ambiente transnacional, com conivência direta das autoridades chinesas.
Nos bastidores, Pequim também atua em fóruns internacionais para bloquear sanções mais duras contra Pyongyang, protegendo economicamente e politicamente o regime norte-coreano — e, por tabela, preservando os próprios interesses geopolíticos na região.
Com isso, a China não é apenas um observador ou cúmplice passivo, mas uma peça estratégica no tabuleiro autoritário global. Seu modelo de controle estatal, repressão interna e expansão econômica serve de inspiração para outros regimes, ao mesmo tempo que sustenta financeiramente ditaduras que se beneficiam da ilegalidade, da exploração humana e da ausência de fiscalização internacional.
E o Brasil?
Embora o Brasil não esteja diretamente envolvido com as redes criminosas norte-coreanas, o caso expõe fragilidades e riscos comuns a países que enfrentam desafios de governança, fiscalização e segurança institucional. O uso de empresas de fachada, o contrabando de produtos e a falsificação de marcas registradas são também problemas enfrentados em solo brasileiro — ainda que em outra escala e sob outras motivações.

Em 2024, o presidente Lula (PT) aceitou a indicação do ditador Kim Jong-un para que Song Se Il como o novo Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Coreia do Norte no Brasil – Foto: Reprodução
Em áreas como a Tríplice Fronteira e parte do Norte e Nordeste, o Brasil abriga rotas de tráfico e contrabando utilizadas por organizações criminosas internacionais. Há registros, inclusive, de tentativas de cooperação entre redes asiáticas e latino-americanas para escoamento de produtos ilegais — o que levanta alertas para autoridades aduaneiras e agências de inteligência brasileiras.
Além disso, a capacidade de governos autoritários como o norte-coreano de operar fora das normas internacionais reforça a importância de o Brasil manter e fortalecer alianças diplomáticas, mecanismos de controle de fronteiras e ações multilaterais de combate ao crime transnacional. O monitoramento da atuação de países-paria e seus tentáculos comerciais é, hoje, tão relevante quanto o combate ao crime doméstico.
