A disputa judicial envolvendo o Bar do Armando, um dos mais tradicionais pontos de encontro da boemia e da cultura amazonense, ganhou uma nova dimensão com o texto da escritora Liduina Moura. Em uma narrativa marcada pelo simbolismo, a autora transforma a batalha pela permanência do estabelecimento em um manifesto de resistência cultural e afetiva.
No texto, a varanda da “casa do Senhor Tempo” serve de cenário para um encontro imaginário entre personagens históricos e simbólicos ligados ao Largo de São Sebastião. Entre eles estão o ex-prefeito Eduardo Ribeiro, o escultor italiano Domenico de Angelis — autor do monumento Abertura dos Portos — e o próprio Seu Armando, fundador do bar que há mais de seis décadas faz parte da história de Manaus.
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Na narrativa, Domenico de Angelis relembra a convivência do monumento com a efervescência cultural do Bar do Armando, palco de encontros entre escritores, jornalistas, artistas, músicos e intelectuais. O escultor descreve o espaço como um lugar onde a arte, a música e a amizade resistem ao tempo, mesmo diante da atual disputa judicial.
Seu Armando também ganha voz na obra. O personagem destaca a postura da filha, Ana Cláudia Soeiros, que conduz a defesa do estabelecimento na Justiça, mas afirma que chegou o momento de toda a memória construída ao redor do bar também entrar na luta.
Ao longo da narrativa, o protesto ganha contornos fantásticos. As pedras portuguesas do Largo de São Sebastião despertam ao som da Banda da Bica, árvores e pássaros se unem à manifestação, o quadro de Rui Machado ganha vida e personagens que marcaram a história cultural de Manaus reaparecem em uma grande celebração da memória coletiva.
São lembrados nomes como Paulo Graça, Luiz Bacellar, Tenório Telles, Jomar Fernandes, Rogelio Casado, Simão Pessoa, Mário Adolfo, David Almeida, Lucilene Castro, Márcia Siqueira, Cileno, Torrinho, Renatinho, Célio Cruz, Zezinho Cardoso, Reinado Buzaglo, Ney Amazonas, Norma Araújo, Cleber Cruz, Koko Rodrigues, Serginho, entre outros artistas e frequentadores que ajudaram a construir a identidade cultural do local.
A autora encerra o texto afirmando que o protesto “está marcado para todos os momentos do calendário do seu tempo”, defendendo que o Bar do Armando ultrapassa a condição de um simples estabelecimento comercial para se tornar patrimônio afetivo da cidade.
A expressão “usucapião do coração”, utilizada na narrativa, resume a ideia central da obra: a de que a memória coletiva construída ao longo de décadas confere ao espaço um valor que transcende qualquer disputa patrimonial.
O texto de Liduína Moura na integra:

Liduína Moura é publicitária, roteirista e artista plástica – Foto: Reprodução
UM PROTESTO IMPARÁVEL ESTÁ SENDO ORGANIZADO EM DEFESA DO BAR DO ARMANDO
“Na varanda da casa do Senhor Tempo, espaço escolhido por todos que estão organizando esse evento, e principal testemunha de todo esse imbróglio, envolvendo a igreja e o Bar do Armando, um dos líderes do movimento, Eduardo Ribeiro, aliado ao artista Domenico de Angelis, o escultor do monumento ‘Abertura dos Portos’, conversavam com o português Armando, sobre as ações que fariam em defesa do espaço, que deixou de ser bar para ser berço. Para outros, palanque, palco, caixinha de música, consolo, altar, amigo e até consultório de psicologia.
Domenico, indignado, bradava seu esforço na concepção do monumento, que ama o Bar do Armando e seus frequentadores:
“_ Do alto de matéria prima nobre, importada da Europa, até o Granito róseo italiano de Baveno, esqueceu sua dureza e se comoveu. Não foi diferente da reação do mármore de Carrara e das esculturas de bronze de Gênova e Roma, que tantas risadas ouviram _ até a perseguição jurídica de um tal Lalau. Sim! O Deus Mercúrio ouviu tanta música, fanfarra e fofoca, que comentou aos quatro continentes das caravelas, os sons musicais e os ais das Poesias de Paulo Graça, Luiz Barcelar e Tenório Telles. Polêmicas de Jomar Fernandes, Rogelio Casado, Simão Pessoa ou piadas de Mário Adolfo, nas composições da Banda da Bica, que também contava com o violão do ator David Almeida…
… não tenho como esquecer tudo isso que vivi como observador do século, e da sede de cerveja,” __ disse o italiano.
Já o português Armando, armado ainda com a faca que cortava o famoso pernil e guardava debaixo do suvaco, disse admirar a ética, nobreza e paciência da filha, Ana Cláudia Soeiros, mas que precisava agir.
E para tanto, já com a aura portuguesa dos grandes navegantes, e com aquiescência de Eduardo Ribeiro, mesmo ciente que o monumento foi inaugurado fora da sua gestão, iria auxiliar pela enorme conexão do Bar do Armando com os fantasmas das óperas do teatro Amazonas _ eles se interligavam e dividiam o mesmo chão pátrio.
Para o protesto ter movimento, o grupo iria despertar ao som da Banda da Bica, as pedras portuguesas com seu desenho sinuoso, simbolizando o Encontro das Águas, assim as caravelas dos continentes poderiam navegar até o Bar, e não ao mar, mas já seria um reforço.
As árvores também estavam se organizando, plenamente conectadas às raizes do espaço da boêmia há mais de seis décadas. Passarinhos iriam bater asas numa revoada lembrando a liberdade de expressão, ideologia e cultura que o Bar do Armando sempre preservou. O Quadro de Rui Machado ganharia vida e até o Montanha, chamado de ” Mentira” por ter pernas curtas, iria participar.
Lucilene Castro, Marcia Siqueira, Cileno, Torrinho, Renatinho, Celio Cruz, Zezinho Cardoso, Reinado Buzaglo, Ney Amazonas, Norma Araujo, Cleber Cruz, Koko Rodrigues, Serginho e tantas vozes se elevam juntas numa polifonia de memórias musicais.
O protesto está marcado para todos os momentos do calendário do seu tempo, quer você tenha ido ou não, ao Bar do Armando. É questão de usucapião do coração da noite de Manaus, de um tempo que não volta, mas nos permite lembrar com a escritura da paixão _ aquela que a gente quer segurar e não sabe, quer se livrar do jugo da saudade, e não quer que ela acabe.
O Bar do Armando é nosso! É feito de um abismo de tempo e geografia, e nos ensinou diante da crua realidade jurídica, que a tristeza só passa por onde passou a alegria.”
Nota da Redação
O texto de Liduina Moura utiliza recursos literários para abordar a disputa judicial envolvendo o Bar do Armando, cuja ação de despejo foi movida pela Diocese do Alto Solimões. Ao fundir personagens históricos, monumentos, arte e memória, a autora transforma a defesa do tradicional bar em uma metáfora sobre a preservação da identidade cultural de Manaus, ressaltando o legado de Seu Armando e a atuação de sua filha, Ana Cláudia Soeiros, na luta pela permanência do espaço.
