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Quatro anos após Bruno e Dom, crime organizado avança no Vale do Javari e expõe limites da resposta federal

Operações do governo retiram toneladas de produtos ilegais, destroem dragas e prendem suspeitos, mas invasões, narcotráfico, pesca predatória e crimes ambientais continuam avançando na região.


O jornalista britânico, Dom Philips e o indigenista Bruno Pereira – Foto: Reprodução

 

Quatro anos depois dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o Vale do Javari continua convivendo com a presença de organizações criminosas, invasões, narcotráfico e exploração ilegal de recursos naturais. O cenário revela um problema que, apesar das sucessivas operações do governo federal, ainda não foi controlado.

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Localizada na fronteira do Brasil com Peru e Colômbia, a Terra Indígena Vale do Javari é uma das regiões mais estratégicas e vulneráveis da Amazônia. Com cerca de 8,5 milhões de hectares, o território concentra a maior quantidade de povos indígenas isolados do planeta e também se tornou uma rota utilizada por redes criminosas para o tráfico de drogas e o escoamento de produtos obtidos ilegalmente.

Um levantamento publicado em julho de 2026 na revista Nature Sustainability apontou que as pressões sobre o território vêm crescendo. O estudo identificou uma conexão entre narcotráfico, crimes ambientais e lavagem de dinheiro, mostrando que atividades como garimpo, pesca, caça e exploração ilegal de recursos naturais não funcionam de maneira isolada, mas integram uma cadeia econômica criminosa.

O problema é que a intensificação das operações não tem significado o fim das atividades ilegais. Ao contrário: mesmo com ações de fiscalização, prisões, apreensões e destruição de equipamentos utilizados por criminosos, novas estruturas continuam surgindo.

 

Vale do Javari – Imagem: Reprodução

 

Operações aumentam, mas crime continua

Os próprios números oficiais ajudam a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pelo Estado.

Entre junho de 2023 e março de 2025, órgãos federais registraram 42 operações interagências e 211 ações de fiscalização no Vale do Javari. Nesse período, foram aplicados R$ 27 milhões em multas, 97 pessoas foram presas e mais de R$ 156 milhões em prejuízos às atividades ilícitas foram estimados. Também foram apreendidas toneladas de pescado e carne de caça, além de dragas, balsas, motores, combustível e ouro.

Ainda assim, o avanço das redes criminosas permanece evidente.

 

Foto: Reprodução

 

Em 2025, por exemplo, uma operação conjunta da Funai, Polícia Federal e Ibama destruiu 16 dragas de garimpo ilegal no Rio Jandiatuba. Segundo a Funai, ações contínuas realizadas pela Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari já haviam resultado na destruição de 98 dragas, além da apreensão ou inutilização de 67 armas e 70 embarcações.

Em julho do mesmo ano, outra operação, desta vez envolvendo Funai, Polícia Federal e ICMBio, provocou prejuízo estimado em mais de R$ 18 milhões ao garimpo ilegal. Foram destruídas ou apreendidas dragas, embarcações, combustível, motores e equipamentos de comunicação.

Em 2026, as operações continuaram. Em março, uma ação conjunta do Ibama, Funai e Exército apreendeu pescado ilegal, armas, motosserras, madeira e animais silvestres. A operação resultou em multas de aproximadamente R$ 55 mil.

Os resultados mostram que o Estado consegue chegar ao território, apreender equipamentos e interromper operações criminosas. O problema é que essas ações ainda não foram capazes de desmontar a estrutura econômica que sustenta a criminalidade na região.

Um problema que se tornou maior do que a fiscalização

A dimensão do Vale do Javari ajuda a explicar parte da dificuldade. São milhões de hectares de floresta cortados por rios e áreas de difícil acesso, em uma região de fronteira internacional.

O crime organizado se aproveita justamente dessas características.

Estudo publicado pela Revista GeoAmazônia descreve a presença crescente de narcotraficantes e garimpeiros ilegais no território e aponta a associação entre atividades criminosas, narcotráfico e exploração ilegal de recursos naturais.

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também descreve o Vale do Javari como uma rota utilizada para o transporte de cocaína e ouro entre Peru, Colômbia e Brasil. Segundo o estudo, bases logísticas de redes criminosas se estabeleceram nas margens dos rios Ituí, Itaquaí e Curuçá, onde também ocorrem atividades como pesca e garimpo ilegais.

Isso significa que o problema deixou de ser apenas ambiental ou fundiário. A região passou a enfrentar uma combinação de crime organizado, narcotráfico internacional, lavagem de dinheiro, garimpo, pesca predatória, caça ilegal, grilagem e violência contra comunidades indígenas.

Indígenas ficam na linha de frente

Enquanto o Estado tenta ampliar sua presença, indígenas continuam desempenhando parte do trabalho de monitoramento territorial.

A Equipe de Vigilância da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari atua na identificação de invasões e atividades ilegais. Os vigilantes, porém, não possuem poder de polícia e enfrentam riscos diante de criminosos armados.

Segundo levantamento apresentado na reportagem, foram registradas 456 ocorrências ou vestígios de invasão entre 2021 e 2024.

O histórico de violência também permanece. Além dos assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips, o Vale do Javari registra ataques contra bases de proteção e episódios de violência contra indígenas e servidores públicos.

Em 2025, a Agência Brasil já apontava que as invasões continuavam ocorrendo e que o fortalecimento dos órgãos públicos era necessário para evitar uma situação em que o Estado apenas repetisse operações sem conseguir eliminar as causas estruturais do problema.

 

Equipe de Vigilância da UNIVAJA – Foto: Reprodução/UNIJAVA

 

Grilagem cria nova frente de pressão

A criminalidade também encontrou mecanismos para tentar dar aparência de legalidade à ocupação de áreas próximas ao território indígena.

Pesquisadores identificaram o uso fraudulento do Cadastro Ambiental Rural, o CAR, como instrumento associado à grilagem. Entre 2017 e 2022, segundo o estudo citado na reportagem, 64% do desmatamento registrado em um raio de 200 quilômetros do Vale do Javari ocorreu em áreas que possuíam registros de CAR.

O dado não significa que todos esses cadastros sejam fraudulentos, mas demonstra como instrumentos criados para organizar informações ambientais podem ser utilizados por criminosos para tentar legitimar ocupações ilegais.

A pressão ocorre ainda sobre milhões de hectares de florestas públicas não destinadas, áreas especialmente vulneráveis à invasão, desmatamento, queimadas e grilagem.

Governo federal reforça operações, mas problema permanece

O governo federal ampliou a presença de órgãos públicos na região e afirma ter fortalecido a fiscalização.

O Ministério dos Povos Indígenas informa que o Plano de Proteção Territorial reúne diferentes instituições federais e estaduais em ações coordenadas. A Funai mantém uma estrutura permanente de proteção dos povos isolados e de recente contato, enquanto Ibama, Polícia Federal, Forças Armadas e Força Nacional participam de operações de fiscalização e segurança.

O Ibama também informou que reabriu, em 2025, a Unidade Técnica em Tabatinga e ampliou o efetivo destinado ao entorno do Vale do Javari. Em 2026, mais de 70 contratados temporários foram destinados à região, segundo o órgão.

O Amazonas, por sua vez, informou que reforçou o policiamento na calha do Vale do Javari com mais 38 policiais e ampliou ações de inteligência e patrulhamento fluvial.

As medidas mostram que o governo não está ausente. O problema é outro: a resposta estatal ainda não conseguiu acompanhar a velocidade, a capilaridade e a capacidade de adaptação das organizações criminosas.

Quatro anos depois, a pergunta continua sem resposta

A morte de Bruno Pereira e Dom Phillips expôs ao país uma região onde criminosos atuavam praticamente à margem do controle estatal.

Quatro anos depois, houve operações, prisões, apreensões, destruição de dragas, multas e reforço de efetivos. Mas os indicadores e relatos mais recentes mostram que a ameaça não desapareceu.

Ao contrário, o crime se sofisticou e passou a combinar diferentes fontes de renda e atividades ilegais.

O desafio, portanto, deixou de ser apenas retirar uma draga de um rio ou apreender uma carga de pescado. O combate exige atingir quem financia, quem transporta, quem compra, quem lava o dinheiro e quem utiliza empresas ou documentos para dar aparência legal aos produtos e terras obtidos ilegalmente.

É justamente nesse ponto que está uma das principais fragilidades da resposta pública: operações pontuais conseguem produzir prejuízos imediatos aos criminosos, mas ainda não foram suficientes para desmontar a engrenagem econômica que mantém o crime funcionando.

No Vale do Javari, a floresta continua sendo disputada. E a permanência das invasões e do narcotráfico mostra que, apesar do aumento das operações, o Estado ainda não conseguiu vencer a disputa pelo controle efetivo de um dos territórios mais estratégicos e vulneráveis da Amazônia.