A crescente rivalidade entre Estados Unidos e China está redesenhando cadeias globais de suprimento, especialmente em setores estratégicos como semicondutores, energia limpa e defesa. Nesse cenário, o Brasil reúne ativos raros: possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta e mantém posição diplomática relativamente neutra entre as duas superpotências.
Esses fatores colocam o país em situação privilegiada para atrair investimentos e integrar cadeias globais de maior valor agregado. “O Brasil tende a ter um cenário favorável para atração de investimento direto, já que possui ativos importantes e alguma estabilidade política”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.
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Apesar disso, o país segue preso a entraves históricos. Juros elevados, dívida pública crescente, insegurança jurídica e ausência de uma política industrial coordenada limitam o aproveitamento dessa janela de oportunidade. O resultado é conhecido: o Brasil continua exportando matéria-prima bruta, enquanto outros países capturam os ganhos da industrialização — um padrão que remonta ao período colonial.
Segundo especialistas, romper esse ciclo exige reformas estruturais capazes de elevar a produtividade e destravar investimentos. “O desafio é deixar de ser apenas um país com riqueza mineral e se tornar uma nação com vocação mineral, capaz de usar esses recursos para o desenvolvimento”, alerta o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Importância geopolítica das terras raras
- Hoje, a extração dos metais raros está concentrada em apenas alguns países, sendo a China a principal produtora.
- Os chineses controlam 70% deste importante mercado.
- Por outro lado, os EUA também têm acesso aos recursos, mas em grau muito menor.
- Como a demanda tende a aumentar ainda mais, outros territórios passaram a ser cobiçados.
- É por isso, por exemplo, que o presidente Donald Trump está pressionando a Ucrânia para fechar um acordo envolvendo as terras raras do leste europeu.
- Os ucranianos possuem grandes depósitos de metais raros, mas parte deles já está sendo controlada pela Rússia.
- Ao mesmo tempo, Groenlândia conta com um importante suprimento destes recursos.
- E não é coincidência que a Casa Branca esteja de olho na região, com Trump inclusive ameaçando tomar o território militarmente.
- Agora, os olhares do mundo também se voltam para o nosso país.

Imagem: Joaquin Corbalan P/Shutterstock
A disputa global por terras raras e o fator China
O domínio chinês sobre a cadeia de terras raras é central na atual disputa geopolítica. Empresas do país controlam cerca de 60% da extração global e quase 90% do refino desses minerais, essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos, semicondutores e sistemas de defesa.
Esse poder não é casual. Resulta de estratégias nacionais de longo prazo, como o programa Made in China 2025 e os planos quinquenais, que integraram governo, universidades e indústria para desenvolver tecnologia e capital humano. Hoje, Pequim utiliza esse domínio como instrumento de pressão geoeconômica.
O cenário se torna ainda mais delicado com a questão de Taiwan, principal produtor mundial de semicondutores avançados. Um eventual conflito teria impacto direto nas cadeias globais, elevando custos e acelerando a fragmentação econômica.
Nesse contexto, o Brasil surge como peça estratégica. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda global por terras raras deve crescer sete vezes até 2040, impulsionada pela transição energética e pela corrida tecnológica.
Vantagem geológica desperdiçada
Além de deter grandes reservas, o Brasil possui depósitos de terras raras em argilas iônicas, especialmente em Minas Gerais, que apresentam vantagens econômicas e ambientais em relação às reservas de rocha dura exploradas em outros países. A extração é mais simples, menos poluente e mais barata.
Ainda assim, o país não possui plantas industriais capazes de realizar a separação química dos elementos, etapa que concentra maior valor agregado. Sem esse processamento, o Brasil exporta apenas compostos mistos de baixo valor, enquanto os produtos finais podem valer dezenas ou centenas de vezes mais.
“Sem uma política industrial coordenada, o país corre o risco de repetir o erro histórico de exportar riqueza bruta”, afirma Alexandre Uehara, professor de relações internacionais da ESPM.
Energia limpa e a revolução da IA
Outro ativo estratégico negligenciado é a abundância de energia limpa. A expansão da inteligência artificial tem impulsionado investimentos massivos em data centers, altamente dependentes de energia e água para resfriamento.
Com grande capacidade hidrelétrica e eólica, o Brasil poderia se tornar polo relevante nessa nova economia. No entanto, a combinação de instabilidade fiscal, juros elevados e ausência de planejamento afasta investidores.
“Para que o Brasil se beneficie da transformação da IA, é necessário destravar investimentos com credibilidade fiscal e redução de juros”, afirma Luciano Telo, diretor do UBS no Brasil.
O entrave fiscal e o círculo vicioso
A principal barreira estrutural está no fiscal. A dívida pública brasileira já ultrapassa 78% do PIB e segue em trajetória ascendente. A ausência de resultados primários consistentes mantém a pressão sobre os juros, que encerram o período no maior patamar em quase duas décadas.
O modelo atual cria um círculo vicioso: fiscal frágil exige juros altos, que inibem investimentos, reduzem o crescimento e pioram a arrecadação. Em vez de atacar gastos, o governo tem buscado ajuste majoritariamente via aumento de impostos, o que agrava a percepção de risco.
Além disso, decisões políticas e jurídicas imprevisíveis ampliam a insegurança institucional, dificultando o planejamento empresarial e afastando capital estrangeiro.
Três caminhos para não perder a oportunidade
Especialistas apontam três frentes essenciais para que o Brasil aproveite sua posição geopolítica:
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Ajuste fiscal pela contenção de gastos, com plano crível de longo prazo;
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Segurança jurídica, evitando mudanças abruptas e retroativas nas regras;
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Estratégia industrial coordenada, especialmente para minerais críticos, integrando governo, academia e setor privado.
A janela de oportunidade é estreita. Países como Austrália, Chile e Vietnã já avançam em cadeias alternativas à China. Sem reformas estruturais e visão estratégica, o Brasil corre o risco de assistir, mais uma vez, à história passar diante de seus olhos.
