
Indígenas estavam peso no protesto nesta manhã, na capital paraense – Foto: Lúcia Müzell/RFI
Milhares de pessoas tomaram as ruas de Belém neste sábado (15) na retomada da Marcha Global pelo Clima. O ato, tradicional durante as Conferências da ONU sobre Mudanças Climáticas, voltou a ocorrer em formato presencial após quatro anos suspenso por pandemia e por edições anteriores realizadas em países com restrições a manifestações.
Com forte presença de povos indígenas de toda a Amazônia, a marcha percorreu 4,5 quilômetros entre o Mercado de São Brás e a Aldeia Amazônica — onde cerca de 3 mil representantes de comunidades tradicionais participam da COP30 e da Cúpula dos Povos. As ministras Marina Silva e Sonia Guajajara acompanharam o cortejo.
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Grupos de diversas etnias do Acre — como Kuni Kuin, Puyanawa, Shanenawa, Yura e Nawa — chegaram a Belém exclusivamente para participar do ato. “Somos homens, mulheres, crianças e quilombolas pedindo justiça social, justiça climática e a demarcação das nossas terras. O presidente Lula tem a chance de mostrar ao mundo que se importa com quem resiste há mais de 500 anos”, afirmou Cristiane Puyanawa, que fez críticas duras à exploração indevida nas regiões indígenas. “A floresta não é mercadoria e merece respeito.”

“A floresta não é mercadoria e merece respeito”, disse Cristiane Puyanawa, à frente de indígenas do Acre. (15/11/2025) – Foto: Lúcia Müzell/RFI
Críticas ao governo e pressão por mudanças
Faixas e discursos direcionaram cobranças diretas ao governo federal. Manifestantes protestaram contra a possibilidade de exploração de petróleo na foz do Amazonas e questionaram a lentidão nas demarcações de terras. “Que contradição, tem dinheiro para o agro, mas não faz demarcação”, dizia um dos cartazes.
Para Jorbeson, um dos participantes, ainda há esperança de que a pressão popular mude o rumo das decisões. “Não podemos permitir que o bioma amazônico seja destruído. A mobilização pode fazer o governo recuar sobre o petróleo.”
Além das pautas ambientais, a marcha uniu causas sociais e humanitárias — de críticas ao agronegócio e hidrelétricas à defesa da Palestina. Movimentos sociais como MST, partidos de esquerda e congregações religiosas reforçaram o ato. “Mudem o sistema, não o clima”, estampava uma das faixas.
COP30 sob alerta e tensão
Enquanto a manifestação ocupava as ruas, o entorno do Centro de Conferências da Amazônia — onde ocorre a COP30 — registrava forte presença de militares e agentes da Força Nacional. As Nações Unidas demonstraram preocupação com a segurança após dois protestos indígenas terem causado distúrbios no local durante a semana.

Demarcação de terras é a principal reivindicação do movimento indígena durante manifestação realizada no sábado (15/11), durante a COP30, em Belém – Foto: Reprodução
A COP30 registra a maior participação indígena da história das Conferências: 360 credenciados. Ainda assim, lideranças cobram assento oficial nas negociações e mais agilidade do governo nas demarcações. Após o bloqueio pacífico realizado por indígenas Munduruku nesta sexta (14), Brasília prometeu acelerar a regularização de Sawré Muybu e Sawré Ba’pim, ambas no Pará.
A COP30 Não pode errar mais
A COP30 chegou a Belém prometendo ser “a COP das florestas”, mas, até agora, acumula tropeços difíceis de ignorar. Obras inacabadas, falhas de segurança, descontentamento de lideranças indígenas e discursos que não se traduzem em avanços concretos. Pior: enquanto o mundo cobra postura firme contra combustíveis fósseis, o próprio país-sede flerta com a expansão do petróleo na Amazônia.

Ativistas reivindicam acordos e soluções efetivas de governos na COP30 – Foto: Reprodução
A marcha deste sábado não foi apenas um protesto — foi um recado direto: a sociedade civil não aceitará uma COP30 de fachada. Se o Brasil quer liderar o debate climático, precisa agir com coerência. E agir rápido. Porque a crise climática não espera por discursos, por promessas nem por fotos oficiais. Espera por coragem — algo que ainda não apareceu na mesa de negociação.
