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Manaus no limite: calor, fumaça, desmatamento e uma frota que não para de crescer

Capital amazonense enfrenta temperaturas próximas dos 40°C, mais de 1 milhão de veículos, estiagens severas e os efeitos das queimadas e da perda de cobertura vegetal; enquanto o desmatamento ocupa espaço no debate, o reflorestamento ainda aparece de forma tímida na agenda pública.


Imagem criada por IA

Calor, trânsito, fumaça, estiagem e perda de floresta. Manaus enfrenta uma combinação de problemas que, embora tenham origens diferentes, se encontram no cotidiano de quem vive na maior cidade da Amazônia.

Com população estimada em 2,3 milhões de habitantes, a capital amazonense já ultrapassou a marca de 1 milhão de veículos. Ao mesmo tempo, períodos de calor intenso e estiagem colocam pressão sobre a população, enquanto queimadas e desmatamento alteram a paisagem e contribuem para um cenário ambiental cada vez mais delicado.

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A discussão costuma se concentrar em uma pergunta: como impedir que a floresta seja destruída?

Mas existe outra questão que recebe menos espaço: o que está sendo feito para recuperar as áreas que já foram degradadas?

O calor de uma cidade cada vez mais urbanizada

O calor sempre fez parte da vida em Manaus. Mas os registros meteorológicos mostram episódios de temperaturas excepcionalmente elevadas.

Em setembro de 2023, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) registrou 39,3°C na capital. Naquele mês, a média das temperaturas máximas chegou a 36,9°C.

O problema não pode ser atribuído exclusivamente ao desmatamento ou à urbanização. O clima amazônico é influenciado por diversos fatores. Porém, a transformação da cobertura vegetal e a expansão das áreas urbanizadas modificam condições locais como sombra, umidade e circulação de calor.

Na prática, uma cidade que cresce com mais concreto, asfalto e veículos precisa lidar com uma questão adicional: como criar ambientes urbanos capazes de suportar temperaturas cada vez mais elevadas?

Mais de 1 milhão de veículos nas ruas

O crescimento urbano também aparece na frota.

Manaus já possui mais de 1 milhão de veículos registrados. Em 2025, o IMMU informou que aproximadamente 339 mil eram motocicletas.

A evolução da frota chama atenção porque ocorre em uma cidade cuja estrutura viária precisa absorver diariamente milhões de deslocamentos.

E a tendência recente indica que a quantidade de veículos continuará crescendo.

Se o ritmo aproximado de 4 mil novos veículos por mês, informado pelo IMMU em 2025, permanecesse constante, seriam cerca de 48 mil veículos adicionais por ano.

Nesse exercício matemático, uma frota pouco acima de 1 milhão poderia ultrapassar 1,2 milhão em aproximadamente quatro anos.

Não se trata de uma previsão oficial. É apenas uma projeção baseada na manutenção do ritmo observado.

O número real dependerá de fatores como crescimento econômico, transporte público, políticas de mobilidade, emplacamentos, transferências e retirada de veículos de circulação.

O desmatamento por trás da fumaça

Quando Manaus amanhece coberta por fumaça, a atenção naturalmente se volta para as queimadas.

Mas o fogo é apenas uma parte de uma cadeia ambiental mais ampla.

Antes de uma área virar foco de incêndio, pode ter ocorrido retirada da vegetação, abertura de áreas, degradação florestal ou mudança no uso do solo.

O desmatamento na Amazônia é monitorado por sistemas de satélite, como o PRODES e o DETER, coordenados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Esses sistemas permitem acompanhar tanto a perda consolidada de floresta quanto alertas de alterações na cobertura vegetal.

O ponto central é que uma floresta derrubada não desaparece apenas no momento em que as árvores são cortadas. A perda da cobertura vegetal modifica o solo, o ciclo da água, a biodiversidade e a capacidade daquela área de prestar serviços ambientais.

E, quando a vegetação permanece seca durante períodos prolongados, o risco de incêndios aumenta.

A floresta também funciona como infraestrutura

Existe uma maneira diferente de olhar para a floresta.

Ela não é apenas uma área que precisa ser protegida contra o desmatamento. É também uma espécie de infraestrutura natural.

Árvores armazenam carbono, ajudam a proteger o solo, contribuem para a manutenção da umidade e participam do ciclo da água. A vegetação também oferece sombra e reduz temperaturas localmente.

Por isso, preservar uma floresta existente e recuperar uma área degradada são estratégias diferentes — e complementares.

Evitar o desmatamento impede uma perda. Reflorestar tenta recuperar parte do que já foi perdido.

E quem fala sobre reflorestamento?

É justamente aqui que existe um ponto pouco explorado no debate sobre o futuro de Manaus e da Amazônia.

Quando a discussão ambiental ganha destaque, os temas mais recorrentes costumam ser fiscalização, combate ao desmatamento, operações contra queimadas e preservação de áreas protegidas.

Todos são importantes.

O que são ilhas de calor e como impactam a região amazônica?

Mas existe uma segunda frente que deveria receber atenção proporcional: a recuperação das áreas degradadas.

O reflorestamento e a restauração florestal não substituem o combate ao desmatamento. Plantar árvores em uma área degradada não compensa automaticamente a destruição de uma floresta primária.

Uma floresta madura possui uma complexidade ecológica que não pode ser reproduzida rapidamente por uma plantação de mudas.

Ainda assim, recuperar áreas degradadas pode contribuir para recompor cobertura vegetal, proteger nascentes, reduzir erosão, recuperar habitats e aumentar a capacidade de determinados territórios de armazenar carbono.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas “quanto estamos conseguindo evitar que seja desmatado?”

Também deveria ser:

“quanto de área degradada estamos conseguindo recuperar?”

Reflorestar Manaus também significa repensar a cidade

A discussão sobre reflorestamento não precisa ficar restrita às áreas rurais.

Dentro de uma metrópole como Manaus, arborização urbana, recuperação de áreas verdes, proteção de igarapés e criação de corredores de vegetação também fazem parte de uma estratégia de adaptação ao calor.

Árvores nas ruas não resolvem o problema climático global, mas podem oferecer sombra, melhorar o conforto térmico e contribuir para a qualidade ambiental dos espaços urbanos.

A cidade poderia, portanto, discutir simultaneamente duas escalas:

recuperar a floresta que foi degradada e ampliar a cobertura vegetal onde a cidade já existe.

São problemas diferentes, mas que fazem parte da mesma discussão sobre adaptação.

Estiagem, rios baixos e uma floresta sob pressão

A estiagem acrescenta outra camada ao problema.

O nível do rio Negro e de outros rios amazônicos é acompanhado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), que tem alertado para os efeitos dos períodos de vazante sobre comunidades, transporte e atividades econômicas.

Quando a seca se intensifica, a vegetação também pode ficar mais vulnerável ao fogo.

É nesse momento que desmatamento, degradação florestal, seca e queimadas passam a se relacionar.

Não significa que uma única causa explique todos os eventos. Significa que diferentes fatores podem se reforçar em determinadas condições.

Uma conta que precisa incluir a floresta

Manaus cresceu. A população aumentou. A frota aumentou. A área urbana se expandiu.

Agora, a cidade precisa discutir como crescer sem ampliar indefinidamente a pressão sobre o ambiente.

Isso envolve transporte público, planejamento urbano, arborização, proteção de áreas verdes, saneamento, controle das queimadas e fiscalização do desmatamento.

Mas também envolve uma pergunta que ainda aparece pouco nas conversas cotidianas:

quanto precisamos reflorestar?

A resposta não é simplesmente plantar milhões de árvores.

É necessário saber onde, quais espécies, com qual objetivo, quem fará a manutenção e como medir se a floresta realmente está se recuperando.

Uma área restaurada não é apenas uma quantidade de mudas colocadas no solo. É um processo que pode levar décadas e que exige acompanhamento.

O desafio dos próximos anos

Manaus entra nos próximos anos diante de uma equação complexa.

Uma população de aproximadamente 2,3 milhões de habitantes.

Uma frota que já supera 1 milhão de veículos.

Temperaturas que podem se aproximar dos 40°C.

Períodos de estiagem cada vez mais relevantes para a logística e a vida econômica da região.

Queimadas que podem deteriorar a qualidade do ar.

E uma Amazônia que continua enfrentando a pressão do desmatamento e da degradação.

Nesse cenário, preservar o que ainda existe é fundamental.

Mas recuperar o que já foi perdido também precisa entrar na equação.

Porque combater o desmatamento é impedir que a floresta desapareça.

Reflorestar é tentar fazer com que ela volte.

E, para uma cidade que vive diariamente os efeitos do calor, da fumaça e da perda de cobertura vegetal, talvez a pergunta para os próximos anos não seja apenas quanto a Amazônia conseguirá preservar.