
Foto: Reprodução/Rede Globo
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O Brasil chegou a uma dívida bruta do governo geral de R$ 11,055 trilhões em agosto de 2026, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Ao mesmo tempo, milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso adequado à coleta de esgoto, uma deficiência que expõe desigualdades regionais e coloca o saneamento básico entre os principais desafios da infraestrutura nacional.
Os dados do Banco Central mostram que o endividamento inclui obrigações do governo federal, do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e dos governos estaduais e municipais. Já os indicadores de saneamento do Ministério das Cidades revelam que a cobertura dos serviços permanece bastante desigual entre as unidades da Federação.
O contraste entre os números coloca em evidência uma questão central para o país: como conciliar a sustentabilidade das contas públicas com a necessidade de ampliar investimentos em serviços essenciais, especialmente nas regiões historicamente menos atendidas?
Dívida pública chega a R$ 11 trilhões
Segundo os dados divulgados pelo Banco Central em 30 de setembro, referentes a agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral avançou de R$ 10,947 trilhões em julho para R$ 11,055 trilhões em agosto.
O montante corresponde a 82,9% do PIB, indicador utilizado para dimensionar o tamanho do endividamento em relação à economia brasileira. Entre os fatores que contribuíram para a elevação mensal estão os juros nominais e os efeitos das variações econômicas sobre a dívida.
A dívida pública não representa, por si só, dinheiro que poderia ser integralmente destinado a obras de infraestrutura. Ela reúne obrigações financeiras acumuladas pelo setor público e seu comportamento depende de receitas, despesas, juros, crescimento econômico e operações de financiamento.
Ainda assim, o custo de manutenção do endividamento é relevante para a discussão sobre o espaço fiscal disponível para investimentos. Quanto maior a pressão dos juros e das despesas obrigatórias sobre as contas públicas, maior o desafio de conciliar diferentes necessidades do Estado.
Falta de esgoto atinge milhões de brasileiros
Enquanto os indicadores fiscais alcançam cifras trilionárias, os dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), do Ministério das Cidades, mostram que apenas 59,7% da população brasileira era atendida por redes coletoras de esgoto no levantamento de 2024.

Foto: Arquivo/Fernando Frazão/Agência Brasil
Isso significa que aproximadamente quatro em cada dez brasileiros não contavam com atendimento por rede coletora, conforme o indicador utilizado pelo sistema.
A situação é ainda mais preocupante nas áreas rurais: apenas 5,6% da população rural estava atendida por redes de esgoto, ante 67,5% da população urbana.
A diferença evidencia que a precariedade do saneamento não está restrita às periferias das grandes cidades. Comunidades rurais, localidades isoladas e municípios de menor porte também enfrentam obstáculos para ampliar a infraestrutura de coleta e tratamento.
É importante distinguir a ausência de rede coletora da ausência total de esgotamento sanitário adequado: algumas residências utilizam soluções individuais, como fossas sépticas. Por isso, os indicadores precisam ser analisados de acordo com a metodologia de cada levantamento.
Norte concentra os estados com menor cobertura
Os dados do SINISA de 2024 apontam que a Região Norte apresenta o menor índice de atendimento da população total por redes coletoras de esgoto: 22,8%. No Nordeste, a cobertura chega a 33,8%.
No outro extremo, o Sudeste registra 80,8%, evidenciando uma disparidade significativa entre as regiões brasileiras.

Moradores sofrem com problemas de falta de saneamento básico na localidade de Sol Nascente, a 30 km de Brasília – Foto: Jorge William/Agência O Globo
Entre os estados com os menores índices de atendimento por rede coletora estão:
- Amapá: 4,9% da população atendida.
- Acre: 8,8%.
- Rondônia: 11,7%.
- Pará: 17,3%.
- Pernambuco: 21,0%.
- Bahia: 25,8%.
- Paraíba: 29,5%.
- Maranhão: 29,9%.
Os percentuais correspondem ao indicador de atendimento da população total com rede coletora de esgoto do SINISA 2024. Não devem ser confundidos com o percentual de domicílios ligados à rede geral, utilizado em levantamentos do IBGE.
Os números revelam que o problema é particularmente grave na Região Norte, onde a dispersão territorial, as dificuldades logísticas e a infraestrutura insuficiente representam desafios para a expansão dos serviços. No Nordeste, a baixa cobertura também afeta milhões de pessoas, embora haja diferenças importantes entre estados e municípios.
Amapá, Acre e Rondônia estão entre os mais afetados
O Amapá apresenta o menor percentual de atendimento por rede coletora entre os estados listados no levantamento, com apenas 4,9%. Na prática, isso significa que a cobertura por esse tipo de infraestrutura alcança uma parcela muito pequena da população.
No Acre, o índice é de 8,8%, enquanto Rondônia registra 11,7%. O Pará também enfrenta um déficit expressivo, com 17,3% de atendimento.
Esses indicadores reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à expansão das redes, à implantação de sistemas de tratamento e à melhoria da gestão dos serviços de saneamento.
No Nordeste, Pernambuco apresenta cobertura de 21%, seguido pela Bahia, com 25,8%. Maranhão, Paraíba e outros estados também registram índices inferiores a um terço da população, segundo os dados do sistema nacional.
Os números, porém, não significam que toda a população sem rede coletora esteja necessariamente sem qualquer solução sanitária. A situação de cada localidade depende da existência e da adequação de alternativas individuais, além da coleta e do tratamento efetivo dos resíduos.
Falta de saneamento tem consequências para a saúde pública
A ausência de esgotamento sanitário adequado aumenta o risco de contaminação do solo e dos recursos hídricos, além de favorecer a disseminação de doenças relacionadas à água e às condições ambientais.
Em localidades sem infraestrutura suficiente, o despejo inadequado de resíduos pode atingir igarapés, rios, lagos e outras fontes utilizadas pelas comunidades. Os impactos são especialmente relevantes em regiões onde parte da população depende diretamente dos recursos naturais para abastecimento, alimentação e atividades econômicas.
A falta de saneamento também afeta a qualidade de vida, a preservação ambiental e o desenvolvimento urbano. Para reverter esse cenário, não basta construir redes: é necessário garantir tratamento adequado, manutenção dos sistemas e continuidade dos serviços.
Dívida e saneamento: o desafio das prioridades públicas
O endividamento de R$ 11,055 trilhões e os baixos índices de cobertura de esgoto expõem dois desafios distintos, mas importantes para a administração pública: manter as contas sustentáveis e assegurar serviços essenciais à população.
Não existe uma relação direta que permita afirmar que o valor total da dívida poderia ser convertido em obras de saneamento. O endividamento é um estoque de obrigações financeiras, enquanto os investimentos em infraestrutura dependem de recursos orçamentários, planejamento, capacidade de execução e participação dos governos federal, estaduais e municipais.
O debate, portanto, envolve a eficiência dos gastos, a definição de prioridades, a capacidade de investimento e a busca por fontes de financiamento que permitam ampliar a infraestrutura sem comprometer a sustentabilidade fiscal.
O Brasil possui metas de universalização do saneamento estabelecidas pelo marco legal do setor, mas os indicadores mostram que o caminho ainda é longo, especialmente nos estados com menor cobertura.
A distância entre os números da dívida e a realidade enfrentada por comunidades sem coleta de esgoto reforça a dimensão do desafio: garantir que o planejamento econômico e as políticas de infraestrutura produzam melhorias concretas nas condições de vida da população.
Fontes consultadas
1. Banco Central do Brasil (BCB) — Dados sobre a dívida bruta do governo geral em agosto de 2026, que atingiu R$ 11,055 trilhões, equivalentes a 82,9% do PIB. Link: UOL Economia — Dívida bruta do governo sobe para 82,9% do PIB em agosto
2. Ministério das Cidades — Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) — Relatório de esgotamento sanitário de 2024, utilizado para os dados de atendimento por redes coletoras no Brasil e nos estados. Link: Relatório SINISA 2024 — Esgotamento Sanitário (PDF)
3. Agência Brasil — Informações sobre a proporção de domicílios brasileiros sem ligação à rede geral de esgoto, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Link: Agência Brasil — Três em cada dez residências não têm esgoto ligado à rede geral
4. Instituto Trata Brasil — Análise das desigualdades regionais no acesso à coleta e ao tratamento de esgoto, com destaque para os estados da Região Norte. Link: Instituto Trata Brasil — Estados do Norte apresentam os piores índices de esgoto
