
Os parteiros da Embrapa: na cabeceira, o ex-ministro Luiz Fernando Cirne Lima. Na esquerda dele, Ezelino Alonso de Araújo Arteche, Secretário Geral do Ministério. Depois, o ex-ministro Reinholds Stephanes, Ivan Turgueneff Cajueiro, José Irineu Cabral, primeiro presidente da Embrapa, Ubirajara Timm, Eliseu Alves e Roberto Meireles do DNPEA – Foto: Reprodução
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) foi fundada oficialmente em 26 de abril de 1973, durante o governo do presidente da República Emílio Garrastazu Médici (1969–1974). O idealizador e primeiro diretor-presidente da instituição foi José Irineu Cabral. Vinculada ao então Ministério da Agricultura — hoje Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) —, a Embrapa nasceu em um momento estratégico da história nacional, quando o Brasil ainda dependia da importação de alimentos e enfrentava grandes desafios para produzir em larga escala em solos e climas tropicais.
Ao contrário do que muitos imaginam, a Embrapa não foi criada de forma abrupta. Sua “pré-história” remonta a 1965, quando ideias fundamentais começaram a ser gestadas em universidades norte-americanas como Wisconsin e Purdue. Foi nesse ambiente que o economista e sociólogo José Pastore, então doutorando, e o economista agrícola Eliseu Alves passaram a estudar profundamente os modelos internacionais de pesquisa agrícola, inovação tecnológica e formação de capital humano que impulsionavam a chamada Revolução Verde em países como Estados Unidos, México, Índia e Filipinas.
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Inspirados por pensadores como Theodore Schultz, prêmio Nobel de Economia, e por teorias como a da Inovação Induzida, de Yujiro Hayami e Vernon Ruttan, Pastore, Alves e outros pesquisadores brasileiros concluíram que o maior gargalo da agricultura nacional não era a falta de terra ou de clima favorável, mas sim a escassez de conhecimento científico aplicado às condições tropicais.
De volta ao Brasil, no fim da década de 1960, esse grupo passou a atuar na modernização das instituições ligadas ao agro, especialmente na Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural (ABCAR), no Rio de Janeiro. Foi ali que se formou o núcleo técnico que, anos depois, daria origem à Embrapa. A convicção era clara: não adiantava fortalecer a extensão rural se não houvesse pesquisa de qualidade para gerar tecnologias adaptadas à realidade brasileira.
O projeto ganhou tração política a partir de 1972, quando o então ministro da Agricultura, Luis Fernando Cirne Lima, abraçou a proposta. Jovem, com sólida formação acadêmica e visão estratégica, Cirne Lima entendeu que a ocupação produtiva do Cerrado e do entorno da Amazônia era uma questão não apenas econômica, mas também de soberania nacional, em plena Guerra Fria. O plano recebeu apoio decisivo dos ministros Delfim Netto, da Fazenda, e João Paulo dos Reis Velloso, do Planejamento, que garantiram os recursos necessários para sua implementação.
A Lei nº 5.851, sancionada em 7 de dezembro de 1972, autorizou a criação da Embrapa, cujos estatutos foram aprovados em março de 1973. Desde o início, a instituição adotou um princípio considerado crucial para seu sucesso: o mérito técnico como critério absoluto de seleção. A lógica era simples e poderosa — investir pesadamente na formação de pesquisadores, no Brasil e no exterior, e blindar a pesquisa de indicações políticas.
O resultado foi uma revolução silenciosa. A Embrapa desenvolveu variedades de sementes adaptadas ao clima tropical, técnicas de correção e manejo de solos ácidos, sistemas de fixação biológica de nitrogênio e métodos sustentáveis de controle de pragas. O Cerrado brasileiro, antes considerado improdutivo, transformou-se em uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo.
Hoje, com 43 unidades de pesquisa espalhadas pelo país, a Embrapa atua em áreas como melhoramento genético vegetal e animal, biotecnologia, agricultura sustentável, segurança alimentar e adaptação às mudanças climáticas. Graças às suas pesquisas, o Brasil tornou-se um dos maiores produtores e exportadores globais de alimentos como soja, milho, carnes, café e algodão.
Os impactos extrapolam o campo. O avanço tecnológico promovido pela Embrapa contribuiu para a geração de empregos, renda e desenvolvimento regional, consolidando o agronegócio como um dos pilares da economia nacional. Atualmente, o Brasil produz alimentos suficientes para atender às necessidades calóricas de cerca de 900 milhões de pessoas, o equivalente a aproximadamente 11% da população mundial.
Ao completar mais de cinco décadas de atuação, a Embrapa permanece como um dos exemplos mais bem-sucedidos de política pública baseada em ciência, planejamento e investimento em capital humano. Como destacou José Pastore, o segredo de sua longevidade está em uma regra simples e rara no setor público brasileiro: “na pesquisa, só entra quem tem mérito comprovado”. Foi essa escolha que permitiu à Embrapa não apenas acompanhar o desenvolvimento agrícola mundial, mas liderar a agricultura tropical sustentável.

Ex-presidente, Emílio Garrastazu Médici – Presidente do Brasil, eleito pelo Congresso Nacional, exerceu o cargo entre 30 de outubro de 1969 e 15 de março de 1974 – Foto: Reprodução
Principais marcos da Embrapa
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Criação legal: Lei nº 5.851, de 7 de dezembro de 1972
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Instalação oficial: 26 de abril de 1973
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Primeiro diretor-presidente: José Irineu Cabral
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Estrutura atual: 43 unidades de pesquisa no Brasil
Fontes de referência
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Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – Site institucional
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Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA)
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Pastore, José. A história da Embrapa que ninguém contou – Folha do Meio Ambiente, 2025
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Embrapa (2018). Visão 2030: O futuro da agricultura brasileira
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Alves, E.; Contini, E.; Gasques, J. (2012). Transformações da agricultura brasileira e o papel da pesquisa agropecuária
