O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia 2026 sob forte pressão política, diante de um Congresso cada vez mais independente, sucessivas derrotas em votações estratégicas e dificuldades persistentes na articulação com sua base parlamentar. No último ano do mandato, a tendência é de prolongamento do clima de tensão entre Executivo e Legislativo, agravado pelo calendário eleitoral e por mudanças iminentes na Esplanada dos Ministérios.
Após três anos marcados por impasses no Parlamento, o governo enfrenta um período crítico entre fevereiro e abril, quando cerca de metade dos ministros deverá deixar os cargos para disputar eleições. Entre eles está Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política desde março de 2025. O movimento coincide com trocas nas presidências da Câmara e do Senado, ampliando a incerteza sobre a governabilidade.
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O presidente da Câmara, Hugo Motta, a frente de um congresso que impõe limites ao Planalto – Foto: Reprodução
Analistas ouvidos avaliam que a opção do Planalto por endurecer o discurso à esquerda, confrontar o Congresso e recorrer com frequência ao Supremo Tribunal Federal contribuiu para deteriorar o ambiente político. Propostas consideradas prioritárias foram derrotadas, adiadas ou esvaziadas, cenário que aliados atribuem à fragilidade da coordenação política do Executivo.
O próprio Lula reconheceu o problema em dezembro, ao admitir que o governo “não teve capacidade de convencer” parte dos parlamentares. O distanciamento tornou-se público em novembro, quando os presidentes da Câmara e do Senado não compareceram à sanção do projeto que ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda. O gesto foi interpretado como sinal inequívoco de desgaste institucional.
A relação seguiu se deteriorando em 2026. Os chefes das duas Casas também se ausentaram da cerimônia que marcou os três anos dos atos de 8 de janeiro, ocasião em que Lula vetou integralmente o projeto que alterava a dosimetria das penas. Pesaram para o afastamento o descontentamento do presidente da Câmara, Hugo Motta, com a judicialização recorrente de decisões do Legislativo, e a insatisfação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, com a indicação de Jorge Messias ao STF.
Mesmo com a intensificação das negociações com partidos do Centrão desde o fim de 2025 — incluindo a aceleração da liberação de emendas parlamentares —, o Congresso tem se mostrado disposto a impor limites ao Executivo. Na avaliação da oposição, o governo errou ao insistir na polarização e afastar o Parlamento das decisões centrais, abrindo espaço para vitórias da direita, mesmo em minoria.
Troca na articulação não conteve desgaste
A entrada de Gleisi Hoffmann no comando da articulação política não reverteu o quadro. Líderes partidários relatam que o clima de confronto se agravou após a saída de Alexandre Padilha. Parlamentares de União Brasil, Republicanos e PSD afirmam que o governo não cumpre acordos, falha na execução orçamentária e mantém postura ideológica nas negociações.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, do Ibmec-BH, Lula passou a assumir de forma explícita uma agenda de esquerda mais dura, reforçada por alianças como a aproximação com Guilherme Boulos. Já o professor Elton Gomes, da UFPI, destaca que o avanço do Congresso sobre o Orçamento e a judicialização da política esvaziaram o presidencialismo de coalizão tradicional.
Ano eleitoral amplia instabilidade
O cenário se complica com a debandada ministerial prevista para os próximos meses. Além de Gleisi, ministros como Rui Costa, Fernando Haddad e Ricardo Lewandowski avaliam deixar o governo para disputar cargos eletivos, o que tende a fragmentar ainda mais a coordenação interna.
No Congresso, também são esperadas mudanças nas lideranças partidárias, tanto na Câmara quanto no Senado, em meio a disputas internas e reposicionamentos estratégicos para 2026.
Especialistas avaliam que a reformulação ministerial deve servir mais para administrar tensões do que para reconstruir uma base sólida. Na reta final do mandato, Lula tem recorrido à mobilização da opinião pública e ao discurso de confronto para tentar destravar sua agenda. Parlamentares, porém, alertam que a estratégia aprofunda o isolamento do Planalto e reduz as chances de reversão do quadro político até as eleições.
