
Homens armados aliados ao Hamas patrulham um campo de refugiados em Gaza – Foto: Reprodução (Getty Images)
Após o cessar-fogo com Israel, o Hamas intensificou suas ações militares e políticas para consolidar o controle absoluto sobre a Faixa de Gaza, recorrendo a execuções públicas, patrulhas armadas e confrontos diretos com grupos rivais. A movimentação estratégica do grupo visa eliminar a influência de milícias e clãs que desafiam sua autoridade, especialmente após meses de ofensiva israelense e colapso institucional no território.
Imagens verificadas mostram execuções sumárias promovidas por combatentes do Hamas em vias públicas da Cidade de Gaza — parte de uma campanha ostensiva contra o que o grupo chama de “anarquia” provocada por rivais. Em um dos vídeos, oito homens foram mortos a tiros diante de uma multidão, após serem acusados de colaborar com o inimigo.
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Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, declarou que seu governo poderá intervir diretamente caso o Hamas não se desarme “dentro de um prazo razoável”. “Se eles não o fizerem, nós o faremos por eles”, afirmou em entrevista na terça-feira (14). Apesar da ameaça, o presidente reconheceu que, no momento, o grupo é a única força de segurança operacional na região.
Combate interno e demonstração de força
Desde o início do cessar-fogo mediado pelos EUA, forças internas do Hamas, com insígnias oficiais e armamento pesado, passaram a patrulhar os bairros de Gaza. Em bairros como Zeitoun — que até recentemente era palco de ofensivas terrestres israelenses — o grupo retomou o controle total e eliminou opositores ligados a clãs armados.
O clã Dughmush, envolvido há anos em atividades de contrabando e tráfico na região, é um dos principais alvos da atual campanha do Hamas. Confrontos recentes entre o grupo extremista e o clã resultaram em mais de 50 mortes, incluindo 12 combatentes do próprio Hamas.
“Acredito que o Hamas está mobilizando seus recursos internos e militares para consolidar sua autoridade e eliminar qualquer resistência interna”, afirmou o professor Fawaz Gerges, da London School of Economics. “Eles têm mais experiência, mais armamento e um objetivo claro: o controle absoluto.”

As forças policiais do Hamas voltaram para patrulhar as ruas de Gaza com o cessar-fogo – Foto: Reprodução (Getty Images)
Execuções e temor da população civil
As execuções públicas, no entanto, têm gerado reações intensas entre a população palestina. Em declarações à BBC, moradores locais expressaram indignação com o que consideram uma “anarquia institucionalizada”.
“Sem provas, sem julgamento, sem direito a defesa. Isso não é resistência, é barbárie”, disse um advogado residente em Gaza. “Estamos substituindo um inimigo externo por tiranos internos.”
Vídeos analisados pela equipe da BBC Verify revelam combatentes mascarados do Hamas atirando contra civis desarmados e impondo uma atmosfera de medo nas ruas. Em um dos registros, um homem é forçado a se ajoelhar e é baleado na perna em plena luz do dia, enquanto testemunhas são obrigadas a observar.
A BBC Verify também fez a geolocalização da gravação e descobriu que o vídeo teria sido feito em um cruzamento no bairro central, Zeitoun, na Cidade de Gaza, que foi foco de uma grande ofensiva terrestre israelense nas últimas semanas, mas agora está de novo sob o controle do Hamas após a retirada militar israelense.

Um vídeo publicado na segunda-feira (13/10) mostrava um grupo de combatentes do Hamas executando um grupo de oito homens – Foto: Reprodução
Rivais armados e apoio externo
Enquanto o Hamas tenta centralizar o poder, outros grupos armados continuam ativos, principalmente em zonas sob controle das Forças de Defesa de Israel (FDI). Relatórios indicam que Israel pode ter fornecido armamento a clãs rivais para contrabalançar a influência do Hamas.
Dois desses grupos operam em áreas próximas às cidades de Rafah (sul) e Beit Hanoun (norte), onde ainda resistem à autoridade do grupo extremista.
Washington reconhece controle de fato
Apesar das ameaças de desarmamento, o governo dos EUA reconheceu, ao menos temporariamente, a atuação do Hamas como força de segurança local.
“O Hamas quer restabelecer a ordem, e demos a eles permissão por enquanto”, disse Trump. “Com milhões de pessoas tentando voltar a seus lares destruídos, precisamos garantir que isso ocorra com o mínimo de caos.”
Especialistas apontam que a alternativa seria o completo colapso da ordem na Faixa de Gaza.
“O Ocidente, apesar de sua oposição ideológica ao Hamas, reconhece que, no momento, o grupo é o único capaz de impor alguma estabilidade”, afirmou Gerges.
Com informações da BBC
