
Alexandre de Moraes e influnciadores digitais em evento no STF (Foto: Rosinei Coutinho/STF)
O que era para ser um encontro institucional entre influenciadores digitais e o Supremo Tribunal Federal se revelou, na prática, uma campanha articulada para restaurar a imagem da Corte – e, principalmente, de seus ministros mais expostos à crítica.
Em meio a um cenário de desgaste institucional e críticas internacionais, o Supremo Tribunal Federal (STF) promoveu, nos dias 14 e 15 de agosto, a segunda edição do evento “Leis e Likes: o papel do Judiciário e a influência digital”. A proposta oficial seria aproximar o Poder Judiciário da sociedade por meio de influenciadores digitais, mas a ação levanta preocupações sobre os limites éticos entre diálogo institucional e propaganda velada.
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O encontro reuniu 26 influenciadores, todos previamente escolhidos – a maioria com posicionamento favorável ao STF e ao governo federal. Críticos da Corte não foram incluídos, o que sugere uma seleção tendenciosa que coloca em xeque o compromisso com a pluralidade e o contraditório, pilares fundamentais em qualquer república democrática.
Aparente missão: reconstruir a imagem da Corte
A iniciativa ocorre num momento em que o STF enfrenta queda de popularidade no país e pressões externas, como a recente preocupação manifestada pela Casa Branca quanto a possíveis práticas de censura no Brasil. Nesse contexto, a presença de nomes como Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Flávio Dino – ministros que protagonizam os principais embates políticos e jurídicos da atualidade – reforça a leitura de que o evento pode ter tido como objetivo central o reposicionamento da imagem da Corte perante a opinião pública.
Dias após o encontro, uma série de publicações nas redes sociais por parte dos influenciadores deixou explícita a intenção de exaltar figuras da Corte, principalmente o ministro Alexandre de Moraes. Fotos, elogios e discursos de apoio se multiplicaram nas plataformas, sugerindo uma campanha coordenada, ainda que informal.
Entre selfies e slogans: o uso da influência para fins institucionais
Casos como o da influenciadora Nath Finanças, que publicou uma selfie com Moraes acompanhada da legenda “É claro que tirei foto com o terror dos bolsonaristas. SEM ANISTIA”, escancararam o tom militante adotado por parte dos participantes. Jackson Augusto, do canal Afrocrente, foi além ao classificar Moraes como o “maior defensor da democracia na atualidade”.

Reprodução/Instagram
Já a atriz Anaterra Oliveira utilizou a estrutura do evento para rebater acusações de autoritarismo judicial. Em vídeo, chegou a dizer que, se o Brasil vivesse uma ditadura, os críticos do STF sequer poderiam se expressar – uma justificativa frequentemente usada para negar excessos estatais.

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Apesar do tom institucional que muitos adotaram, poucos abordaram com seriedade os questionamentos públicos envolvendo a Corte, como a alegação de censura e judicialização da política. Entre as exceções, destaca-se o comediante Mizael Silva, que, mesmo de forma leve, fez perguntas diretas sobre a imparcialidade do STF, contrastando a celeridade dos processos contra Jair Bolsonaro com a lentidão em outros casos, como os relacionados ao INSS.

Reprodução: Instagram
Aspectos morais e éticos: até onde vai a neutralidade institucional?
A atuação do STF em convidar influenciadores com posições majoritariamente alinhadas politicamente levanta preocupações sobre a moralidade da ação. Uma Corte Constitucional deve prezar pela imparcialidade não apenas em suas decisões, mas também em sua comunicação com a sociedade. A escolha de vozes simpáticas e a exclusão deliberada de críticos contradizem os princípios republicanos de transparência, diversidade de ideias e neutralidade institucional.
Aos olhos da opinião pública, ações como essa podem reforçar a percepção de partidarização do Judiciário, agravando a crise de confiança nas instituições. O uso de influenciadores como instrumento de reabilitação pública também reacende o debate sobre até onde o Estado pode – ou deve – ir na tentativa de gerir sua imagem em tempos de redes sociais e polarização.
O evento “Leis e Likes” pode ter sido bem-sucedido em sua missão de “comunicação institucional”, mas deixa um rastro de dúvidas sobre os limites éticos da influência, da propaganda e do papel que o Judiciário deve desempenhar em uma democracia madura.
