
Estima-se que, no mínimo, 1,7 milhão delas morreram nos Gulags – Foto: Reprodução
O campo especial das ilhas Solovetsky, um arquipélago localizado no Mar Branco (norte da Rússia) conhecido por abrigar um complexo de mosteiros construído no século 15 pela igreja ortodoxa cristã, o local podia ser facilmente adaptado para se tornar um campo de prisioneiros que se opusessem ao regime bolchevique. Além de isolado, ele já contava com estruturas prontas — num contexto em que as propriedades da igreja haviam sido expropriadas pelo novo governo comunista.
Esse foi o primeiro gulag, nome que se tornaria sinônimo de terror político. A sigla, em russo, significa “Diretoria Central dos Campos” — Glavnoe Upravlenie Ispravitelno-trudovykh Lagerej. Entre os moradores da União Soviética, esses locais eram chamados apenas de “campos”. Até o encerramento dos últimos, em 1961, cerca de 18 milhões de pessoas passaram pelos gulags. Estima-se que, no mínimo, 1,7 milhão delas morreram — número comparável ao de vítimas de alguns dos mais cruéis campos de extermínio nazistas.
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Perm-36, localizada perto da vila de Kuchino, a cerca de 100 quilômetros da cidade de Perm – Foto: Francesca Ebel
KUCHINO, Rússia — Segredos eram proibidos no campo de Perm-36. Os guardas os procuravam por toda parte, até mesmo nos olhos, ouvidos e dentes dos prisioneiros. O poeta ucraniano Vasyl Stus, preso no sistema Gulag soviético por quase metade de sua vida, conseguiu manter seus segredos rabiscados em pedaços de papel e escondidos nas frestas de sua cela.
Mais tarde, eles foram contrabandeados para fora de Perm-36 por seus companheiros de cela libertados para espalhar a notícia sobre a repressão política na União Soviética e a angústia emocional do poeta enquanto ele era mantido em confinamento solitário.
“O regime policial atingiu o auge”, dizia um bilhete, escrito com um lápis apontado no chão da cela de Stus. “Eles apreendem tudo o que querem e perdemos o direito de sermos nós mesmos. Não sei quando a morte chegará para os outros, mas sinto que ela chegará para mim.”

Livro Biográfico “Vasyl Stus. Poeta e cidadão” – Foto: Reprodução
Poucos meses depois, em 1985, Stus foi encontrado morto em sua cela. Ele tinha acabado de ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura. Alguns acreditam que ele se enforcou, outros dizem que os guardas da prisão o mataram enquanto ele dormia.
O campo de trabalhos forçados foi fechado em 1988
Em todo o mundo , os horrores descritos no caderno de Stus são considerados um dos piores crimes contra a humanidade do século XX. O sistema Gulag atingiu seu auge entre as décadas de 1930 e 1950, matando mais de um milhão de pessoas, e os campos de trabalho forçado continuaram existindo até o final da década de 1980. Mas na Rússia de Vladimir Putin, Perm-36, o local da morte de Stus, é o tema de uma batalha feroz sobre o passado, o presente e o futuro do país.

Em 1985, Stus foi encontrado morto em sua cela – Foto: Reprodução
O totalitarismo em diferentes bandeiras
Embora os gulags tenham sido uma criação do regime comunista soviético, o conceito de campos de prisioneiros como instrumento de repressão política não foi exclusivo da União Soviética. O Terceiro Reich, sob o comando de Adolf Hitler, construiu a partir de 1933 uma complexa rede de campos de concentração, que se transformariam em centros de extermínio em massa como Auschwitz, Dachau e Treblinka.
A semelhança entre os dois sistemas vai além da brutalidade: ambos utilizavam o trabalho forçado como parte da máquina estatal, perseguiam intelectuais, religiosos, minorias étnicas e qualquer um que ousasse questionar o regime. Enquanto os nazistas adotaram uma lógica racista e eugenista para justificar seus horrores, o stalinismo utilizava a doutrina ideológica marxista-leninista para rotular dissidentes como “inimigos do povo” — uma expressão que justificava desde o isolamento até a execução sumária.
Os métodos se aproximavam: delações incentivadas, prisões arbitrárias, julgamentos forjados, tortura e assassinatos sistemáticos. E tal como o fascismo italiano de Mussolini, o stalinismo silenciava a imprensa, institucionalizava a propaganda e subordinava todas as esferas da sociedade ao partido único.
Fugas e execuções
Os primeiros prisioneiros dos gulags incluíam religiosos, comerciantes, camponeses, opositores da guerra civil e adeptos de ideologias rivais, como o anarquismo. Artistas também não escaparam: entre os detidos estavam o escritor Konstantine Gamsakhurdia, o pintor Osip Braz e o poeta A. K. Gorsky.

O sistema de campos de trabalhos forçados soviéticos é ainda pouco conhecido. A história do Gulag é longa, complexa e de certo modo fora do comum. Fugas eram frequentes, mas extremamente perigosas – Foto: RTP
Ao decidir encerrar o campo de Solovetsky em 1939, o regime soviético executou 1.116 presos com tiros na nuca — uma prática que lembra as execuções em massa realizadas pela SS nazista, como no massacre de Katyn (embora neste caso os autores tenham sido soviéticos). Outras centenas de presos foram deliberadamente afogadas com embarcações sabotadas.
A engenheira Yelizaveta Katz, grávida de oito meses, foi autorizada a dar à luz antes de ser executada três meses depois — um gesto de crueldade fria que ecoa os horrores cometidos por regimes totalitários de diferentes espectros ideológicos, onde a vida humana valia apenas enquanto servisse aos interesses do Estado.
Violência sistemática
O gulag evoluiu como uma ferramenta de engenharia social e de aniquilação política. Assim como os nazistas desenvolveram Auschwitz a partir de uma lógica industrial de extermínio, os soviéticos refinaram os métodos para administrar seus campos. Áreas remotas, onde a fuga era quase impossível, tornaram-se padrão. Os detentos eram submetidos a jornadas de trabalho de até 16 horas, com espancamentos frequentes e alimentação insuficiente.
Leonid Petrovich Bolotov, preso por “comportamento antissocial”, sobreviveu a 20 anos em Kolimá, uma das regiões mais temidas do sistema gulag. Assim como os judeus nos campos nazistas ou os etíopes submetidos à violência colonial do regime fascista italiano, esses prisioneiros eram reduzidos a números, privados de identidade e condenados à servidão ou à morte.

Prisioneiros do Gulag trabalhando em uma ferrovia na República de Komi – frio de 24 graus negativos – Foto: Reprodução
Escravidão moderna
A exploração econômica dos presos era outro ponto comum entre os regimes totalitários. Os campos soviéticos foram responsáveis por quase metade da produção nacional de metais preciosos durante a Segunda Guerra. Essa lógica, embora com objetivos distintos, lembra o uso do trabalho forçado em fábricas da Alemanha nazista, como nas instalações da IG Farben, onde prisioneiros trabalhavam até morrer.
Em Nazinsky, uma ilha na Sibéria, 6.700 prisioneiros morreram em 1933 por inanição, doenças e assassinatos. Casos documentados de canibalismo chocaram até oficiais do regime. Dentre os 6.700, apenas 2.200 sobreviveram — número que se equipara às piores estatísticas dos campos nazistas e dos campos de prisioneiros italianos na Líbia.
Herança sombria
Ao todo, cerca de 20 milhões de pessoas passaram pelos gulags até o fim da União Soviética, em 1991. Muitos foram condenados por motivos banais — como contar piadas sobre Josef Stalin. O sistema se estendia por dezenas de milhares de campos, com prisioneiros tratados como ferramentas descartáveis a serviço de uma utopia ideológica que, na prática, resultava em horror sistemático.
A comparação com o nazismo e o fascismo não relativiza os crimes de nenhum regime, mas ressalta um fato histórico incontestável: todas as formas de totalitarismo se nutrem do culto ao líder, do apagamento do indivíduo e da desumanização do “outro”. Seja à direita ou à esquerda, todo regime que oprime, silencia e mata em nome de uma ideia absoluta carrega as sementes do autoritarismo — e os campos de prisioneiros são sempre seu sintoma mais brutal.
GULAGS, NAZISMO E FASCISMO: AS ENTRANHAS DOS REGIMES TOTALITÁRIOS
1. ONDE TUDO COMEÇOU: ILHAS DE GELO E SANGUE
Solovetsky, 1923
Temperaturas de até -36,5°C
Mosteiros convertidos em campos de prisioneiros
Alvo: opositores políticos, religiosos e intelectuais
Comparação:
-
Assim como Dachau (Alemanha, 1933) e Campo de Lipari (Itália, 1926), os primeiros gulags foram experimentos de repressão “isolada” antes de se tornarem sistemas industriais de opressão.
2. O MECANISMO DA MORTE: RECURSOS HUMANOS DO TERROR
Estimativas de mortos:
-
Gulags soviéticos: 1,7 a 2 milhões
-
Campos nazistas: 6 milhões de judeus, + milhões de outras vítimas
-
Fascismo italiano: dezenas de milhares de mortos em Etiópia, Líbia e prisões internas
Métodos comuns:
-
Prisões arbitrárias
-
Delatores anônimos
-
Julgamentos forjados
-
Execuções sumárias
-
Trabalho forçado
Comparação:
-
O uso de mão de obra escrava nos gulags se assemelha à exploração feita pela IG Farben nazista, com prisioneiros tratados como peças descartáveis.
3. NAZINSKY, KOLIMÁ, AUSCHWITZ: MAPA DOS CAMPOS DE HORROR
Gulags soviéticos:
30 mil campos e subcampos
-
Nazinsky: 6.700 deportados, apenas 2.200 sobreviveram (1933)
-
Kolimá: trabalho forçado em minas de ouro por décadas
Campos nazistas:
-
Auschwitz: 1,1 milhão de mortos
-
Treblinka, Sobibor: campos de extermínio puro
Regime fascista:
-
Líbia: campos de concentração com uso de fome como arma
-
Ilhas italianas: exílio forçado para opositores políticos
4. QUEM ERAM AS VÍTIMAS?
- Religiosos
- Intelectuais
- Artistas e escritores
- Camponeses que resistiram à coletivização
- Pessoas que contaram piadas sobre o regime (!)
Exemplos:
-
Osip Braz (pintor russo)
-
Yelizaveta Katz (engenheira grávida, executada)
-
Judeus, comunistas, ciganos e homossexuais nos campos nazistas
-
Etíopes e opositores do fascismo sob Mussolini
5. LINGUAGEM DO TOTALITARISMO
Eufemismos oficiais:
-
“Reeducação pelo trabalho” (URSS)
-
“Campos de trabalho” (Alemanha)
-
“Pacificação colonial” (Itália fascista)
Elementos em comum:
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Culto ao líder
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Partido único
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Supressão da imprensa
-
Desumanização sistemática
-
Doutrinação e propaganda
6. LEGADO: NENHUM TOTALITARISMO É INOFENSIVO
20 milhões de pessoas passaram pelos gulags
Milhões nunca retornaram
Muitos foram presos por motivos banais – até uma piada virava sentença
Lição histórica:
Regimes autoritários — à direita ou à esquerda — constroem sua força na destruição da individualidade. O campo de prisioneiros é sua face mais brutal.
Os crimes por trás da “cortina de ferro” ao contrário dos crimes da Alemanha nazista, ficaram invisíveis aos olhos do mundo.

Legião dos Mutilados – livro aborda a crueldade, não dos nazistas e sim dos soviéticos, durante a 2ª guerra mundial – Foto: Reprodução
Milhares de obras foram escritas nos últimos 25 anos sobre as atrocidades cometidas pelo nazismo contra os judeus. Mas Legião dos Mutilados tem outro cenário, onde o autor confessa ter sido prisioneiro em campos de concentração: os programas da União Soviética, os campos de trabalhos forçados da Sibéria, onde o autor acusa um anti-semitismo tão formal como aquele que levou os nazistas a tamanhas atrocidades. “Os nazistas matavam em câmaras de gás, na Sibéria mantinham as pessoas trabalhando como mortos-vivos, mal nutridos, sob um frio inimaginável” comenta Bruckner.
