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Alemanha dissolve grupo de extrema direita antissemita que criou ‘reino’ paralelo com moeda e leis próprias

A organização “Reino da Alemanha” foi dissolvida nesta terça-feira (13) por rejeitar o Estado alemão, promover teorias conspiratórias antissemitas e atuar ilegalmente nos setores bancário e de seguros. Fundado em 2012 por Peter Fitzek, ex-instrutor de caratê que se autoproclamou rei, o “Königreich Deutschland” tem sede no leste da Alemanha, nas proximidades de Wittenberg, entre Berlim e Leipzig.


Peter Fitzek, o autoproclamado chefe do chamado “Reino da Alemanha” (Koenigreich Deutschland), posa para uma foto no portão de entrada, em Wittenberg, no leste da Alemanha, em 23 de outubro de 2023 – Foto: Jens Schlueter/AFP 

O chamado Reino da Alemanha foi fundado pelo ex-chefe de cozinha e professor de caratê Peter Fitzek, que se ungiu como “rei” em 2012 em uma cerimônia elaborada, com direito a coroa e cetro. Fitzek e seus “súditos” fazem parte de um movimento conhecido como Reichsbuerger (cidadãos do Reich), um grupo informal de extremistas e teóricos da conspiração que rejeitam a legitimidade da moderna república alemã.

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A dissolução é uma iniciativa do novo governo alemão que decidiu enfrentar o avanço das ideologias conspiracionistas e extremistas no país, proibindo nesta terça-feira (13) uma importante organização desse movimento, acusada de “atacar a ordem democrática”.

Foram realizadas operações de busca em sete regiões contra o chamado “Reino da Alemanha”, informou o Ministério do Interior do país. O grupo, que conta com cerca de 6.000 apoiadores, “nega a existência da República Federal da Alemanha” e “rejeita seu sistema jurídico”.

A organização “Reino da Alemanha” (“Königreich Deutschland” ou KRD) foi oficialmente proibida a partir desta terça-feira, pois “seus objetivos e atividades violam a legislação penal e contrariam a ordem constitucional”, explicou o ministério.

Com várias bases espalhadas pelo país, o grupo criou desde 2012 um “Estado paralelo” em território alemão e estabeleceu estruturas ligadas a crimes econômicos, declarou o ministro do Interior, Alexander Dobrindt.

Apesar de “não ser considerado especificamente um grupo armado” e de “nenhuma arma relevante ter sido apreendida até agora”, o movimento “não é formado apenas por nostálgicos inofensivos”, afirmou Dobrindt em entrevista coletiva.

Peter Fitzek, o autoproclamado chefe do chamado “Reino da Alemanha” (Koenigreich Deutschland), mostra documentos de identidade de "realeza" feitos por ele mesmo, em Wittenberg, no leste da Alemanha, em 23 de outubro de 2023.Peter Fitzek, o autoproclamado chefe do chamado “Reino da Alemanha” (Koenigreich Deutschland), mostra documentos de identidade de “realeza” feitos por ele mesmo, em Wittenberg, no leste da Alemanha, em 23 de outubro de 2023 – Foto: Jens Schlueter/AFP 

Bandeira e moeda próprias

Em entrevista à AFP no final de 2023, Fitzek apresentou seu “palácio” — um conjunto de prédios reformados onde hasteava sua bandeira, impunha suas leis, emitia moeda e carteiras de identidade. Ele afirmou ter fundado seu próprio Estado como forma de resistir àquilo que considera “manipulação em massa” na sociedade alemã.

Segundo ele, o grupo acolhe apoiadores com “espírito pioneiro” que “querem promover mudanças positivas no mundo”.

Peter Fitzek foi detido nesta terça-feira junto com outras três pessoas, incluindo membros fundadores da organização, que ao longo de cerca de dez anos criaram “estruturas e instituições pseudoestatais”, segundo o Ministério Público. Entre essas estruturas, há um sistema bancário e um esquema de seguros.

Teses de extrema direita e lembrança tenebrosa do “Reich” de Hitler

A operação mobilizou “centenas de agentes das forças de segurança” em todo o país, informaram as autoridades.

Considerado um grupo de “extremistas perigosos” pelo ministério, o “Königreich Deutschland” faz parte do movimento heterogêneo dos “Reichsbürger” (“Cidadãos do Reich”), que não reconhecem a autoridade do Estado nem a legitimidade das instituições. Alguns simpatizantes também defendem teses de extrema direita.

Muitos acreditam na continuidade do antigo Reich alemão anterior à Primeira Guerra Mundial, sob a forma de uma monarquia, que inspirou posteriormente personalidades como Adolf Hitler. Diversos grupos já declararam a criação de seus próprios “miniestados”.

Segundo a inteligência interna alemã, esse movimento contava com cerca de 23 mil membros em 2022. A Alemanha ainda abriga aproximadamente “outros 40” grupos que se autodenominam “reinos” ou “impérios”, afirmou o ministro Dobrindt.

“Conspiracionistas antissemitas”

De acordo com o Ministério do Interior, o “Reino da Alemanha” está “em expansão” há vários anos. Seus membros “baseiam sua alegada soberania em narrativas conspiracionistas de caráter antissemita”, algo considerado “intolerável em um Estado de direito”.

A organização também possui objetivos lucrativos e conduz, há anos, atividades bancárias e de seguros de maneira ilegal por meio de suas estruturas paralelas.

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A nova coalizão governamental, liderada pelo chanceler conservador Friedrich Merz e empossada na semana passada, enfrenta o avanço das ideologias de extrema direita.

O partido AfD (Alternativa para a Alemanha), de extrema direita, tornou-se a principal força de oposição no Parlamento após registrar um resultado recorde nas eleições legislativas de fevereiro.

Durante o governo anterior, de Olaf Scholz, diversas organizações ligadas aos “Reichsbürger” foram desmanteladas, muitas vezes com apreensão de armas. A operação desta terça-feira estava sendo planejada “há alguns meses”, afirmou o novo ministro.

Plano era “derrubar as instituições democráticas”

O caso mais notório relacionado aos “Cidadãos do Reich” veio à tona em dezembro de 2022, quando autoridades desarticularam um grupo armado que planejava derrubar as instituições democráticas do país.

Entre os envolvidos estavam um príncipe, Heinrich XIII, ex-soldados de elite e uma ex-deputada de extrema direita que atualmente responde na Justiça.

Outro grupo chegou às manchetes após planejar o sequestro do ministro da Saúde, Karl Lauterbach, como forma de protesto contra as medidas sanitárias adotadas durante a pandemia de Covid-19.

(Com AFP)