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Possível ‘retorno de Trump’ à Casa Branca mais ‘organizado’

O ex-presidente transformou a sua "foto de réu", a primeira de um ex-presidente dos Estados Unidos na História, em um artigo de propaganda para a corrida presidencial de 2024.


“Socorro, Trump está de volta” é o título da reportagem de seis páginas da revista semanal francesa L’Express, que afirma que “a um ano da eleição presidencial americana, a hipótese provável de um retorno do ex-presidente faz o mundo inteiro suar frio”, publica o veículo neste fim de semana.

Trata-se da “eleição que ninguém queria”, a “volta de Trump”, o combate entre um “presidente octogenário, Biden, com seu antecessor, Trump, de 78 anos”. “Normalmente, os norte-americanos adoram um coming back, este verdadeiro arquétipo hollywoodiano do tipo Rocky Balboa, mas, desta vez, os lutadores voltam ao ringue exaustos e exaustivos”, diz a revista francesa L’Express.

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Trump está 33 pontos à frente de DeSantis e lidera com folga nos estados que abrirão as prévias (Iowa e New Hampshire) – Foto: reprodução

“Ninguém quer reviver a eleição de 2020, ela foi a pior de nossa história”, diz Luke Mogelson à publicação, ele é autor do livro ‘América encolerizada’. “Essa política enoja todo mundo. Os democratas lamentam a fragilidade do ‘grandfather’ Biden e uma grande parte dos republicanos não aguenta mais o circo de Trump”, afirma o autor.

Mas, segundo uma pesquisa entre seis estados decisivos dos Estados Unidos do dia 5 de novembro, nesse momento é Donald Trump quem lidera a disputa eleitoral. Segundo as intenções de voto recolhidas, em cinco desses estados – conhecidos como ‘swing states’ – Trump teria de 4 a 10 pontos de vantagem sobre Biden.

“Nem mesmo os problemas judiciários vividos por Trump não param sua ascensão”, destaca o L’Express. “É estranho, mas os três processos contra ele o favorizam”, analisa Laurence Nardon, do Instituto Francês de Relações Internacionais. “Durante a campanha, ele vai posar de vítima das elites, do Estado autoritário e da administração Biden, e, conforme o calendário judiciário nos Estados Unidos, nenhuma condenação contra ele poderá intervir antes da votação”, sublinha.

Trump transforma ‘foto de réu’ em símbolo de campanha para voltar à Casa Branca

O ex-presidente transformou a sua “foto de réu”, a primeira de um ex-presidente dos Estados Unidos na História, em um artigo de propaganda para a corrida presidencial de 2024. O clique, que mostra o magnata com uma expressão fechada, virou rapidamente o centro das atenções da campanha do republicano para voltar à Casa Branca — sendo apresentada como a evidência física do reiterado discurso de Trump, e de boa parte de seu partido, de que ele é alvo de uma perseguição política injusta.

Não muito tempo depois da foto policial ser tirada no condado de Fulton, na Geórgia, ela já se tornava uma das mais vistas ao redor do mundo. E a própria campanha do ex-presidente fez questão de ampliar o alcance.

O ex-presidente aproveitou a imagem para fazer sua publicação de retorno ao Twitter (agora X), rede social da qual havia sido banido após incentivar a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.

“Foto do réu – 24 de agosto de 2023. Interferência eleitoral. Nunca se renda”, diz a publicação feita na noite de quinta-feira. A postagem também continha um link direto para o site da campanha de Trump, em uma página destinada a doações de campanha.

Foto viraliza

Embora esta seja a quarta acusação criminal contra ele em poucos meses, o favorito para conquistar a indicação republicana para disputar as eleições de 2024 enfrentou pela primeira vez a exigência de comparecer a uma prisão, diante das câmeras dos meios de comunicação de todo o mundo.

Mas a estadia na prisão durou cerca de 20 minutos. Assim como os demais 18 acusados no caso, Trump foi detido e imediatamente liberado após o pagamento da fiança e de ter suas digitais e fotografia registradas pelas autoridades. Ele também concordou em não utilizar as redes sociais para intimidar promotores, juízes e testemunhas no caso.

A hashtag #TrumpMugShot (fotografia de réu de Trump) figurou entre os assuntos mais comentados no X, a plataforma de mídia social anteriormente conhecida como Twitter, nesta quinta-feira, antes mesmo de ser divulgada pelas autoridades.

Da mesma forma, os demais acusados no processo contra Trump que se apresentaram às autoridades foram fotografados e as imagens estão circulando em programas de televisão e nas redes sociais. Entre eles está o ex-prefeito de Nova York e ex-advogado de Trump, Rudy Giuliani, que teve a fiança fixada em US$ 150 mil (cerca de R$ 730 mil) e que compareceu na quarta-feira à prisão Rice Street.

— Esta acusação é uma farsa — declarou Giuliani ao sair da prisão.

Os 19 acusados têm até meio-dia (13h de Brasília) de sexta-feira para se entregarem às autoridades. Eles devem retornar ao tribunal na semana de 5 de setembro, presumivelmente para anunciar se se declaram culpados ou não. A procuradora quer que o julgamento aconteça em março de 2024.

Trump passa a usar sua prisão como discurso inicial de campanha

Acima do espaço para doação, a página exibia o que apresentava como uma mensagem pessoal de Trump aos seus apoiadores. Em tom emotivo, claramente destinado a mobilizar suas bases, o ex-presidente diz ter sido preso “na prisão notoriamente violenta do condado de Fulton, Geórgia” apesar de “não ter cometido nenhum crime”.

“O povo americano sabe o que está acontecendo. O que aconteceu é uma caricatura de justiça e INTERFERÊNCIA ELEITORAL. A esquerda quer intimidar VOCÊ para que não vote em um político de fora [do establishmet] que coloca o povo americano em PRIMEIRO LUGAR. Mas hoje entrei na cova dos leões com uma mensagem simples em nome de todo o nosso movimento: NUNCA RENDEREI A NOSSA MISSÃO DE SALVAR A AMÉRICA. Se você está mal por causa das pessoas sinistras que controlam nosso país neste momento, nem pense em doar! Mas se puder, por favor, faça uma contribuição para expulsar o Crooked Joe Biden da Casa Branca e SALVAR A AMÉRICA durante este capítulo sombrio da história da nossa nação”, diz o texto.

Foto: reprodução (X)

De acordo com o bilionário Elon Musk, dono da rede social, a publicação com a foto (e com o link para o site de doação) tinha cerca de 10 milhões de visualizações por hora menos de um dia após a publicação. Na tarde de ontem, ela tinha mais de 315 mil reposts.

— É dramaticamente sem precedentes — disse Sean Wilentz, professor de história americana na Universidade de Princeton, em entrevista ao The New York Times. — De todos os milhões, talvez bilhões de fotos tiradas de Donald Trump, esta pode ser a mais famosa.

Não é a primeira vez que uma fotografia de réu é utilizada como arma política em diferentes contextos. Elas foram usadas para sugerir culpa e vergonha e para derrubar famosos, como no caso de O.J. Simpson, cujo olhar fixo e a sombra da barba por fazer acabaram na capa da revista Time — embora em uma imagem desnecessariamente escurecida pela revista.

Mas essas fotos também se tornaram símbolos de orgulho: daqueles que se posicionam contra o abuso de poder e as injustiças legais, como Martin Luther King Jr. e John Lewis, ou mesmo Jane Fonda, cuja foto de 1970, depois de ter sido presa sob falsas acusações de contrabando de drogas, com o punho erguido contra a Guerra do Vietnã, tornou-se um chamado à ação para uma geração de mulheres ativistas.

Trump e seus assessores entendem isso muito bem. E parecia estar preparada. Enquanto o ex-presidente afirmava que ser fotografado como réu “não é uma sensação confortável – especialmente quando você não fez nada de errado”, em uma entrevista ao site da Fox News, pouco depois de ser fichado, o espaço de vendas de produtos ligados a campanha começou imediatamente a oferecer produtos como adesivos, canecas, coolers de bebidas e camisetas em diferentes cores e tamanhos com a foto do ex-presidente, com preços entre US$12 e US$36 (R$ 58,50 e R$ 175,50).

Poucas palavras

Trump chegou ao condado de Fulton, na Geórgia, por volta das 19h30 (20h30 em Brasília), após decolar de seu clube de golfe particular em Nova Jersey no final da tarde. Ele foi recebido por uma horda de apoiadores e de críticos com faixas e cartazes na porta da prisão.

Ausência em debate

A apresentação de Trump às autoridades da Geórgia ocorre após o primeiro debate para as primárias republicanas, realizado na noite de quarta-feira em Milwaukee, Wisconsin, ao qual o magnata considerou desnecessário comparecer, dada a sua liderança nas pesquisas.

Em vez disso, o empresário deu uma entrevista ao ex-apresentador da Fox News Tucker Carlson, que foi ao ar na rede social X (antigo Twitter) ao mesmo tempo em que o debate era exibido.

— Por que deveria ficar ali por uma hora ou duas (…) sendo assediado por pessoas que sequer deveriam ser candidatos presidenciais? — questionou Trump, ao justificar sua ausência. 

(Com New York Times e L’Express)