
Brasil possui grandes reservas minerais, mas possui dificuldades no processamento e refino (Foto: Dominik Vanyi/Unplash)
O Brasil está no centro de uma guerra de narrativas entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os Estados Unidos em torno do controle de minerais críticos — em especial as chamadas terras raras. Embora o país possua uma das maiores reservas desses recursos no mundo, enfrenta dificuldades estruturais para processá-los e transformá-los em tecnologia, o que o mantém como mero exportador de matéria-prima.
Enquanto Washington se apresenta como um parceiro estratégico para reduzir a dependência global da China, Lula adota um discurso de nacionalismo econômico. “Temos todos os minerais ricos que vocês querem proteger. E aqui ninguém põe a mão”, afirmou o presidente durante evento em Minas Gerais, ao criticar a atuação de interesses estrangeiros no setor.
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Do lado americano, há pressa. Representantes do governo dos EUA têm intensificado o diálogo com autoridades e entidades como o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) para viabilizar acordos bilaterais, sob influência direta do ex-presidente Donald Trump. A proposta envolve cooperação técnica e industrial, mas até agora não houve apresentação de planos concretos para processamento conjunto.
Na prática, o Brasil segue inerte. Apesar de ter a segunda maior reserva mundial de terras raras, sua produção ainda é insignificante: apenas 80 toneladas por ano, frente às 350 mil toneladas extraídas globalmente. O problema se repete com outros minerais estratégicos como grafita, manganês, níquel, cobre e lítio, cuja exploração permanece abaixo do potencial por falta de tecnologia, infraestrutura, segurança jurídica e incentivos públicos.
O pesquisador Nélio Reis, autor de Terras Raras, Poder e Independência, aponta que nem Brasil nem EUA avançaram em uma política clara para transformar o potencial mineral em autonomia tecnológica. “A narrativa anda mais rápido que os investimentos”, critica. Segundo ele, sem um plano de refinarias, política industrial ativa e regras transparentes, o país continuará perdendo espaço no mercado global.
A disputa também tem sido usada politicamente. Parlamentares como o deputado Filipe Barros (PL-PR), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, acusam Lula de hipocrisia ao rejeitar interesses dos EUA enquanto, segundo ele, abre espaço para estatais chinesas no setor. Ele cita a venda da mineradora Taboca, com reservas de urânio e nióbio, a investidores ligados à China.
No contexto geopolítico, o interesse dos EUA nas terras raras brasileiras faz parte de uma estratégia mais ampla de afastamento da dependência chinesa. O governo Trump já havia declarado emergência nacional no setor de minerais críticos, enquanto Joe Biden sancionou leis para injetar bilhões de dólares em cadeias produtivas ligadas à transição energética.
A maior investida recente foi na Ucrânia. Em troca da manutenção da ajuda militar americana, o país europeu ofereceu acesso prioritário às suas jazidas minerais. Embora simbólico — já que a guerra dificulta qualquer produção real — o acordo serviu como vitória política para Trump e para o presidente Volodymyr Zelensky.
O Brasil, por sua vez, tem estabilidade política e potencial geológico já mapeado, mas carece de uma política industrial robusta. O Ministério de Minas e Energia chegou a anunciar a criação de uma estratégia nacional para minerais críticos, prevista para o próximo ano. A medida poderia estimular polos industriais, geração de empregos e cláusulas de royalties, mas ainda está em fase de planejamento.
Enquanto isso, o país segue na corda bamba entre a soberania e a dependência. A ausência de ações estruturadas transforma a maior riqueza mineral em ativo inexplorado — e em palco para narrativas ideológicas, tanto internas quanto externas.
