Política

Brasília

Sem Poder: Congresso vira coadjuvante e acende alerta sobre erosão democrática

Decisões do STF anulam votações amplas no Legislativo e acentuam crise de representatividade; parlamentares denunciam perda de autonomia do Congresso Nacional.


Os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, lideram um Congresso sem poder efetivo  – Foto: Agência Senado

O Congresso Nacional, composto por 594 parlamentares eleitos por quase 160 milhões de brasileiros, enfrenta um esvaziamento crescente de suas atribuições mais relevantes. Com orçamento anual superior a R$ 15 bilhões, o Legislativo vem se tornando, na prática, um ator coadjuvante nas principais decisões políticas, econômicas e sociais do país.

A centralização de poder no Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de decisões monocráticas, tem invalidado votações expressivas do Parlamento, gerando um cenário de instabilidade institucional e questionamentos sobre a vitalidade democrática brasileira.

Continua depois da Publicidade

O episódio mais recente envolveu o aumento das alíquotas do IOF. Após o presidente Lula decretar a medida, a Câmara dos Deputados votou com ampla maioria — 383 votos — pela suspensão do decreto. No entanto, o ministro Alexandre de Moraes anulou a decisão do Congresso, restabelecendo o aumento e alegando que o Legislativo teria extrapolado suas competências.

Parlamentares de diversas siglas têm denunciado o enfraquecimento do Congresso. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) ironizou que o Legislativo poderia “fechar as portas”, já que a Constituição estaria sendo reescrita na prática por decisões do STF. Kim Kataguiri (União-SP) e Marcel van Hattem (Novo-RS) também criticaram publicamente a Corte, acusando-a de usurpar a soberania popular.

O caso do Marco Civil da Internet reforça essa tendência. Mesmo sem mudanças legislativas, o STF reinterpretou pontos da lei de 2014 e desconsiderou a decisão do Congresso de manter seu conteúdo original. A justificativa da Corte — a de suprir omissões legislativas — tem sido usada para legislar de fato, o que, para críticos, fere o princípio da separação dos poderes.

Outro exemplo ocorreu na última semana, com a aprovação do projeto de flexibilização do licenciamento ambiental. O texto, aprovado por 267 deputados, já tem judicialização prevista por parlamentares e entidades alinhadas à esquerda, indicando novo embate com o Judiciário.

Senadores como Oriovisto Guimarães (PSDB-PR), Izalci Lucas (PSDB-DF), Eduardo Girão (Novo-CE) e Jaime Bagattoli (PL-RO) também expressaram indignação com o atual cenário, sugerindo inclusive um “recesso prolongado” para o Congresso diante de sua perda de relevância prática.

Em meio à crescente judicialização da política, especialistas e parlamentares alertam: sem equilíbrio entre os poderes, a democracia brasileira corre o risco de se transformar em mera formalidade.